'Se estiver imaturo, aluno se beneficia com um ano a mais na pré-escola'

ENTREVISTA

, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2011 | 00h00

Adriana Fóz, neuropsicóloga e psicopedagoga da Unifesp

Especialista ressalta importância da pré-escola para o desenvolvimento infantil e diz que "trauma" por suposto atraso é mais forte para os pais que para os filhos.

Existe idade certa para entrar no ensino fundamental?

Tudo na natureza tem sua hora. A criança tem as janelas de oportunidade; aos 3 anos ela não consegue passar uma linha na agulha, mas ela é capaz de aprender qualquer idioma. O ensino infantil é importante para trabalhar o lúdico, socializar, dar experiências sensoriais e motoras. Alguns pais e escolas querem acelerar o processo para que a criança seja mais competente, mas isso não é real. A criança precisa do tempo dela para se desenvolver.

O fundamental de 9 anos está afetando as idades da pré-escola. Como a sra. vê essa lei?

O governo aumentou o ensino fundamental não com base pedagógica, cognitiva ou neurológica, mas por uma questão política. Com isso as crianças saem perdendo. A primeira fase é estrutural: se a estrutura é capenga, tudo fica capenga. Pular etapas deixa buracos.

Os pais devem brigar para que o filho não seja retido?

Muitos acham que quanto mais rápido o filho for, melhor - nem sempre é assim. Pode ser ruim se a maioria dos amiguinhos vai e ele fica, mas o pai deve primeiro perguntar como a escola vê o filho. Ele pode estar imaturo e se beneficiar ao ser retido. Fazer de novo não significa um erro, pode ser uma chance de melhorar. Mas se a escola fala que ele está sociabilizado e com as competências cognitivas de acordo com a nova série, acho que o pai pode sim tomar uma outra decisão e até ir para a Justiça.

A criança vai sofrer se for retida durante a pré-escola?

Ela sente, mas só no momento. Crianças de 3, 4 anos não têm muita noção do tempo e percebem as sanções de forma diferente - às vezes é pior você negar um sorvete agora do que falar que no ano que vem ela não vai para a série seguinte. Quem decide o que é o melhor é o adulto. O pai pode ouvir, dar conforto, carinho. Com certeza o pai sofre mais que a criança.

Então não fica trauma?

Não, porque a criança tem a capacidade de se reinventar. Vai ficar mais traumático se o pai sentir como tal. Por isso o pai tem de procurar informação, saber se a escola tem razão e o filho de fato não está pronto.

QUEM É

A educadora e psicopedagoga Adriana Fóz pesquisa a área de neurociência da

educação. Ela faz parte da diretoria da Sociedade Brasileira de Neuropsiquiatria(SBNp) e integra a equipe do projeto de saúde mental nas escolas Cuca Legal, dodepartamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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