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Um rosto na mira

E se Lee Oswald tivesse afinado? Um romancista tenta imaginar o que aconteceria depois

Thomas Mallon, O Estado de S. Paulo

16 Novembro 2013 | 16h33

"O que você está procurando?", perguntou Wesley Frazier, de um jeito simpático, quando notou Oswald entrando no porão do armazém.

"Uma carona pra voltar pra Irving."

"Certo", disse Frazier. "Me encontre lá fora depois do expediente."

Oswald não disse nada. Um tênue aceno de cabeça indicou seu entendimento de que "lá fora" significava o estacionamento, a uma boa distância do Book Depository.

"Achei que fosse ficar na cidade esta noite", acrescentou Frazier, em nova tentativa de puxar conversa com aquele sujeito fechado. Exceto nos fins de semana, Oswald ficava numa pensão no centro, enquanto sua mulher russa e as duas filhas, uma delas ainda bebê, viviam em Irving com uma tal sra. Paine e seus dois filhos pequenos.

"Mudei de ideia", disse Oswald.

Frazier lançou-lhe um olhar que dizia "tudo bem", e acrescentou uma última pergunta sociável: "E os varões de cortina?"

No dia anterior, uma quinta-feira, Oswald havia inesperadamente pedido uma licença para ir a Irving. E nessa manhã, ao entrar no carro para voltar a Dallas, tinha depositado um comprido embrulho de papel pardo no banco de trás do Chevy de Frazier. Ele explicou que queria incrementar seu quarto na pensão com aqueles varões. Sua expressão indicou que a conversa havia terminado. "Claro, Lee. Te vejo às 15 para as 5."

Sem um obrigado, Oswald voltou para a escada. Frazier, esquecendo mais uma vez que aquele não era um sujeito comum, perguntou: "Cê viu o desfile?"

Dois lances de escada acima, no refeitório, Oswald parou em frente da pia e notou que suas mãos tinham recomeçado a tremer. Encheu um copo de água e bebeu apoiado na máquina de Coca onde jamais colocara uma moeda. Ele também não gastava dinheiro em jornais, sabendo que podia encontrar um do dia anterior ali, como fizera na quarta-feira, quando abriu o Dallas Times Herald e viu o mapa do percurso do comboio de sexta-feira do presidente. Notou que Kennedy passaria bem ao lado do depósito de livros. Oswald ficaria as 24 horas seguintes se perguntando se ousaria ou não, até aquela hora na tarde de ontem, quando saíra para encontrar Frazier e pegar sua carona para Irving.

Daquele ponto em diante, tudo correra mansamente, quase automaticamente. Marina poderia ter sido fria com ele – eles tinham brigado pelo telefone algumas noites antes –, mas nem ela nem Ruth se queixaram de ele aparecer sem aviso. Ele brincou com Junie, a filha mais velha, e passou ainda mais tempo brincando com o garotinho de Ruth, Chris. Ruth serviu-lhe o jantar antes de ele se esgueirar para embrulhar o rifle que ela não sabia estar num cobertor no chão atulhado da garagem.

Oswald havia trazido o rifle embrulhado em papel para o depósito naquela manhã. A arma estava escondida agora entre algumas tábuas de madeira que tinham sido arrancadas e empilhadas por trabalhadores ao trocarem trechos do piso. Alguma noite da semana seguinte, ele levaria o rifle de volta para Irving; diria a Frazier que os varões de cortina não tinham se encaixado na janela de seu quarto em North Beckley.

Sozinho no sexto andar, como havia ficado durante parte da manhã, começou a desmontar a pequena fortaleza de caixas de papelão de manuais, dez livros por caixa, que havia construído pouco antes do almoço. Por algum tempo pensara que, quando chegasse seu último dia naquele emprego, inseriria um folheto, talvez algo de Fair Play for Cuba, dentro de cada exemplar em alguma caixa de manuais da história americana de Scott Foresman.

Ele foi até a janela ainda aberta e olhou para fora. Não havia nada acontecendo nas ruas que fizesse pensar que um desfile passara por ali. Nenhum policial numa moto; nenhuma pessoa com uma câmera.

Cê viu o desfile?

Ele o tinha visto ali do alto. Ali do alto, o aumento de quatro vezes da luneta do rifle o colocara dentro do carro aberto. Mas foi também a luneta que o fez falhar. Como o carro avançava lentamente em sua direção, ele cometeu o erro de olhar diretamente no rosto de Kennedy. E viu seus lábios se mexerem, viu ele virar um pouco a cabeça para a mulher e falar duas ou três palavras que fizeram com que parecesse contente – da maneira como Oswald imaginava ele próprio deitando-se ao lado de Marina, tarde da noite, antes de as coisas começarem a azedar entre eles. Fora por isso que ele não pudera fazê-lo. No momento crucial, em vez de enxergar a política, o dinheiro e a fama de seu alvo, fora isso que enxergara.

