Tannats uruguaios

No século 19, o basco Pascual Harriague introduziu no Uruguai a uva Tannat. A cepa se adaptou de tal modo ao clima do país que por muito tempo foi chamada de Harriague

Saul Galvão, saul.galvao@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2008 | 03h24

A Tannat é, de longe a mais difundida e importante uva tinta do Uruguai, onde dá vinhos atraentes em vários níveis de preço. Como estes, que ficam abaixo dos R$ 35. Esta uva chegou por acaso ao Uruguai no século 19 e se adaptou bem ao clima chuvoso do país. Nas principais regiões vinícolas do Uruguai, como no vizinho Rio Grande do Sul, chove demais e numa época ingrata, perto da colheita. A Tannat tem a pele espessa e é resistente à umidade. Além disso, é precoce e costuma ser colhida antes da chegada das chuvas. No século 19, o basco Pascual Harriague fez história nos vinhos uruguaios ao introduziu no país a Tannat, uma uva de sua região natal que se adaptou como luva ao clima do país. O impacto foi tanto que, durante muito tempo, a Tannat foi chamada de Harriague. Ela é originária de uma região do sudoeste da França, onde dá normalmente produtos robustos, meio rústicos, que demandam tempo nas garrafas para arredondar as arestas. O Madiran é o mais conhecido tinto feito com a Tannat e costuma acompanhar o cassoulet e outros pratos gordurosos típicos da região, como as conservas de pato e de ganso (confit). O Tannat uruguaio vai bem com essas e outras receitas potentes. E parece que pegou o jeito da terra: é perfeito com churrascos, notadamente os melhores e mais gordos, como o de costela. A Tannat tem muitas qualidades, mas é quase sempre um pouco rústica. Um amargor ao final é comum em seus vinhos. Também são comuns os vinhos que ressecam a boca. Até no nome a Tannat é tânica. Os vinhos uruguaios deram um grande salto de qualidade na década de 80, quando foi criado o Instituto Nacional de Vitivinicultura, que passou a incentivar melhores práticas agrícolas e a modernização das adegas. Hoje os agricultores e os enólogos "conhecem" melhor essa uva e desenvolveram técnicas para "amansar" , domar seu gênio difícil, Temos assim tintos sempre potentes, cheios de cor, que demandam um pouco de tempo nas garrafas, mas não são necessariamente rústicos e tânicos demais. São cada vez mais comuns os Tannats potentes, mas não agressivos. Correção Diferentemente do que foi publicado, o telefone da Importadora Vinci é 2797-0000. DON PASCUAL TANNAT 2007 ONDE ENCONTRAR: Expand, tel. 3847-4747 PREÇO: R$ 27 COTAÇÃO: 85/100 A Juanicó é uma das maiores e mais diversificadas vinícolas do Uruguai e seus vinhos costumam ser bem feitos, corretos. Os vinhos utilizando a Tannat são homenagem ao basco Pascual Harriague, que levou a cepa para o Uruguai. Este é um vinho básico, provavelmente feito em grande escala. Um tinto agradável, simples, potente e um pouco rústico. Aroma agradável, mas não dos mais intensos. Primeira impressão na boca agradável, redondo e concentrado. Evocações de café na boca. Depois, caiu um pouco, com o álcool se destacando demasiadamente. Taninos duros. Deixa a boca um pouco rugosa. Um vinho que pede pratos potentes, como alguns assados gordos. Novo demais. Deve "arredondar" um pouco com mais tempo na garrafa. 12,5% de álcool. PIZZORNO DON PRÓSPERO 2004 ONDE ENCONTRAR: Grand Cru, tel. 3062-6388 PREÇO: R$ 32 COTAÇÃO: 88/100 Um vinho gostoso, fácil de gostar, que agradou no aroma e na boca. A Pizzorno fica em Canelón Chico, em Canelones. Tem longa tradição, mas também faz vinhos modernos, com muita fruta, charmosos e elegantes, como este Tannat. Aroma pode não ser dos mais potentes, mas é gostoso, com algo floral e também de frutas. Aroma complexo, com várias nuances. Na boca, continuou no mesmo nível, com boa concentração e frutas. Um tinto que dá vontade de continuar bebendo. Primeira impressão de vinho suave, macio, redondo, equilibrado e elegante. Taninos macios, nada rústicos e sem o menor resquício de amargor. Álcool muito bem comportado. Vinho já com alguns anos na garrafa, mais do que pronto. A safra de 2004 foi muito boa no Uruguai. 13% de álcool. DON PASCUAL RESERVE 2004 ONDE ENCONTRAR: Vile du Vin, tel. 4208-6061 PREÇO: R$ 34 COTAÇÃO: 88/100 O "Reserve" da linha Don Pascual, do Estabelecimento Juanicó, com vinhedos e instalações exemplares nas imediações de Montevidéu. Como era de se esperar, um tinto diferente do Don Pascual básico. Mais complexo e concentrado. Deve ter passado por envelhecimento em barricas de carvalho. Da ótima safra de 2004, já evoluído, com anos na garrafa. Mais do que pronto para o copo. Não deve melhorar com mais envelhecimento. Aroma complexo, evocando frutas doces, compota. A nota do carvalho se revela ainda em evocações de café e chocolate, que aparecem também na boca. Redondo, macio e com taninos bem comportados, quase sedosos. Nada de "amarrar" a boca. Um ligeiro amargor ao final, que não chegou a incomodar. Álcool bem integrado. 13,5% de álcool. OCEANICO TANNAT RESERVA 2006 ONDE ENCONTRAR: BR Bebidas, tel. 3071-0777 PREÇO: R$ 34 COTAÇÃO: 86/100 Um vinho do Dominio de Cassis, uma vinícola nova (1999) de uma região que só agora começa a ser explorada e fica perto da costa, ao norte de Punta del Este. Um nome a ser observado.Vinhedos manejados organicamente. As brisas frias do Atlântico amenizam o clima, garantindo noites mais frescas, o que é bom para o vinho. Segundo o rótulo, passou por barricas de carvalho francês, que aparece muito ao fundo, não é evidente. Aroma realmente gostoso, mas não muito intenso. Um vinho com grande concentração de cor e de sabor. Primeira impressão na boca muito agradável. Concentrado, complexo e diferente. Depois foi decaindo um pouco, ficando mais rústico, alcoólico e tânico. Algo de amargor ao final. Ressecou um pouco a boca. 13% de álcool.

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