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Querida Claudia:

Clarissa Thomé - O Estado de São Paulo

15 Março 2014 | 16h 05

Há 50 anos, uma noivinha de subúrbio ganhava seu casamento de sonho, com garçons, bolo do bufê Gloria e Paulo Mendes Campos como padrinho

RIO - A carta chegou à redação da revista Claudia há 50 anos, dirigida à seção que prometia realizar sonhos. Thereza Oliveira da Silva, de 18 anos, descrevia o casamento perfeito: garçons uniformizados, muitos convidados. E um discurso proferido por seu escritor favorito, Paulo Mendes Campos. Mas tudo não passava de devaneio, ela reconhecia. A "realidade sem poesia" era bem diferente: sua união com o serralheiro José Francisco Aguiar seria simples. A família não tinha como arcar com os gastos da festa.

A carta da jovem moradora de Vila da Penha, subúrbio carioca, comoveu os editores da revista. E a publicação cuidou de tudo - do rum Bacardi, do bolo do bufê Glória, dos garçons bem-vestidos. E da presença de Paulo Mendes Campos, que aceitou ser padrinho dos noivos e homenageou Thereza com uma crônica.

A história da noivinha suburbana, que preferiu a poesia à futilidade, foi resgatada pelo jornalista e escritor Humberto Werneck em coluna publicada no Estado em 16 de fevereiro. Naqueles dias conturbados de 1964, o sonho de Thereza ganhou as páginas do Jornal do Brasil, dividindo espaço com a volta do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, encarregado de divulgar na Europa os objetivos do regime militar recém-instaurado; foi citado por Rubem Braga numa coluna, e virou tema de carta de Otto Lara Resende para Fernando Sabino na qual descrevia ao amigo comum que vivia em Londres a "carinha lambida do PMC" no casamento.

Cinco décadas mais tarde, a história de Thereza instigou Werneck. "Quanto a este cronista, deu vontade nele de saber se há, em Brás de Pina ou qualquer outro canto, um casal que sonha festejar em 11 de julho próximo, com ou sem poesia, as suas bodas de ouro. Ou seria mais prudente deixar quieto?"

Casamento não há - a união durou apenas uma década, mas a amizade foi mantida até o ano passado, quando José Francisco morreu, aos 70 anos, de câncer de pulmão. Thereza e o marido tiveram três filhos, seis netos. Hoje, aos 68 anos, ela vive sozinha numa vila humilde, no Tanque, em Jacarepaguá, zona oeste. E recebeu o Aliás para contar sua história, sempre com bom humor.

Thereza começa com um esclarecimento: não contou toda a verdade à revista. Haveria, sim, uma festa - ainda que modesta - para comemorar a união com o vizinho José Francisco, capixaba de Alegre. Moravam, como Rubem Braga registrou no JB, "na Travessa da Prosperidade, que começa na Rua do Trabalho e acaba na Travessa da Benevolência" - ele, num sobrado, com a tia, enquanto cumpria o serviço militar obrigatório. Thereza, na casa em frente, com os pais, o carvoeiro Manoel José e a dona de casa Olga, e o irmão, Francisco.

Namoraram quase dois anos e marcaram o casamento para o dia em que José Francisco completava 21 anos - 11 de julho de 1964. Alheia às mudanças políticas por que passava o País, Thereza lembra-se de que evitava ir ao centro da cidade, que andava conturbado. "A Central do Brasil era como agora. Toda hora tinha manifestação, passeata." O pai providenciou salgados para a festa em Madureira, na zona norte. A cerimônia na Igreja Nossa Senhora do Amparo, em Cascadura, e a recepção na pequena casa da travessa lotaram: estiveram lá os colegas de Thereza na fábrica de enceradeiras Lustrene, o pessoal do Vila da Penha Futebol Clube, em que ela era diretora do departamento feminino, os amigos da rua.

A ideia de escrever a Claudia surgiu quando leu a respeito da promoção que prometia a realização de um sonho. O de Thereza era simples: queria um casamento lindo e, para padrinho, Paulo Mendes Campos. Nas noites do subúrbio, em que a única opção de lazer eram os bailes de sábado no clube de futebol, Thereza dedicava-se à literatura - Machado de Assis, Clarice Lispector, Fernando Sabino. Paulo Mendes Campos sempre foi o preferido.

"Clarice era mais fechada. Mas era como se o Paulo Mendes Campos conversasse com a gente. Todo dinheiro que sobrava eu comprava Claudia para ler os textos dele. E dizia para minha mãe que ainda iria conhecê-lo. Mais que a festa, eu queria vê-lo no meu casamento, mas nunca imaginei que pudesse acontecer de verdade", lembra Thereza.

Mineiro, Paulo Mendes Campos havia se mudado para o Rio nos anos de 1940. Formava com Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino um grupo apelidado, por Resende, de "os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse". De temperamento mais fechado que amigos como Rubem Braga ou Sabino, em 1964 já havia publicado quatro livros de poesia e três de crônica. E seus textos faziam sucesso nas páginas de Claudia.

A revista realizou os desejos de Thereza. O cronista e a mulher, a inglesa Joan, chegaram atrasados à igreja - perderam-se no caminho. Thereza mal conseguiu acreditar quando viu o casal no altar e, depois, ouviu o discurso-crônica na recepção. O contato com o ídolo foi pequeno. Intimidou-se. Thereza lembra que ele e a mulher eram pessoas muito simples e Mendes Campos parecia verdadeiramente emocionado. O cronista anotou o telefone de um vizinho e prometeu entrar em contato. Não aconteceu. Thereza acredita que ele tenha telefonado e os recados nunca foram repassados.

