Paul Schutzer/ Time Life/ Getty Images
Paul Schutzer/ Time Life/ Getty Images

'Silenciosa dignidade'

A tensão racial explodiu em confrontos violentos na presidência de Kennedy e ele concluiu que chegara a hora de enfrentá-la - para muitos, com atraso

Cláudia Trevisan, O Estado de S. Paulo

16 Novembro 2013 | 16h51

WASHINGTON - Quando John Kennedy assumiu a presidência americana, em 1961, os negros ainda eram proibidos de frequentar as mesmas escolas que os brancos em muitos Estados do país. Também não podiam entrar nos mesmos restaurantes, dividir os mesmos banheiros, usar os mesmos bebedouros ou sentar ao lado de brancos em ônibus ou cinemas. E ainda enfrentavam obstáculos quase intransponíveis para votar.

A tensão gerada pela perpetuação da segregação um século depois da abolição da escravatura explodiu na forma de uma série de confrontos, que se tornaram cada vez mais violentos.

Usando táticas da desobediência civil, os negros começaram a ignorar as barreiras raciais e a entrar em território demarcado como branco, para demonstrar que sua tolerância com a segregação havia chegado ao fim. A polícia reagia com violência e produzia imagens nas quais jovens, mulheres e homens negros eram reprimidos com jatos d’água, cassetetes e cães.

No dia 11 de junho de 1963, a paciência de JFK também se esgotou - para muitos, com algum atraso. Em discurso televisionado, ele anunciou que enviaria ao Congresso o Ato dos Direitos Civis, que acabaria com todas as formas de segregação racial ainda existentes no país.

O pronunciamento era um apelo à consciência dos americanos e um ataque ao sistema que continuava a tratar os negros como cidadãos de segunda categoria. Antes de falar à nação, JFK havia ordenado o envio de tropas federais ao Alabama para garantir a matrícula na universidade estadual - que só aceitava brancos - de dois estudantes negros cuja admissão havia sido ordenada pelo Judiciário.

"Hoje estamos em uma luta global para promover e proteger os direitos de todos os que desejam ser livres. E quando americanos são enviados ao Vietnã ou à Alemanha Ocidental, não convocamos apenas brancos. Portanto, deve ser possível que estudantes americanos de qualquer cor possam atender qualquer instituição que escolham sem ter de ser protegidos por nossas tropas", declarou.

Em outubro do ano anterior, o governo federal já havia enviado 500 soldados ao Mississippi para garantir a matrícula do primeiro estudante negro na universidade estadual. James Meredith havia sido aceito em 1961, mas sua admissão foi rejeitada depois que funcionários da Universidade do Mississippi descobriram sua raça. Mesmo com a forte presença militar, manifestantes brancos e ativistas contrários à segregação se enfrentaram no câmpus, em um conflito que deixou 2 pessoas mortas e 200 soldados feridos.

Poucos meses depois, o confronto tomou as ruas de Birmingham, Alabama, cujo governador, George Wallace, havia tomado posse em janeiro de 1963 com a defesa da "segregação agora, segregação amanhã, segregação para sempre". A comunidade negra reagiu e líderes cristãos organizaram uma campanha para tentar acabar com as leis de segregação de Birmingham, que estavam entre as mais radicais do país.

Entre os líderes do movimento estava o reverendo Martin Luther King Jr., preso no dia 12 de abril por violar determinação que proibia manifestações na cidade. Antes de ser libertado, oito dias mais tarde, King divulgou a Carta da Prisão de Birmingham, na qual deixava claro o sentido de urgência em relação ao fim da segregação.

Em seu discurso, Kennedy também ressaltou que o assunto não podia mais ser adiado. "Se um americano, porque sua pele é escura, não pode almoçar em um restaurante aberto ao público, se não pode mandar seus filhos para as melhores escolas públicas disponíveis, se não pode votar nas autoridades públicas que vão representá-lo, se, em resumo, não pode desfrutar da vida livre que todos queremos, então quem entre nós estaria satisfeito em ter a cor de nossa pele mudada e estar em seu lugar? Quem entre nós estaria então satisfeito com os conselhos de paciência e adiamento?", perguntou.

A pressão continuou a aumentar nos meses seguintes e culminou no dia 28 de agosto com a Marcha sobre Washington, a maior manifestação realizada até então na capital americana, na qual 250 mil pessoas pressionaram o Congresso pela aprovação do Ato dos Direitos Civis.

Da escadaria do Memorial Lincoln, King declarou ter o sonho de que um dia seus quatro filhos viveriam em uma nação na qual não seriam julgados pela cor da pele, mas pelo caráter. E voltou a falar da "feroz urgência do agora".

Inicialmente, JFK foi contra a realização da manifestação, por temer que eventuais atos de violência comprometessem a votação do projeto de direitos civis no Congresso. Diante da determinação dos organizadores, sua administração cedeu, mas fez uma série de exigências para tentar garantir que a demonstração fosse pacífica e contida.

No fim da marcha, Kennedy recebeu seus líderes na Casa Branca e divulgou nota na qual elogiou a manifestação e seus objetivos e se disse impressionado pelo "profundo fervor e silenciosa dignidade" de seus participantes.

Três meses mais tarde, JFK seria assassinado em Dallas. A tarefa de arrancar do Congresso a aprovação do Ato dos Direitos Civis coube a seu sucessor, Lyndon Johnson, que sancionou a lei no dia 2 de julho de 1964, pouco mais de sete meses depois da morte de Kennedy.

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