Um (Quase) neófito entre muitas garrafas e degustadores

Encontro Internacional do Vinho, em Vitória, sinaliza o crescimento do consumo de bons vinhos no Brasil

Roberto Gazzi */ ENVIADO ESPECIAL A VITÓRIA (ES),

11 Novembro 2010 | 10h46

 

 

Saúde, grande Saul. Esteja onde estiver, esta taça de Bâtard-Montrachet de Vincent Gerardin é tua. Cor dourada, aromático, bom na boca, acidez perfeita, persistente. Grande vinho, de R$ 1.525 a garrafa. Saul Galvão, um dos grandes responsáveis pela expansão do consumo de vinho no País, autor de livros e textos inesquecíveis sobre a bebida neste jornal, foi homenageado pelo amigo e enófilo Mário Telles Jr. durante uma das palestras do Encontro Internacional do Vinho, que ocorreu no fim de semana em Vitória.

Vitória? Impressiona que mais de cem pessoas tenham participado de um evento destes fora do eixo Rio-São Paulo - e, vai lá, Brasília. Nada contra a pacata e muito bem cuidada capital do Espírito Santo, pelo contrário. O evento muito bem realizado pelo Grupo Gazeta de Vitória mostra o crescimento do consumo de bons vinhos no Brasil.

Menta, cassis, couro, alcaçuz. Onde os connaisseurs encontram tantos aromas? Por mais que me esforce e enfie o nariz na taça, passo longe. Deve ser meu olfato embotado por anos de fumo. E os taninos maduros, agressivos, verdes? A concentração é tanta em busca desses cheiros e gostos que por vezes parece faltar aos presentes a alegria do simples prazer de um bom gole. Tanto que o terrível termo "infanticídio" foi das palavras mais ouvidas pelas mesas. "Um problema destas degustações é que a safra dos vinhos tende a ser muito nova", opina o médico gaúcho aposentado Flávio Sassen, que pagou R$ 1,8 mil pela inscrição nos três dias do evento (mais passagem aérea e hotel), para provar cerca de 50 grandes vinhos de todo o mundo. Ele usava a expressão com a autoridade de quem viaja o ano todo em busca destas experimentações. Coisa de especialista, claro. Muitos vinhos para os quais ele usava a expressão já parecem ótimos. "Mas vão crescer muito, são jovens demais", diz, justificando a qualificação para safras de 2007/2008.

Nas degustações, mais vinhos chilenos, ibéricos e franceses. Alguns deles, grandes vinhos. Nenhum abaixo de R$ 99. O mais caro, o potentíssimo australiano Clarendon Hills Astralis, custa R$ 2.450 a garrafa. Daria para comprar uma caixa de seis do meu preferido na degustação, o espanhol Mancuso, um vinho 100% da uva Garnacha, de Toledo, R$ 400 a garrafa. Um vinho potente, mas delicado, daqueles que parecem que vão deixar um ótimo gosto por horas na boca. Ele é importado pela Casa do Porto, que tem lojas em Vitória, Belo Horizonte e São Paulo. O Mancuso estava na relação de vinhos preparada pelo sempre alegre Arthur Azevedo, diretor executivo da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP). Ele cuidou de apresentar novos vinhos da Península Ibérica. Um trabalho mais tranquilo que o do citado Mário Telles, também da ABS, que fez a harmonização de vinhos (brancos, em sua maioria) com a cozinha capixaba, à base de peixe, como sua famosa moqueca (e aqui não cabe entrar na velha discussão com a baiana).

Duas estrelas internacionais foram o chileno Patricio Tapia e o sueco Andréas Larsson. Tapia, autor do guia Descorchados, de vinhos sul-americanos, conduziu "1001 vinhos para beber antes de morrer", tema que elevou demais as expectativas, pois eram "só" nove, entre eles o Astralis e outros grandes vinhos, como o espanhol Tondonia Gran Reserva 87. Mas a grande surpresa foi um jerez Oloroso, de 30 anos, da Bodegas Tradición. Um espanto.

Outra grande expectativa foi a palestra de Andréas Larsson, considerado o melhor sommelier do mundo em 2007. Por causa do título, teve de comentar todos os vinhos servidos, inclusive na palestra dos outros. Espantosamente jovem, o sueco apresentou vinhos de pequenas produções, a maioria francesa, de safras novas. Ganhou o título de infanticida mór.

 

*ROBERTO GAZZI É EDITOR-CHEFE DO ESTADO E BEBEDOR EVENTUAL DE VINHOS, SEMPRE QUE POSSÍVEL NO LIMITE DE R$ 100

 

 

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