Um provocador na sala de aula

Professor que faz sucesso em cursinho popular conta que se tornou vegetariano após um debate com seus alunos

Felipe Mortara, O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2011 | 00h00

O professor de literatura Roberto Gonçalves Juliano, de 60 anos, sabe que seus alunos no cursinho precisam de bom desempenho no vestibular. Para chamar a atenção, ele faz uma espécie de terapia de choque. "O homem moderno precisa ser chocado, sempre. Acha que perderei a chance (de discutir o assunto com eles) quando fico sabendo de um ato homofóbico na Avenida Paulista ou da morte de um estudante na USP?".

Juliano dá aulas no Cursinho da Poli, onde as mensalidades giram em torno de R$ 180. Ele sabe que precisa fornecer um estímulo extra aos seus alunos. A maioria é oriunda da rede pública e está consciente de largar mal na corrida por uma vaga no vestibular.

Ao entrar na sala no primeiro dia de aula, o docente começa a desfiar o rosário de provocações e pergunta o tamanho do sonho de cada estudante. "Dependendo da resposta, ele vai conquistar ou não o que quer. A trilha é difícil, a trajetória é dura. A universidade pública é o único caminho possível de realizar o sonho de quem não pode pagar uma particular", afirma.

As aulas são ministradas pelo professor em salas com 200 alunos em média. "Em um dia posso dar 10 ou 12 aulas e chego a falar com quase 1.500 pessoas em algumas horas. É uma oportunidade que nem eu e nem nenhum outro professor pode perder", afirma.

A mágica, diz Juliano, está em dizer o que eles querem ouvir junto com o que eles precisam escutar. "Se eu não fizer isso, perco o aluno, a atenção, a aula. É preciso fisgar o peixinho", resume.

Após mais de quatro décadas fisgando peixinhos, Juliano está convicto de que a dinâmica no cursinho é diferente em relação a outros ambientes escolares. A pressão e a competição são mais intensas. "O aluno precisa ouvir, estar de olhos e ouvidos abertos."

Nos dois primeiros meses, de acordo com o professor, os estudantes se perdem, pois estão maravilhados com o ambiente. "Querem estudar tudo e ao mesmo tempo nada. Nunca tiveram professores com aquele jeitão descontraído e têm matérias que às vezes nunca viram no ensino médio."

Depois de ganhar a cumplicidade de seus alunos, o professor conta que a relação fica próxima. E a troca de informações é intensa. Juliano às vezes até aceita sugestões dos jovens. A mais radical foi se tornar vegetariano. "Após debates, me questionaram "por que não?" e resolvi experimentar."

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