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Rede é útil para manter e aprimorar o idioma

Marcus Vinícius Brasil

14 Julho 2008 | 00h 00

Também vale a pena utilizar sites como complemento ao aprendizado mais

Apesar de ainda estarem longe de serem usadas como substitutas ao tradicional ensino de línguas, redes sociais são poderosas ferramentas complementares. Há escolas em que os próprios professores recomendam alguns desses sites como maneira de auxiliar o aprendizado. Marcelo Ferreira é um bom exemplo de como a internet 2.0 pode ajudar. Ele tem 20 anos e usa o SharedTalk há três, principalmente para melhorar o inglês. Ele já havia estudado em uma escola tradicional, mas garante que foi graças à internet que chegou ao nível de fluência que desejava. "Quando conversei pela primeira vez com um americano pelo SharedTalk, ele me perguntou ‘what’s up?’ (gíria em inglês que significa algo como ‘e aí?’ ou ‘como vai?’) e eu não fazia idéia do que se tratava. Durante o tempo em que estudei da maneira tradicional, não aprendi nem a mais básica das gírias", conta Marcelo. O SharedTalk o ajudou também no aprendizado do francês. Após estudar por cinco meses em um instituto, ele procurou na internet por parceiros que pudessem ajudá-lo. "Depois de conversar com nativos por algum tempo, prestei um exame de classificação na Aliança Francesa e eles me avançaram três estágios. A avaliadora disse que, mesmo sem um conhecimento gramatical mais aprofundado, a minha pronúncia estava ótima. Mesmo assim não me matriculei e continuo aprendendo pela internet." Visitando as páginas de sites como XLingo e SharedTalk, é fácil encontrar perfis recém-cadastrados vindos dos mais diversos Estados do Brasil. Jefferson Silva mora em Santa Catarina e também é veterano. Sua lista de contatos inclui tailandeses, russos, japoneses e neozelandeses. "Eu ensino da mesma forma que gostaria de aprender. Explico quais são as palavras e expressões mais correntes no dia-a-dia e peço para a pessoa ler textos em português pelo Skype, aí posso corrigir a pronúncia." Thales Coutinho conheceu o iTalki através de amigos e o acessa para praticar tanto inglês, que estuda há seis anos, quanto francês. Ele vê no intercâmbio cultural o maior atrativo desse tipo de aprendizado. "Além de ter melhorado muito o nível do meu francês, conheci novas pessoas. Entrar em contato com outras culturas é um estímulo." O economista Ricardo Nascimento é outro exemplo de uso para essas redes. Apesar de já ter familiaridade com o inglês, ele utiliza o XLingo para "não enferrujar". "Acabei largando o curso porque fiquei desestimulado. Às vezes você cai em uma turma que não tem o perfil que você busca, então comecei a estudar por conta própria na web." Uma das pessoas que ajudam Nascimento a fazer a manutenção do seu inglês é a nova-iorquina Emily Schrynemakers, com quem troca macetes de pronúncia em inglês por outros de português. "A principal dica é procurar por alguém que possua um perfil semelhante ao seu, compartilhe interesses culturais, goste de bandas similares, para que daí possa surgir uma conversa agradável", diz Emily. OBSTÁCULOS É quase consenso que o momento mais problemático do aprendizado em redes sociais é o pontapé inicial. A maioria dos usuários admite que sem um conhecimento mínimo de gramática fica muito mais difícil aprender o resto. "Esse sistema de aprendizado é mais útil para pessoas que já têm um conhecimento intermediário ou avançado. Para o iniciante, sem bases de construção e vocabulário mais amplo, fica difícil", admite Eric Pang, presidente da iTalki. Mas ele garante que já trabalha por uma solução para esse dificuldade. Segundo Eric, o iTalki deve inaugurar um novo sistema que incluirá professores no processo. "A vantagem é que os tutores serão nativos. Ter aula de japonês com um professor do Japão é certamente uma experiência mais enriquecedora." João Telles, professor da Unesp e um dos idealizadores do projeto Teletandem Brasil (ver texto ao lado), vê no sistema de professores nativos mais problemas do que soluções. "As metodologias são muito diferentes entre brasileiros e japoneses. Esse choque de culturas pode ser prejudicial para quem estiver aprendendo." Já a Livemocha encontrou outra solução para o mesmo problema. Além de oferecer uma plataforma para que pessoas possam se conhecer, a rede tem também uma série de exercícios nos idiomas mais procurados – entre eles o inglês e o alemão – voltados para uma prática mais à antiga. "Damos às pessoas não apenas ferramentas para se conectarem com nativos, mas também exercícios básicos de aprendizado." Outra questão que levanta suspeitas no estudo de idiomas 2.0 é a ausência de uma seqüência de aprendizado, mais conhecida como método de ensino. Para a professora Walkyria Monte Mór, do Departamento de Letras Modernas da USP, a ausência de um método rígido não é obstáculo. "Ao contrário. Já houve uma época em que foram priorizadas técnicas e procedimentos, mas essa visão está, no mínimo, sob revisão. A questão do método não é mais tão importante, já que as pessoas estão organizando seu conhecimento de forma diferente." Segundo Walkyria, a única resistência que ela encontra a essas transformações partem de "professores que não sabem transformar suas práticas. Eles entendem que a sociedade mudou, mas, por terem recebido uma outra formação, têm dificuldade de compreender como podem mudar também". Apesar de todas as facilidades da internet, os velhos problemas da web também estão presentes no aprendizado de idiomas. O XLingo, por exemplo, é prato cheio para usuários que espalham spam. Não é difícil também encontrar relatos de usuários falsos cobrando dinheiro pelas aulas, agressões verbais e até xenofobia. "Eu estava no SharedTalk, em uma sala de pessoas da América Latina, quando uma menina começou a nos chamar de ‘aliens ilegais’", conta Marcelo Ferreira. MOEDA DESVALORIZADA Outra dificuldade que o brasileiro encontra é a escassez de usuários querendo trocar seus conhecimentos pelo aprendizado do português. No Livemocha, por exemplo, uma rápida pesquisa pelas salas de alemão mostra que é muito raro encontrar algum nativo da Alemanha que queira aprender outro idioma além de inglês ou francês. Por esse motivo, Emily é um caso raro nessas redes sociais, o que a obriga a lidar com dezenas de mensagens diárias de brasileiros. "Está ficando difícil porque tem um monte de usuários do Brasil me mandando mensagens, e eu não tenho tempo para responder a todas. Eu me sinto mal porque gostaria de ajudar todo mundo, mas chegam cerca de 50 mensagens todos os dias."