Uma rima para L’amitié? La simplicité

Há uma certa lufada de ventos franceses arejando o Itaim-Bibi. E o arejar, aqui, tem a ver com o fato de novos restaurantes, ainda que com diferenças de estilos e preços, terem optado por se expressar com mais despojamento. Não é a França paulistana dos anos 70 e 80, que sonhava com a estética dos hotéis de luxo, com pratos servidos com salamaleques e lendas (e fatos) sobre contas altíssimas, inviáveis para a classe média. É, sim, a França que se identifica com os bistrôs. Dessa leva, o mais recente é o L’amitié, que tem como chef e proprietário Yann Corderon. Nascido na Normandia, Corderon trabalhou em vários países da África e, nos últimos anos, cuidou de casas como o Azaït, o Paris 6 e o Saint-Tropez de Todos os Santos. Agora, ele parece mais à vontade para mostrar aquela que talvez seja sua verdadeira faceta gastronômica: com menos rococó e mais clareza de sabores. O cardápio do L’amitié é praticamente todo dedicado à cuisine bistrotière tradicional, na qual não faltam itens como coq au vin e entrecôte com batatas. Mas note-se que o termo tradição não aparece evocando apenas o peso da história, da herança cultural. Tem muito mais a ver com a essência dos clássicos e com o prazer de servir receitas que, por serem já tão de agrado geral, parecem ter nascido não em um país, mas em um lugar indeterminado do mundo. Como uma boa massa ao pomodoro: há fronteira que resista? Existe também uma lucidez na definição dos preços, um pouco abaixo da média dos restaurantes similares. O couvert (pão, azeite, flor de sal e pasta de tomate seco) custa R$ 7. Há vários pratos em torno de 30 e poucos reais. Sobremesas por volta de R$ 12. Um certo alento, diante de um cenário no qual a insanidade dos valores parecia fora de controle. Dito isso, é importante informar que a refeição pode começar bem com o poelon de champignons (R$ 25) – a panelinha com cogumelos salteados, servidos com um ovo – e com a terrine (R$ 23) da casa, como a nos lembrar que esses pratos devem ser francos e simples. E que pode seguir fluida e agradável com pratos como o steak tartare (R$ 35, com boas batatas rústicas); o peixe do dia à la nage (R$ 42, uma tainha com caldo aromático e levíssimo); o confit de pato (R$ 59, um dos pratos mais caros do menu, tenro e saboroso); e até mesmo enveredando por um risoto de lulas (R$ 35) com tomate fresco. Na hora das sobremesas, uma constatação. As melhores foram justamente as mais despretensiosas, como o mille-feuille (R$ 10) e o entremet de citron au sabayon (R$ 12). Já quando a proposta se complica um pouco, o resultado não é tão bom. Assim aconteceu com o trio de chocolates (R$ 14, com um toque de flor de sal, agrupando musse, sorvete e um bolinho). E com a sarko-bruni (R$ 12), uma tartelette de geleia de goiaba com sorvete de mascapone que, entre evocar o romeu e julieta e fazer a gag política, acaba se perdendo na doçura excessiva. Como se a tal lufada, com acento parisiense, passasse soprando no ouvido: "La simplicité. La simplicité." L'amitié Rua Manuel Guedes, 233, Itaim Bibi, 3078-5919 12h/15h e 19h/0h (6ª, até 1h; sáb., 12h/1h; dom., 12h/17h; fecha 2ª) Cartões: todos Cardápio: de bistrô (com algumas massas e risotos). No almoço, menu-executivo por R$ 39 Avaliação: para quem é fã da cuisine clássica, mas dispensa exageros (inclusive de preço)

Luiz Américo Camargo,

13 Agosto 2009 | 10h28

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