TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

'Real Book', 40 anos depois, ganha versão digital brasileira

Livro considerado a bíblia do jazz, criado nos anos 70, reúne obra instrumental brasileira contemporânea e propõe mapeamento nunca feito de uma produção difusa pelos cantos do País

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2017 | 07h00

A música brasileira acaba de ganhar seu livro real. O Real Book, que reúne toda a obra maior do jazz desde os anos 1970, com partituras definitivas de Miles Davis a Thelonious Monk, Dave Brubeck a Ornette Coleman, concedeu pela primeira vez os direitos da marca a um grupo de brasileiros. 

O Real Book Brasil sai neste primeiro instante como aplicativo, sem a versão física. Ao custo único de US$ 8,99 (equivalente a R$ 28), o interessado passa a ter acesso a uma obra sempre em atualização. O material reunido, hoje, concentra-se na criação de 70 músicos que cederam mais de 400 partituras. Ao contrário do grande livro usado em todo o mundo, as possibilidades triplicam com a nova tecnologia. Cada artista terá, além das pautas que poderão ser impressas, clipes, fotos, agenda, videoaulas, podcasts e a possibilidade de uma atualização frequente de todas as mídias. O contato empresarial de cada artista também pode aproximá-lo de contratantes sobretudo no exterior, e fazer a roda da economia do setor girar com mais rapidez.

Os envolvidos no projeto não desistiram do livro físico, apesar de não o terem como prioridade. “Nós temos os direitos registrados para a publicação, mas o emergencial era o aplicativo. Era importante ressaltar a função do projeto como acervo, ou seja, organizamos esse acervo que até agora era inexistente na música brasileira”, diz a produtora executiva Débora Venturini.

A obra não inclui, nesta primeira fase, composições de músicos mortos. “Seria um trabalho infinito ir atrás de todas as autorizações para o lançamento. Vamos fazer isso, mas em um segundo instante”, diz Lupa Santiago, guitarrista e idealizador. Ele conta que falou até agora com 130 artistas para fazê-los entender a proposta. A equipe negocia ainda com Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti para que suas obras sejam incluídas. Além de Débora e Lupa, a equipe inclui a produtora Mariana Sayad, o coordenador editorial Rodrigo Morte e o designer Luciano Murino.

O livro ganhou, assim, uma identidade híbrida, também diferente do Real Book norte-americano. Ao mesmo tempo em que aparece a obra definitiva de ícones como o violonista e guitarrista Roberto Menescal, o violonista Romero Lubambo, o cantor e compositor Filó Machado, o pianista Amilton Godoy e o trombonista Bocato, estão lá os “novos ícones” André Marques (pianista), Edu Ribeiro (baterista) e Gabriel Grossi (gaitista). O violinista Ricardo Herz, que também tem sua obra compilada em um ambiente, diz: “Os músicos poderão compartilhar temas e torná-los mais conhecidos pelo Brasil, algo que nunca aconteceu por não haver esse material”.

Filó Machado tem memórias ruins das vezes em que viu sua obra mal tocada e mal creditada. Ele se lembra de uma instrumentista que gravou Jogral, feita em parceria com José Neto e Djavan, errando a melodia e creditando a música apenas a Djavan (que fez a letra). “É por isso que um trabalho como esse se torna importante. É preciso ter respeito pelas obras. Quando damos nossas versões, temos de tocar a música ao menos na primeira vez exatamente como ela foi escrita.”

O Real Book Brasil pode se tornar ainda a oportunidade de se mapear a música brasileira como ainda não foi feito. “Não há uma curadoria para barrar artistas que queiram participar”, diz Débora. “Mas precisamos que ele tenha ao menos um disco lançado”, complementa Lupa. A música dos guitarristas do Norte, por exemplo, jamais reconhecidos como criadores de uma linguagem musical brasileira, pode ganhar ali a mesma visibilidade que já tem a obra de Hermeto Pascoal. A equipe do Real Book diz estar disposta a organizá-la e, quando precisar, escrevê-la. “Muitas dessas obras não foram escritas em partituras. Quando for assim, teremos de fazer isso”, diz Rodrigo Morte. 

Livro nasceu para organizar caos entre os músicos

Foi nos anos 1970 que os norte-americanos se viram obrigados a escrever a obra de seus grandes mestres do jazz

Lupa Santiago, o idealizador do projeto Real Book Brasil, já tocou, como guitarrista, em 35 países. E, em cada um deles, os músicos locais perguntavam onde poderiam conseguir partituras de música brasileira para tocar. Foi daí que nasceu a ideia da compilação da produção brasileira.

O Real Book dos Estados Unidos nasceu nos anos 1970 da mesma necessidade. Muitos instrumentistas chegavam para as jam sessions tocando notas erradas e querendo ter razão diante dos demais. Definir as melodias com exatidão tornou-se então uma necessidade para uma classe que, até então, tocava temas cheios de notas de um Charlie Parker, Dizzy Gillespie ou Sonny Rollins como bem entendia.

O primeiro Real Book trazia a melodia e a harmonia de todas as músicas, mas sem as letras das canções cantadas. A estética das pentagramas lembrava a das escritas à mão, mas não havia direitos para que aquela publicação pudesse continuar no mercado. Apenas em 2004, Hal Leonard lançou a primeira edição oficial e legal.

A Itália lançou seu Real Book no início dos anos 2000. De proposta parecida com o brasileiro, ele foi elaborado pelo músico Antonio Ongarello com aproximadamente cem músicas de compositores do jazz italiano contemporâneo. 

A obra foi adotada, inclusive pelo ensino formal no Brasil, como um dos caminhos obrigatórios pelo qual um estudante deveria passar. Ao mesmo tempo em que levava os grandes temas dos jazzistas pela primeira vez aos alunos daqui (apenas Tom Jobim e outros raros brasileiros apareciam naquelas páginas), o livro fui acusado de, nas mãos de professores despreparados, padronizar o ensino musical sem levar em conta as particularidades de cada aluno. O estudante, qualquer que fosse, deveria trazer como lição de casa uma Take Five sem ao menos saber como aquela música era tocada pelo grupo de Dave Brubeck. / J.M.

REAL BOOK BRASIL

Aplicativo para Android e, até dia 15 de outubro, IOS. Reúne, hoje, mais de 

400 obras de cerca de 70 compositores. 

Preço médio: R$ 28 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.