Sob o frio da Toscana, novos vinhos

Em dias de degustações intensas, a uva Sangiovesi recepciona, domina e reina, enquanto produtores da Toscana apresentam novas safras de Chianti Clássico, Bunello de Montalcino e Nobile de Montepulciano. O Paladar participou das provas, em três etapas

Luiz Horta,

26 Fevereiro 2009 | 13h01

Com temperaturas entre 0°C e 4°C graus e alguma chuva fina, não se pode dizer que o famoso clima quente da Toscana tenha feito bonito durante as provas de vinho Anteprima. Mas se o lado turístico e pitoresco ficou prejudicado, o dos vinho ganhou pontos. Anteprima é o momento em que os distintos organismos (Conzorci) que regem as denominações de origem locais (Chianti Classico, Nobile de Montepulciano e Brunello de Montalcino) apresentam aos especialistas seus novos vinhos. Foram cinco dias de degustações intensas, em geral seis horas por dia, com muita concentração, em cenários sempre impressionantes e com números igualmente atordoantes. Em Montepulciano, a praça medieval. Em Montalcino, a Fortezza, a sólida fortaleza que praticamente domina o muro que circunda a minúscula cidade. E em Florença, a Anteprima del Chianti Classico ocupou uma antiga e portentosa estação de trens, a Leopolda. Só nessa ocasião 2 mil garrafas foram desarrolhadas, apenas para a degustação sentada dos jornalistas (das quais meras 23 tinham defeitos de rolha, índice bem inferior à perda comum por contaminação de TCA, que ronda, mundialmente, os 3%). O serviço, imaculado, feito por 40 sommeliers uniformizados e com escanção, dava um ar pomposo ao evento, mas agregava profissionalismo. Silêncio e eficiência foram as marcas de tudo, contrariando a fama inadequada de bagunça italiana. E houve perfeita pontualidade. Marco Pallanti, bem conhecido no Brasil, produtor dos requintados Castello di Ama e atual presidente do Chianti Classico, deu o tom de início, louvando a crise, como momento de maior criatividade e indo até as origens etimológicas da palavra grega crisis, que denota um ponto de decisão, em que escolhas são feitas. E daí em diante jorrou a Sangiovese em suas diferentes encarnações (Sangiovese, Prunotto Gentile, Brunello são suas nuances clonais e apelidos regionais), pura, em blend com Merlot, Cabernet Sauvignon, Cannaiolo, Colorinno, Malvasia Nera, com madeira e sem madeira, jovem ou evoluída, simples ou complexa. Na terra da Sangiovese ela recepciona, domina e reina. Foi possível extrair um perfil bem delineado dessa uva, suas potencialidades e os defeitos que pode apresentar, como o excesso de acidez. Mas essa mesma acidez, bem trabalhada, é uma de suas grandes virtudes, dando vinhos refrescantes. Em palestra, um dos mais famosos enólogos italianos, diversas vezes premiado com Bichieri do guia Gambero Rosso, Ricardo Cotarella, disse suspirando conformado: "A Sangiovese é tão temperamental ... é a uva que amamos e odiamos em igual proporção." Confira abaixo o perfil de cada denominação e as características dos vinhos recém-apresentados durante a Anteprima. Os Chiantis exibem traço do verão intenso e chuvas na hora certa O Galo Negro estufa o peito. Símbolo do Chianti Classico, a ave está onipresente na sala de degustações e seu orgulho plumário tem motivo: 148 produtores mostrando seus vinhos de 2007, 2006 e 2005 (Riserva) e 70 deles, provas de amostras de barrica dos 2008, demonstram o vigor da denominação. Os 2008, ainda muito potentes, mostram claramente os traços do verão intenso e das chuvas no momento certo. São vinhos de grande equilíbrio, com a acidez característica marcada num contraponto pela fruta. Os taninos são surpreendentemente suaves para vinhos tão jovens. Mas quem roubou a cena foram os Riservas de 2005, grande estrutura com fineza, vinhos muito amigáveis para comida. Alguns dos melhores provados foram o Rocca delle Macie 2006, muito mineral, e delicioso; o Badia a Coltibuono Selezione 2007, elegante e austero; e as delícias voluptuosas que Paolo de Marchi consegue nos seus Isole e Olena; o Classico 2005 tinha um retrogosto imenso e era um acontecimento. Brunellos apresentam personalidade e concentração Depois do escândalo do ano passado, em que produtores foram acusados de misturar Merlot a seus vinhos para torná-los mais amigáveis para o mercado americano, Brunello lambe as feridas e vai em frente. Declarando a safra de 2004 excelente (de fato, boa parte dos vinhos provados tinha muita personalidade e ótima concentração), o Conzorcio nem tocou no assunto, que parece definitivamente superado. Brunello mostrou alguns grandes vinhos, principalmente os que deixavam a Sangiovese ser autêntica em sua tipicidade de uva de alta acidez e taninos finos. Mas não se pense que eram vinhos difíceis. Havia uma imensa capacidade de refrescar. Ousadia total, mas alguns eram tão agradáveis, com muita fruta, que deu vontade de bebê-los levemente resfriados, algo insólito para Brunellos. Terão conseguido a desejada maciez na fruta, sem necessidade de blends? Tudo indica que sim. Notáveis os vinhos de Mastrojanni, Il Poggione, La Colombina, Fossacolle, Corte Pavone (biodinâmicos de Tenute Loacker), Coldisole, Altesino, Argiano e Villa Poggio Salvi, entre muitos outros. Um painel relevante. Vino Nobile de Montepulciano, a grande surpresa do evento Irmão mais apagado do trio, um pouco ofuscado pela exuberância dos vizinhos, os Nobiles de Montepulciano merecem melhor fama. São vinhos mais potentes que seus pares toscanos, vindos de fruta mais madura e com mais álcool, pelas características climáticas da região. Mas mostraram na prova serem capazes de muita complexidade e até mesmo de produzir vinhos de guarda. A denominação vem sofrendo preconceito por ter permitido vinhos demasiado ligeiros e comerciais em anos passados, o que associou seu nome a tintos medíocres. Mas, a julgar pelo que foi apresentado e provado na Anteprima, realizada no dia 19 de fevereiro numa ampla tenda montada na praça medieval de Montepulciano, os Nobiles, produtos com grande estrutura e muito bem feitos, deverão ser mais bem qualificados num futuro próximo. Esses vinhos foram, realmente a boa surpresa do evento. Dentre os produtores mais notáveis na degustação, destacaram-se Dei e Contucci. Também merecem referência a regularidade e o alto nível de todos os vinhos elaborados por La Calonica.

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