Teve uma segunda chance quando o carro fez uma curva fechada para a Elm. O alvo estava ainda mais perto dessa vez, expondo a parte de trás da cabeça em vez do rosto. Tornou a pegar a arma, mas a imagem do rosto persistia. Sua vontade e sua mão se paralisaram. E, antes que pudesse descongelá-las, o chapéu cor-de-rosa despareceu na passagem subterrânea.

"Você me assustou esta manhã!", exclamou Marina. "Fiquei preocupada a manhã toda. Ruth e eu vimos Kennedy na televisão e eu tive o pressentimento terrível de que você estava disposto àquilo de novo, que tentaria matá-lo."

"Estúpida!", ele disse. "Se pensou isso, por que não contou que havia um assassino à solta? Por que não chamou a polícia?"

O mais calmamente que pôde, Marina explicou: "Não fiz essas coisas porque fui à garagem para verificar o cobertor."

"O cobertor!", gritou Oswald, zombando dela, como se aquele pedaço de tecido alemão oriental, que parecia camuflagem e tinha viajado com eles desde a Rússia, fosse algum objeto de cena cômico. "Pensou em levantá-lo quando estava olhando pra ele?"

Confusa, e depois alarmada, Marina abriu a porta da sala e entrou na confusão da garagem, abrindo caminho por entre ferramentas, brinquedos e caixas de roupas de bebê, e chegou ao cobertor, que levantou, e viu pender, frouxo e vazio, de sua mão.

Ele pode vê-la estremecer.

"Seu maluco!", ela gritou. Seu inglês e seu russo se digladiando agora. "Você me destrói! Você destrói tuas devochki!" Ela apontou para os quartos da casa onde Junie e a bebê ainda estavam dormindo.

A menção das filhas quase o amoleceu, mas aí Marina, como se não bastasse enfurecê-lo, agora rodopiava mostrando-lhe o outro lado de sua personalidade, a zombeteira, que às vezes o levava a agredi-la: "Kennedy salvo!", ela gritava, em inglês, cacarejando. "Longe agora!"

Ele se afastou dela, fugindo da voz que trovejava seu fracasso. Foi em silêncio até o quarto, beijou as filhas adormecidas e recuperou o dinheiro que havia largado ali de manhã. Marina, sempre rápida em se adaptar, esperou por ele na sala de estar, preparada para buscar perdão. Ela disse em russo: "Esta manhã, depois de acreditar que a arma ainda estava lá, achei que você tinha deixado o dinheiro para o Natal. Para brinquedos e sapatos para as meninas". Sua expressão misturava medo, alívio e perplexidade. Ela ainda não sabia onde estava o rifle, ou se e como ele havia tentado usá-lo.

"Natal!", ele gritou, fazendo isso soar como a palavra mais vergonhosa do mundo. Ele acertou-lhe o rosto e saiu.

Várias horas depois, sem ter jantado, ele despertou na pensão da avenida North Beckley. Ao lado da cama ficava uma penteadeira feminina com um tríptico de espelhos no qual ele podia ver seu rosto de três ângulos diferentes. Sobre o tampo da mesa estava o maço de dinheiro – um pouco diminuído pelo custo do primeiro táxi que ele tomara desde que partira da Rússia. Ele o havia chamado de um telefone público ao lado do mercado em Irving e, durante as 12 milhas até Dallas, ficara observando o taxímetro com uma espécie de contido terror. O rádio do táxi ainda falava de Kennedy, que fora de Dallas para Austin e para uma recepção na mansão do governador.

Ele pediu para o motorista desligá-lo, mas agora podia ouvir a televisão na sala de estar da pensão. A WFAA, afiliada da Dallas ABC, exibia uma recapitulação especial dos acontecimentos do dia: os Kennedys apertando mãos ao longo de um cordão de isolamento em Love Field, pouco antes do meio-dia; desfilando em carro aberto pela Main Street, o chapéu rosa-choque era agora um preto e branco indistinto. E então a imagem retornou para Love Field, onde os Kennedys caminharam por outro cordão de isolamento, subiram em seu avião e acenaram um adeus a Dallas às 14h 47.

Uma explosão de energia fez ele se levantar, assustando os demais. Se houve um cordão de isolamento em Love Fields, haveria outro na base da Força Aérea, talvez fora dos portões, e havia boa chance de Kennedy descer do carro para apertar mãos, garantindo uns derradeiros eleitores do Texas para a eleição do ano seguinte. Se chegasse lá em tempo, poderia ter uma terceira chance.

De volta ao quarto, recolheu o dinheiro, jogou um par de meias e algumas cuecas numa bolsa e da gaveta da penteadeira tirou sua pistola .38. Pôs a arma no bolso do paletó. Partiu a pé, determinado a economizar dinheiro. Poderia chegar à rodoviária em menos de meia hora.

