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Todas as mulheres de Elvis

Janet Maslin, THE NEW YORK TIMES - O Estadao de S.Paulo

02 Janeiro 2010 | 00h 00

Na sexta-feira, dia 8, Elvis Presley completaria 75 anos. Não tenham medo, esta data histórica não passará sem grandes comemorações. Elvis 75 - como será chamado o acontecimento e é também título de uma nova coleção dos seus maiores sucessos - trará uma série de eventos e produtos alusivos, como festas em Graceland, sua residência oficial, shows com imitadores do cantor, e com um filme que sugere que Elvis, que morreu no dia 16 de agosto de 1977, passou as três últimas décadas no espaço exterior. Trará tudo o que se pode imaginar, menos uma reflexão realista sobre o que Elvis, em sua incontrolável autodestruição, poderia ser aos 75 anos.

Evidentemente, há livros, inúmeros livros. Entre os de maior destaque - além de uma obra que supostamente conta tudo a seu respeito, de autoria do médico que conhece muitas coisas sobre a morte de Elvis, e uma biografia escrita pelo amigo de toda uma vida, que costuma dizer que os Estados Unidos tiveram muitos presidentes, mas apenas um Rei - está a análise de Alanna Nash sobre a estranha história de Elvis com as mulheres: Baby; Let"s Play House: Elvis Presley and the Women Who Loved Him (It Books, 684 páginas, US$ 27,99).

CURIOSIDADE MÓRBIDA

Ela usou inteligentemente o título extremamente chamativo de uma de suas músicas, Baby, Let"s Play House (Baby, vamos brincar de casinha). Como o livro é cuidadosamente comentado e é mais extenso do que muitas biografias de presidentes americanos, há motivos para crermos que ela tenha feito um trabalho sério. Ela aborda o tema com um ritmo acelerado. Autora de, entre outros livros, The Colonel, sobre os truques do empresário maquiavélico de Elvis, cel. Tom Parker, e de Elvis and the Memphis Mafia, ela parece muito bem relacionada no mundo de Presley. Portanto, é um pouco preocupante ver que é identificada, na orelha do novo livro, como "a primeira jornalista a ver Elvis Presley no caixão".

Esse sopro de curiosidade mórbida se torna determinante. Assim como a gênese de Baby, Let"s Play House: a autora conta que escreveu inicialmente um artigo para o Ladies" Home Journal que posteriormente decidiu ampliar. Portanto, armada com o que define com propriedade "uma narrativa oral de algumas das mulheres da vida de Elvis", Alanna começou recheando a história com três tipos de material: suas próprias entrevistas (algumas com mulheres que ainda se dizem loucamente apaixonadas por Elvis, 50 anos depois do encontro fatal com o ídolo), mexericos de segunda mão (como memórias e publicações de fãs escritas para agradar ao próprio ego) e palavrório de conteúdo psicológico. A mistura desses elementos a levou a refazer o longo e tortuoso caminho de Elvis de ninfetas a baby-sitters, enquanto sua vida percorria uma trágica trajetória para um declínio triste.

OLHAR PROFUNDO

Baby, Let"s Play House é abundantemente ilustrado com imagens de Presley com as namoradas. E essas imagens contam uma história muito forte. Ele procurou o seu caminho entre uma série de mulheres que se pareciam com sua mãe, Gladys, uma morena de olhar profundo. No começo, foram as meninotas da sua rua. Depois, embora sempre com o mesmo tipo, tornaram-se cada vez mais bonitas, enquanto Elvis ascendia, a ponto de escolher como par mulheres quase tão bonitas quanto ele. Depois da morte de Gladys, em 1958, arrasado, ele começou a abandonar o bom caminho, e as mulheres se tornaram cada vez menos adequadas para levar para apresentar à "mamãe". As últimas fotos de Elvis o mostram com um olhar vidrado à John Belushi e aparentemente pouco consciente da presença de suas companheiras femininas, quaisquer fossem elas.

Alanna conta uma longa, repetitiva e constrangedora versão dessa história dramática. A premissa básica - fornecida por Peter O. Whitmer (The Inner Elvis, algo como O Verdadeiro Elvis) na qualidade de psicólogo do livro e reforçada por termos como "identificar", "mágoa intrínseca", "dismorfismo sexual" e "equilíbrio de estrógeno e andrógeno" - é que a perda de um irmão gêmeo de Elvis no nascimento o determinou a uma busca que duraria a vida toda por um companheirismo que ele jamais encontraria de fato, e que a extrema proximidade com a mãe não deixou espaço para mulheres adultas.

IMATURIDADE

Usando detalhes de excessivo mau gosto até para os fãs mais adeptos do voyeurismo, a autora oferece as provas da imaturidade sexual do seu objeto de estudo, das suas inseguranças físicas e da geral predileção por meninas de 14 anos, que preferia por achar que não apresentariam nenhuma ameaça. Às vezes, ele deu realmente festas de pijama e ensinava às meninas como pintar os olhos e pentear o cabelo. Alguns detalhes de Baby, Let"s Play House evocam o estilo biográfico questionável de Albert Goldman. E a autora, dirigindo-se à multidão curiosa, não hesita em usar Goldman como uma fonte. Ela também reproduz as memórias de cada namorada que acreditava ser o verdadeiro amor de Elvis ("Eu fui a única que conseguiu"), os estilos criativos de inúmeros ghost writers e o tom de conto de fada de Priscilla Presley, a esposa de Elvis ("Tinha a impressão de estar vivendo um sonho. E então o sonho se tornou realidade. Eu chegava em casa com Elvis.") Embora Alanna em geral seja honesta com as atribuições, às vezes dá a falsa impressão de que o material emprestado de um site de fãs é: a) corrente e b) dela mesma.

Mas ela também fez as devidas pesquisas. Algumas memoravelmente sucintas, curtas e grossas. Como, por exemplo, a de Patti Parry, a única amiga do círculo mais íntimo de Elvis: "Motorista de caminhão de 19 anos torna-se superstar e supergaranhão, que ele absolutamente não era." Ou esta de Lamar Fike, um dos companheiros mais próximos: "A relação de Elvis com Priscilla cabe numa casca de noz: você cria uma estátua e depois se cansa de olhar para ela." Ou de Sheila Ryan Caan, uma das raras namoradas que se sentiram totalmente livres para zombar das roupas do cantor: "Cruella sabe que você resolveu usar a capa dela esta noite?" Independentemente de como reuniu e montou esse material, ela consegue coligir toda a loucura, a maldade e a tristeza do mito de Elvis em um único volume exaustivo e (sejamos francos) embaraçosamente tentador.

Embora ela tenha a certeza de que será duramente criticada por deixar o imperador sem roupa, também escreve com muita admiração. E depois de apresentar um desfile aparentemente infinito de companheiras (nos últimos meses, foi decaindo de jovens aspirantes a estrelas a caixas de banco), Alanna usa como últimas palavras sobre a caça às mocinhas as que o próprio Elvis disse num dos seus momentos de depressão. Billy Smith, primo e membro do círculo do cantor, contou à autora que perguntou a Elvis: "Por que é que você fica com uma pessoa assim?", referindo-se a Ginger Alden, a última namorada que dormia no quarto ao lado quando ele morreu. O Rei respondeu: "Estou ficando velho e cansado demais para treinar mais uma." TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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