Não houve nenhuma nova ligação, diz Joan Mendes Campos, viúva do escritor. Mas ela lembra da noite "de muita emoção". "Era um casal muito bonito, ela tão jovem. E escolheu o Paulo. Ficamos todos muito emocionados", conta Joan, que ficou surpresa ao saber que o casamento havia durado uma década.

Além da crônica, o escritor presenteou Thereza com dois livros seus e outros de autores amigos, como Rubem Braga e Fernando Sabino. Todos autografados. Conforme Thereza lia os exemplares, encontrava bilhetes de Paulo Mendes Campos. Eram indicações de trechos mais interessantes, comentários, sugestões de outras leituras. "Foi uma prova de carinho tão grande... Eu, que o admirava, passei a gostar ainda mais dele."

Thereza perdeu tudo - os livros e o único exemplar da revista que contava sua "história de Cinderela" - numa das enchentes que assolavam o bairro e fizeram a família ter de mobiliar a casa diversas vezes.

A festa foi curta para os noivos. Pegaram o trem das 11, na Leopoldina, para Campos dos Goytacazes, no norte fluminense. Quando voltaram da lua de mel ainda não se falava de outra coisa na Vila da Penha. Contavam que a comemoração havia seguido até a manhã seguinte. Que os convidados saíram com garrafas de rum. Que o bufê voltou com muita comida. Como toda festa de pobre, tinha muita fartura, diz Thereza.

José Francisco havia deixado o Exército e trabalhava como serralheiro - os equipamentos foram comprados com a ajuda do sogro. O casal morava com os pais de Thereza. Na entrevista a Claudia, ela dizia que seria dona de casa e os filhos viriam aos poucos, "porque a vida está difícil". Não foi o que aconteceu. Logo engravidou de Claudio Marcelo (batizado assim em homenagem à revista). Em seguida vieram Flávio Augusto e Andrea, esses com intervalo de apenas 11 meses entre um e outro.

Desde cedo percebeu que os ganhos do marido não seriam suficientes para sustentar a família. Estava grávida do primogênito quando prestou, em segredo, concurso para a Secretaria Estadual de Educação. Já morava no Brás, em São Paulo, onde o marido conseguira emprego depois de perder a serralheria, "por falta de juízo para administrar", quando recebeu telegrama convocando-a para assumir o cargo de secretária escolar no Colégio Estadual Heitor Lira, na Vila da Penha. Era a desculpa para voltar para o Rio. Trabalhou ali por 33 anos, até a aposentadoria.

José Francisco sempre foi ciumento. Queria encobrir as próprias traições, Thereza acredita. A separação veio uma década depois do casamento dos sonhos, quando Thereza descobriu "outra esposa" do serralheiro. Ele não queria o divórcio. Coube à secretária escolar convencer a rival: se quisesse mesmo se casar com José Francisco, que conseguisse que ele assinasse o documento. Thereza acredita ter sido a primeira divorciada da Vila da Penha.

José Francisco não ligava para literatura. Achava bobagem o tempo que Thereza perdia lendo e nunca percebeu que seu sobrenome foi publicado errado em Claudia - Sousa Leite (nome de sua mãe), no lugar de Aguiar, como foi registrado. Mas ele fez questão de guardar um exemplar da revista e o álbum de casamento. "Foi apaixonado por mim até o fim", ela diz.

Thereza dedicou-se aos filhos, à escola em que trabalhava e ao Botafogo. Chegou a diretora de duas torcidas organizadas e viajava com a filha caçula para assistir aos jogos - os dois mais velhos não resistiram aos 21 anos de jejum do alvinegro e se tornaram flamenguistas. Fez campanha para que o lateral direito Perivaldo fosse convocado por Telê Santana na Copa de 82 - chegou a perseguir o técnico no calçadão de Copacabana e instalou uma faixa com os dizeres "Telê, por que não Perivaldo?". Guarda fotos com o jogador, que por fim foi escalado, e se entristeceu ao saber que havia virado mendigo em Portugal.

Casou novamente, com um funcionário da Petrobrás. Passaram 28 anos juntos e ele criou os filhos da secretária. Mas desse Thereza não quer nem lembrar. A dor da segunda separação desencadeou o vitiligo, que lhe tomou a cor morena. Desistiu de se tratar com a melagenina cubana por causa dos efeitos colaterais. "Aceitei a cor da pele que Deus quis me dar."

Vendeu a casa dos pais nos anos 1990, por pressão dos sobrinhos, depois que o irmão morreu de enfarte na praia. Comprou um apartamento na Vila da Penha. Mas por dificuldades financeiras foi trocando por imóveis em lugares menos valorizados - Rocha Miranda, Vila Vintém, Avenida Brasil. Há um ano, mora sozinha numa quitinete no Tanque, bairro de classe média baixa, num ambiente não muito diferente da Vila da Penha de sua infância, onde uma vala aberta corria na porta. No ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, que mede longevidade, educação e renda, o Tanque ocupa a 69ª posição entre 126 bairros cariocas. Vila da Penha está em 21.º lugar.

Ela já não frequenta bibliotecas ou lê revistas como antes - tem dificuldades para enxergar, por causa da diabete nem sempre controlada. Como a Thereza que foi aos 18 anos, ainda acredita que seja importante sonhar. "Mas agora meus sonhos não são românticos. Sonho com viagens com meus filhos, que meus netos sejam pessoas realizadas." Se pudesse sonhar um pouco mais longe, pediria a volta aos desfiles da Série A, o antigo grupo de acesso, na Marquês de Sapucaí da escola de samba que presidiu por três vezes, a Unidos de Vila Santa Tereza. No ano passado, o atraso nas fantasias, que fez passistas desfilarem de lingerie branca, levou Thereza às lágrimas e devolveu a agremiação ao desfile na Avenida Intendente Magalhães, em Campinho, na zona oeste.