Um jantar tipicamente polonês no centenário Wierzynek

O nome é homenagem a Nicolau Wierzynek, o nobre que com um banquete evitou uma guerra

Flávio Florence, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2008 | 03h14

Corria o ano de 1364 quando o rei Casimiro, o Grande, da Polônia deu uma grande festa para celebrar o casamento da neta Elizabeth com Carlos de Luxemburgo. Naturalmente, foram convidados monarcas de outras nações, mas o ambiente não estava nada bom. Havia tantos conflitos de interesses entre os reis que a Europa se encontrava à beira de uma guerra, o que certamente estragaria a festa de Casimiro. O rei teve então uma idéia: pediu ao amigo Nicolau Wierzynek, um homem muito rico, que oferecesse aos convidados um banquete tão formidável que se tornasse inesquecível. Wierzynek caprichou: foram 21 dias de festa, ao cabo dos quais estava selada a paz entre as nações e a neta de Casimiro, casada. Este, em sinal de agradecimento, concedeu ao amigo o direito de receber e entreter quaisquer autoridades que viessem à bela Cracóvia, a antiga capital polonesa. Assim nasceu o Wierzynek (pronuncia-se víjinek), um dos restaurantes mais antigos da Europa. Ele ainda está ali, bem ao lado da praça principal, a alguns passos do mágico castelo de Wawel e seu dragão. Cercado de tanta história, o ambiente do Wierzynek só podia mesmo ser austero. Já no site do restaurante (www.wierzynek.com.pl) pede-se aos clientes que venham de paletó e gravata. O carro-chefe é o menu-degustação tipicamente polonês, a 175 zlotych (cerca de R$ 130). O repasto começa com uma levíssima terrine de salmão, que embora não seja exatamente uma iguaria polonesa (nem figure no cardápio como tal), estimula o paladar. A partir da sopa, que é um caldo ligeiramente azedo, com toucinho defumado e ovos - a delicada acidez vem da farinha usada na preparação do brodo -, aí, sim, o cliente mergulha na história da velha Polônia. Vêm então os pierogi, pasteizinhos tipicamente eslavos, pouco maiores que os raviólis. Não são fritos, mas cozidos em água fervente, e no caso polonês, depois dourados na manteiga (ler mais ao lado). São servidos com um molho branco ligeiramente ácido, cujo nome tem para nós, músicos, significado especial: smetana. O Wierzynek serve-os com dois tipos de recheio: carne e purê de batata com queijo. Com um terço do território polonês coberto por florestas, é natural que a culinária do país utilize frutas silvestres, mel e principalmente cogumelos. O terceiro prato da seleção do Wierzynek é justamente bife enrolado com um especialíssimo molho de cogumelos, acompanhado de trigo sarraceno e uma curiosa salada quente de beterraba. A carta de vinhos do Wierzynek, embora bem elaborada, não chega a ser uma enciclopédia. Como se eu não estivesse com vontade de tomar Petrus (5.500 zlotych, ou cerca de R$ 4 mil a garrafa), acatei a sugestão do sommelier e provei um vinho que não conhecia, feito com a uva Agiorgitiko. Trata-se de uma variedade grega, com baixa acidez, e portanto não brigou com a sopa. Para encerrar, um delicioso bolo cremoso montado entre duas camadas de mil-folhas e calda de morango. E uma dose da legítima vodca de cereja polonesa, indispensável para enfrentar o frio lá fora, e quem sabe o dragão de Wawel. Wierzynek - Rynek Glówny 15, Cracóvia, tel. (48) 12 4249600

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