Sair da web? Para ver TV e ouvir rádio é que não é

Declarações do presidente do Google e de Hélio Costa sugerem que as pessoas se desconectem da rede; mas não foi isso que eles quiseram dizer

Bruno Galo, de O Estado de S. Paulo,

01 Junho 2009 | 14h52

A internet é apenas um instrumento. O uso que fazemos dela é que a torna tão importante. Seja para se informar, se comunicar, se divertir - ou fazer qualquer outra coisa que "der na telha" -, a web tem se provado uma ferramenta, não apenas relevante e atraente, mas absolutamente indispensável.   Foi exatamente isso o que o Link ouviu dos entrevistados desta edição (a opinião de cada um deles está espalhada nesta e nas próximas três páginas). Em suma e por diferentes razões, eles apontaram a web como "parte fundamental da minha vida".   Essas palavras do escritor Laurentino Gomes, autor do best-seller 1808, resumem bem a opinião de todos e cristalizam o momento que vivemos hoje: nossa vida tem ligação direta com a internet, assim como, por exemplo, a energia elétrica é vital.   POLÊMICA   Na segunda-feira (18), o presidente do Google, Eric Schmidt, surpreendeu ao sugerir, durante um discurso para estudantes da Universidade da Pensilvânia, que eles deveriam desligar seus computadores. "Está na hora de vocês descobrirem tudo o que é humano ao nosso redor", ponderou. Mas e a tecnologia, não é humana?   Para entender melhor o que Schmidt quis dizer fomos conversar com o presidente do Google na América Latina, Alexandre Hohagen. De qualquer forma, é possível identificar no discurso de Schmidt a ideia de que seria saudável manter uma espécie de equilíbrio entre a vida online e offline, ainda que essa separação faça cada vez menos sentido.   No dia seguinte, foi a vez do ministro das Comunicações, Hélio Costa, afirmar durante a abertura do 25° Congresso Brasileiro de Radiodifusão, realizado pela Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), que "a gente tem que criar alguma coisa diferente para esta juventude, que está deixando de ver televisão (e ouvir rádio) e só fica dependurada na internet. Essa juventude tem que voltar a ouvir rádio, tem que voltar a ver TV".   A afirmação do ministro, apontada como anacrônica, foi alvo de uma série de críticas. Mas ler ou ouvir a declaração completa de Costa, disponível em tinyurl.com/helioc, revela que ela não foi tão absurda assim, ainda mais levando-se em conta o contexto. Diga-se de passagem, ela é razoavelmente diferente da reproduzida por boa parte da mídia.   Por outro lado, os jovens, mas não só eles, estranharam a última frase do ministro. Afinal, assistir televisão e ouvir rádio é algo possível - e não é de hoje - de se fazer... na internet.   De um jeito ou de outro, na semana passada, o Link procurou Costa para falar sobre a polêmica que se formou após o seu discurso e encontrou um ministro disposto a desfazer o mau entendido.      Andrew Keen O escritor britânico Andrew Keen é considerado um dos principais críticos da rede devido seu livro O Culto do Amador (recém-lançado no Brasil pela editora Zahar). Suas baterias, entretanto, não estão voltadas contra a tecnologia em si, mas contra a chamada web 2.0, baseada no conteúdo feito por usuários, seja em blogs ou em sites, como YouTube e Wikipedia. Na semana passada, ele falou ao Link, por telefone:   Você viveria sem internet? Não podemos viver sem ela. A internet é importante demais. Os nossos hábitos são dependentes dela. Teríamos que reaprender a viver de outra maneira.   Trocar a internet pelo rádio ou pela televisão é uma boa ideia? Absolutamente não. Alguém que propõem isso está indo contra a corrente. Podemos conseguir tudo na web. E a convergência digital está em andamento. A televisão e o rádio como conhecemos já está morto.   Isso é bom ou ruim? Além do bom ou do ruim, isso é a verdade. As empresas de rádio e TV sabem disso e já estão se adaptando, em todo o mundo.      Hélio Costa Responsável por tocar o programa de inclusão digital do Governo Federal, o ministro das Comunicações Hélio Costa falou ao Link claramente disposto a desfazer qualquer mau entendido.   Por que a juventude "tem que voltar a ouvir rádio, tem que voltar a assistir televisão"? Primeiro, acredito que houve intenção de deturpar minha declaração. O que quis dizer é que o jovem precisa diversificar e não largar a rede. Mas para isso o rádio e a televisão precisam se modernizar, tornando-se mais atraentes para esse público. Eu propus um desafio às empresas. Afinal, o jovem hoje já prefere a internet, que é maravilhosa - com ela temos acesso ao mundo. Entretanto, entendo que o rádio e a televisão ainda são os principais meios de comunicação de massa.   A internet é uma ameaça à televisão e ao rádio? De forma alguma. É apenas um avanço. Mas, para que esse avanço seja completo, a orientação na escola é fundamental. É preciso mostrar para as crianças e os jovens que a internet é muito mais do que o MSN e o Orkut. E um dos principais focos é o nosso programa de inclusão digital, que irá levar internet banda larga para todos os municípios e escolas públicas do País.      Alexandre Hohagen Se há alguém interessado nas pessoas conectadas, esse alguém é o Google. Então como entender o discurso do seu presidente? Perguntamos a um funcionário dele - Alexandre Hohagen, o presidente da empresa da América Latina.   Eric Schmidt certamente não quer que as pessoas saiam da internet. O que então ele quis dizer? Não sei. Vou pegar o celular, ligar para ele e perguntar (ri). Brincadeira... Eu acho que Eric falou aos estudantes como qualquer pai preocupado com a educação dos filhos, como eu digo para as minhas irem brincar e saírem do computador. O Google acha que a internet faz parte do dia-a-dia, e não é "o" dia-a-dia. Outro dia percebi que minha filha não conhecia os Smurfs. Foi na TV que apresentei. Hoje está viciada.   Há dois anos a capacidade do Gmail para cada usuário não passa da linha dos 7 gigabytes. O Google também vem apresentando instabilidades. Os servidores ainda aguentam muito tempo? Claro. Não temos qualquer problema com os servidores. Fico impressionado, aliás, com a capacidade humana de armazenar cada vez mais dados em espaços físicos menores e com baixos custos. O espaço do Gmail continua crescendo e mesmo assim a quantidade de usuários que usa mais de 1 GB da conta é ínfima.

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