EFE/Santi Donaire
EFE/Santi Donaire

Madri reprime plebiscito catalão, que tem 90% dos votos pela independência

Resultado abre crise política que pode levar à queda do premiê Mariano Rajoy e a uma declaração unilateral de secessão

Andrei Netto, enviado especial / Barcelona, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2017 | 20h29
Atualizado 01 Outubro 2017 | 22h19

BARCELONA - O plebiscito separatista realizado neste domingo, 1.º, em condições caóticas na Catalunha, abriu uma crise política na Espanha e pode resultar em uma declaração unilateral de independência de parte dos catalães e na queda do governo do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy. Segundo os resultados divulgados pelo governo catalão, 2,02 milhões de pessoas votaram a favor da independência – 90% dos 2,2 milhões dos votos. O “não” teve o respaldo de 166,5 mil eleitores. Isto quer dizer que 41,5% dos 5,3 milhões de eleitores foram às urnas. 

+ Mais de 800 pessoas ficam feridas em confrontos com policiais na Catalunha

A turbulência foi causada pela violenta repressão ordenada por Madri, que enviou agentes da tropa de choque para tentar impedir a votação em Barcelona e no interior, fechando seções e confiscando urnas e cédulas eleitorais. Quase 880 pessoas ficaram feridas em choques entre a polícia e os independentistas. 

O dia que marcará a história contemporânea da Espanha começou com a mobilização dos separatistas ainda na madrugada, quando realizaram o bloqueio de escolas e pontos de votação para tentar impedir a ação policial. Por ordem da Justiça e de Rajoy, agentes da Guarda Nacional, enviados por Madri para impedir o voto, usaram a força bruta para tentar desmantelar o plebiscito. Para tanto, usaram cassetetes e balas de borracha com o objetivo de retirar os manifestantes dos portões das escolas. 

Indignados, os independentistas resistiram à chuva forte e ao assédio das forças de ordem. O resultado foram imagens de violência que chocaram a Europa. Fotógrafos e câmeras de TV do mundo inteiro flagraram uso excessivo da força por parte da polícia, que deixou até mesmo idosos feridos entre as 844 pessoas atendidas em hospitais, segundo a Secretaria de Saúde da Catalunha. Em resposta, a mobilização do eleitorado independentista só cresceu ao longo do dia. Filas quilométricas tomaram o entorno das seções eleitorais que não foram fechadas pela polícia, e até o final da noite 2,2 milhões de pessoas teriam votado, segundo o governo catalão.

Pressionado pelo impacto negativo das imagens, Rajoy fez um pronunciamento no qual não reconheceu os excessos da polícia, preferindo reforçar o respeito à legalidade. “Sempre acreditei que minha principal obrigação como presidente de governo era cumprir a lei e fazê-la cumprir”, justificou. “Hoje não houve um plebiscito de autodeterminação na Catalunha. Hoje todos os espanhóis constatamos que o governo mantém o estado de direito.”

Rajoy acusou ainda os organizadores do plebiscito de serem os únicos responsáveis pelos incidentes. “Quero deixar claro que os responsáveis são única e exclusivamente os que promoveram a ruptura da legalidade e da convivência. Não busquem mais culpados, pois não há”, reiterou, defendendo a ação “firme e serena” de seu governo.

Em pronunciamento solene, feito em torno de todos os seus principais assessores, o presidente regional da Catalunha, Carles Puigdemont, deu a entender que fará uma declaração unilateral de independência nos próximos dias, em razão do impasse político com Madri. “A Catalunha ganhou muitos plebiscitos. Hoje milhões de pessoas mobilizadas disseram alto e claro: temos direito de decidir nosso futuro, queremos viver em paz, fora de um Estado que impõe e usa a força bruta”, sustentou, sugerindo que pode pedir a intermediação da Europa no impasse.

“Vimos uma violência policial que era possível evitar, uma ação contraditória do governo de Madri, que saiu dos limites da lei para supostamente defender a lei”, afirmou Miguel Oliver, de 42 anos, ativista que espera uma intermediação da Europa e uma declaração unilateral de independência de parte do governo catalão. “Espero uma condenação internacional sobre tudo o que se passou na Catalunha neste domingo.”

Para Victor Cassanovas, de 27 anos, empresário que acompanhava a apuração na rua nesta noite, a Espanha viveu um ponto de não retorno no domingo. “Este é um dia que em 40 anos será estudado nas escolas. Nunca se viu nada igual. Hoje não se trata de votar sim ou não, mas de defender nossas liberdades”, disse. 

Um dos maiores sindicatos trabalhistas da Espanha, CCOO, convocou uma greve geral na Catalunha na terça-feira “para condenar a violência utilizada pelas forças de segurança do Estado”. Também haverá protestos na tarde de segunda-feira.

Sem maioria no Parlamento, e logo sujeito à boa vontade dos partidos opositores de esquerda, Rajoy corre risco. Tevês espanholas informaram que a hipótese de convocação de eleições gerais antecipadas é cada vez mais real. 

 

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