"Saiu faz dez minutos. Às 11h15."

"Bem, quando é o próximo?", ele perguntou, o coração apertando, como havia ficado quando o chapéu rosa desaparecera.

"Para Austin? Não vai sair nada daqui antes das 7 de amanhã."

Ele sentiu o suor começar a escorrer, podia sentir o cheiro de que Marina às vezes se queixava. Sua língua estava presa, mas conseguiu andar até um banco e se sentar. Será que poderia passar o resto da noite fora? Pegar o ônibus das 7h e, de algum modo, conseguir chegar na base da Força Aérea antes de os Kennedys partirem? Ele inclinou a cabeça para o rádio de outro passageiro, na esperança de captar informações sobre os horários de viagem do presidente, mas o radialista se revelou só um disc-jóquei informando a próxima música.

A estação seria fechada em breve. Ele então se levantou e se afastou ao som de Mickey’s Monkey. Foi para o norte que ele se viu andando, na direção do armazém de livros. Precisou de alguns minutos para chegar à praça diante do edifício, onde se sentou na borda do espelho d’água. A praça estava deserta.

Oswald olhou para o edifício que agora guardava seu rifle, carregado e não disparado, e viu que a janela do canto no sexto andar continuava aberta. Tinha se esquecido de fechá-la. Havia ainda, ele se lembrou, duas ou três caixas de manuais embaixo do peitoril.

Perambulou pelas ruas próximas por outra meia hora, com medo de encontrar, com todo aquele dinheiro no bolso, alguns negros de sexta-feira à noite encharcados de bebida e procurando algum alvo fácil. Resolveu ficar nos quarteirões mais movimentados. Viu luzes brilhando e achou que estava ouvindo a pulsação de música. "Garotas! Garotas! Espetáculos contínuos a partir das 21h!". Já sabia que esse não era seu tipo de lugar, mas ficou por ali, sabendo que tinha dinheiro e poderia passar duas horas mais facilmente lá do que pelas ruas cada vez mais escuras. Foi surpreendido por uma voz às suas costas. "Gosta do que vê?"

O homem era um pouco menor que ele, mas dava para ver que havia tanto músculo quanto gordura sob o paletó apertado. "Boa garota, a Sheba! Entre!", disse o homem, quase gritando as palavras, mais uma ordem que uma sugestão. Determinado a não ser pressionado, Oswald sentiu sua raiva crescer: "Você age como se fosse o dono", disse, com um sorriso afetado. "Sou", disse o homem, nada amigável. E tirou do bolso da calça um cartão de visitas rosa.

THE CAROUSSEL CLUB

SEU ANFITRIÃO ... JACK RUBY

A irritação do homem cresceu. "Quer dar uma espiada nas garotas? Então entra, porra!" Dois homens saíram subitamente pela porta. Surpreso de ver que eram policiais, Oswald se preparou para sair de fininho, pedindo desculpa se fosse preciso. "Calma, Jack", disse um dos guardas, rindo. "Ele é só um panaca. É inofensivo." Mas o homem parrudo se aproximou. Estava mais irritado do que antes. "Talvez goste mais de rapazes que de garotas", disse. A mão que havia apanhado o cartão de visita estava se fechando num punho, e seu rosto redondo estava chegando mais perto – um rosto cuja maldade e estupidez básica não requeria uma luneta potente para Oswald detectar.

Ele virou para se afastar. O homem agora estava se queixando aos guardas do "chupador" que era "incapaz de se decidir".

E assim Oswald fez a volta, enfiou a mão no bolso do paletó e sacou a pistola. O peito inteiro do homem pareceu explodir dentro de sua camisa branca. Quando ele caiu na calçada, o paletó se abriu e revelou que ele também estava carregando uma pistola.

"Caramba, Jack!", gritou o guarda mais bêbado, procurando o próprio revólver. Seu colega fez o mesmo. Atraídos pelo som do tiro, outros dois policias saíram pela porta do clube e se juntaram aos que estavam esmurrando Oswald. Mais calmo do que se sentira durante todo o dia, ele deixou cair a arma. "Não estou resistindo à prisão!", ele disse, alto e bom som, como havia ensaiado para usar mais cedo naquele dia. "Não estou resistindo à prisão!"

"Certo, seu merdinha", disse um dos policiais, colocando-lhe algemas. "Mas pode acreditar que você está preso."

"Ele está morto?", perguntou Oswald, apontando com uma das mãos algemadas para o homem estendido na calçada. O cartão de visitas rosa voou para o chão. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

THOMAS MALLON, ROMANCISTA E ENSAÍSTA, É AUTOR DE MRS. PAINE’S GARAGE, SOBRE O ASSASSINATO DE KENNEDY. ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA THE ATLANTIC

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