Um fettuccine sob medida para o papa

Primeiro papa nascido na capital da Itália em 200 anos, Pio XII foi eleito em 1939 e reinou até morrer, em 1958. Passou a vida na Cúria Romana, portanto junto à cidade natal, e nas nunciaturas de Munique e Berlim. Ultimamente, tem sido acusado de suposta passividade diante do nazismo e do Holocausto, na 2ª Guerra Mundial. Entretanto, para os católicos, foi um papa de exacerbada espiritualidade. Em 1950, proclamou o dogma da Assunção de Maria aos Céus, em corpo e alma, na encíclica Munificentissimus Deus. Além disso, condenou o ateísmo comunista.

Dias Lopes, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2010 | 01h10

Difícil imaginar que um papa com esse perfil fosse um gourmet. E não era. Alto e magro, Pio XII comia frugalmente e sozinho, acompanhado apenas por um canário amestrado. Deixava o passarinho sair da gaiola, voar livremente pela sala e pousar no seu dedo indicador. Voltava à gaiola apenas quando cansava da liberdade. O papa evitava convidados à mesa, fossem prelados estrangeiros, da Cúria ou secretários. Alimentava-se de legumes e verduras, queijo e frutas, um pouco de massa e duas fatias finas de carne cozida ou grelhada. Suas refeições eram habitualmente preparadas pela madre Pascoalina, a fiel escudeira.

"Não há referências de importantes banquetes durante seu pontificado", diz Eva Celada, no livro Os Segredos da Cozinha do Vaticano (Editora Planeta do Brasil, São Paulo, 2007). Os conterrâneos de Pio XII, porém, afirmam que ele tinha dois fracos: fettuccine alla papalina e folhado doce de maçã, sobremesa de origem austríaca mais conhecida por apfelstrudel. Dizem que a receita do fettuccine nasceu a pedido dele, entre os anos 1937 e 39, no restaurante La Cisterna, um dos mais antigos de Roma, que funciona na Via della Cisterna, 13, bairro do Trastevere. Pio XII ainda era cardeal e se chamava Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli.

O cliente ilustre solicitou fettuccine (massa de fio longo e chato, medindo aproximadamente 1 centímetro de largura), cujo molho respeitasse a tradição romana, mas não fosse pesado demais. Trouxeram-lhe uma derivação do spaghetti alla carbonara, cuja receita, paradoxalmente, ainda não tinha sido inventada. (E ainda dizem que não existem milagres...) Era um fettuccine com molho à base de presunto cru refogado na manteiga com cebola picada, em vez da habitual pancetta dos romanos (toucinho da barriga do porco, não defumado, curtido no sal e tempero) frita na banha ou azeite; tinha o fortíssimo pecorino (queijo de ovelha), muito usado na capital italiana, substituído pelo parmigiano reggiano, misturado com ovos batidos e creme de leite. Mais tarde, acrescentou-se ervilha fresca ou congelada, para melhorar a aparência do prato.

O La Cisterna se mantém discreto até hoje em relação ao prato e ao papa. O site do restaurante informa que o cardápio tem sempre fettuccine alla papalina, mas não relaciona Pio XII entre seus clientes históricos. Talvez faça isso em memória da discrição do pontífice. Depois de eleito, ele nunca mais apareceu ali. Em compensação, afirma-se que continuou a encomendar comida para dias especiais: o Natal, por exemplo.

O La Cisterna é um dos restaurantes mais antigos do mundo. Funciona pelo menos desde 1630. Foi frequentado por grandes personalidades da política, cultura, arte e espetáculo, como os príncipes Rainier e Grace Kelly, de Mônaco, Faruk I, o último rei do Egito, Pablo Picasso, Joan Mirò, Giorgio de Chirico, Ilia Eremburg, Trilussa, Walt Disney, Gary Cooper, Rita Hayworth, Vincent Minelli, Tito Schipa, Aldo Fabrizi e Mario Del Monaco. A maioria deles pediu fettuccine alla papalina, é claro.

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