Remédio é popular entre os que prestam concursos

Um dos grupos em que o uso irregular de Ritalina é mais popular é o dos "concurseiros": aqueles que se preparam para conseguir uma aprovação nos concorridos concursos públicos. O juiz do Trabalho Rogerio Neiva, que dá aula em curso preparatório e pesquisa sobre neurociência da educação, conta que percebe entre seus alunos "a ideia de que, tomando a Ritalina, vão ter a fórmula mágica do sucesso intelectual e cognitivo".

O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2012 | 02h06

Para ele, a grande atração dos estudantes pela droga vem da esperança de que ela acelere o processo de aprendizado. "Os 'concurseiros' estão atrás da facilidade, da dica, do esquema. É fácil, portanto, cair em qualquer discurso que se aproxime da 'pílula do sucesso'", diz.

No caso de uma "concurseira" de 30 anos, que preferiu não ser identificada, o uso inadequado da Ritalina veio por sugestão de um médico. Ela fazia um tratamento psiquiátrico para distúrbio de humor e sempre reclamava de sua falta de concentração e dificuldade de reter o conteúdo estudado. "Quando você estuda há algum tempo e os resultados positivos não vêm, você fica buscando justificativas."

Seu médico fez, então, algumas perguntas para identificar possíveis sinais de TDAH. Como ela respondeu positivamente a alguns desses sinais, o profissional sugeriu o uso de Ritalina como teste, para ver se ela teria resultado positivo. "Hoje, vejo que foi um teste irresponsável das duas partes: ele, como médico, e eu, como adulta e consciente."

A estudante diz que logo começaram a surgir os efeitos negativos. Com a droga, ela conseguia estudar por várias horas, mas se esquecia de tomar água e se alimentar. "A concentração realmente aumenta, mas é falha, porque ficar sentada nem sempre quer dizer que você está aprendendo." Depois de alguns meses de uso, começou a sentir dores de estômago, prisão de ventre e tremedeira nas mãos.

Em uma ocasião, viajou para fazer uma prova e esqueceu o remédio no hotel. Antes do início do exame, o nervosismo era tanto por saber que teria de fazer a prova sem a droga, que ela roeu todas as unhas. "Desde esse dia, comecei a avaliar se estava vidrada no medicamento, se tinha viciado." Quando suspendeu o uso, passou meses sem estudar direito. "Acho que piorei em concentração: é como se eu tivesse ficado sozinha, sem o remédio que me garantia sucesso. Daí veio o choro e a revolta."

Hoje, ela conseguiu uma aprovação, que credita aos cinco anos de estudo, e não à droga.

Neiva observa que a atração pela Ritalina também pode decorrer do fato de que a vida do "concurseiro" não é fácil. "A preparação é um processo intelectualmente desgastante. É uma fase difícil e é natural que as pessoas tentem buscar recursos para minimizar desgastes", diz. / M.L.

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