TV Cultura pode sair do ar

Os equipamentos analógicos estão totalmente obsoletos. Uma velha caixa d´água de 240 mil litros ameaça desabar. Diante da falta de fitas até para copiar os programas, recorre-se às fitas do arquivo. Os atrasos de pagamento atingem até os fornecedores de arroz e feijão para o restaurante dos empregados. Dívidas parceladas deixam de ser honradas. O sinal da programação em algumas das maiores cidades do Interior de São Paulo já foi cortado. Eis aí um retrato da situação a que chegou a TV Cultura, da Fundação Padre Anchieta, mesmo depois da demissão de mais de 300 funcionários e de cortes profundos em seu orçamento. O governo do Estado não cumpre nem as promessas de aporte mínimo de recursos que fez ao impor as condições para continuar seu apoio à Fundação Padre Anchieta. Se essa situação persistir por mais dois ou três meses, a TV Cultura - que conquistou para o País alguns dos maiores prêmios internacionais na área de programação infantil de televisão - pode sair do ar. Por mais estranho que possa parecer, a TV Cultura está sendo levada à inviabilidade operacional e tecnológica e caminhando para o fim. Quando tudo se faz com tecnologia digital, seus equipamentos continuam analógicos, podendo, portanto, virar ferro velho em pouco tempo. Desespero - Em correspondência enviada na semana passada à secretária da Cultura do Estado, Cláudia Costin, o diretor-superintendente da entidade mantenedora da TV Cultura, a Fundação Padre Anchieta, Manuel Luiz Luciano Vieira, relata a situação a que chegou a entidade e pede ao governo estadual o cumprimento de sua parte. Vieira recorda que a TV Cultura efetuou todos os cortes de despesas possíveis, inclusive demitindo mais de 300 pessoas, na expectativa de que o governo cumprisse os compromissos de apoio financeiro emergencial - cujo montante não alcança sequer R$ 20 milhões - para garantir a sobrevivência da emissora. O superintendente menciona os seguintes fatos que mostram bem a crise da Cultura: A caixa d´água da entidade, de 240 mil litros, segundo laudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, corre o risco de ruir. Mas não há recursos para as providências de emergência. A maioria dos equipamentos é tão velha que não suporta sequer reparos emergenciais. Com isso, os programas da emissora começam a sofrer apagões por conta da obsolescência de transmissores e repetidores. Os telespectadores paulistas que assistiam aos programas retransmitidos pelas estações de Jundiaí, São José do Rio Pardo, Dracena, Cajuru, Mirantes do Paranapanema, Presidente Prudente, Leme e Pedro de Toledo já não recebem as imagens da TV Cultura. Está praticamente interrompido o sinal aberto que atendia aos telespectadores no município de Campinas. O reaproveitamento de fitas chegou ao ponto de canibalizar até material de arquivo, ameaçando a própria memória da Fundação Padre Anchieta e da televisão brasileira. As caldeiras e os balcões frigoríficos do restaurante da emissora já não suportam mais reparos, pois foram instalados em 1977. O prejuízo - É uma vergonha para um Estado como São Paulo, relativamente rico, permitir que a situação chegue ao ponto que chegou. Os cortes de recursos, que começaram em 1995, foram crescendo até alcançar o nível insuportável de hoje. Na verdade, eles acabam retirando o oxigênio essencial para um projeto comprovadamente vitorioso como o da TV Cultura. Os dirigentes da Fundação reconhecem que, embora essenciais e compreensíveis, os cortes foram muito além do limite do bom senso. E o governo Alckmin parece não importar-se com o futuro de uma emissora como a TV Cultura, nem com os riscos de queda de qualidade de seus programas. Nada parece sensibilizar o governo, que se recusa a manter a emissora, mesmo com verbas muito menores que as do passado. Calote - A sobrevivência da TV Cultura depende hoje basicamente de dois tipos de recursos. De um lado, os repassados por lei pelo governo do Estado. De outro, as receitas obtidas com o patrocínio publicitário de seus programas. O governo, entretanto, não tem cumprido sua parte, nem mesmo depois dos cortes que exigiu. Pior: não devolve as verbas economizadas com a demissão de funcionários, nem transfere os recursos essenciais para o custeio. Ao mesmo tempo, a Fundação enfrenta a queda das receitas de publicidade, conseqüência não apenas da conjuntura setorial mas, particularmente, da falta de atrativo de uma emissora que perde competitividade no tocante à qualidade técnica e à renovação de seus programas. BITS & BYTES Consultoria No próximo dia 14, o ex-ministro das Comunicações, Juarez Quadros, faz o lançamento, em Brasília, da Orion Consultores Associados em Comunicações e Energia, em parceria com Lázaro Brito, que trabalhou como assessor para Política Industrial do Ministério, e Ronaldo Sá, ex-secretário de Radiodifusão do Ministério. A quarentena de Quadros - que estava impedido de exercer funções que pudessem gerar conflito de interesses com seu antigo cargo - acabou em 30 de abril. Segundo o ex-ministro, a consultoria atuará nas áreas de telecomunicações, radiodifusão, energia elétrica e petróleo. Investimento Ao visitar o Brasil na semana passada, o diretor-presidente da Intel Corp., Craig Barrett, defendeu a criação de incentivos para o investimento de risco no País. Segundo o executivo, o governo poderia taxar de forma diferenciada o aporte feito em empresas com estágios diversos de desenvolvimento. Ele destacou como importantes para a inovação tecnológica os investimentos feitos em companhias iniciantes, entre os momentos em que o empreendedor tem a idéia e em que o produto chega ao mercado. Atividade Apesar de o grupo de investidores de risco ainda ser pequeno, tem havido boa atividade no Brasil nos últimos meses. A Eccelera, do Grupo Cisneros, analisa mais de 150 planos de negócios. A empresa tem US$ 85 milhões para investir. A Intel Capital anunciou recentemente a compra de participação na Pulso, em parceria com o fundo Stratus. Nos Estados Unidos, o investimento está em queda desde o estouro da bolha da Nasdaq. No primeiro trimestre, foram desembolsados US$ 2,26 bilhões, frente a US$ 2,56 bilhões entre outubro e dezembro de 2002, de acordo com a Ernst & Young e a VentureOne.

Agencia Estado,

04 Maio 2003 | 06h34

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ethevaldo siqueira

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