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Uma semente promissora

A cidade de São Paulo pode não ter mar, mas é um oceano infindável de problemas. Trânsito caótico, violência e insegurança, custo de vida elevado, desigualdade social, ineficiência dos serviços públicos, entre tantas outras mazelas, têm como resultado o triste fato de que sete entre dez cidadãos paulistanos deixariam a cidade caso pudessem, como mostrou a pesquisa IRBEM, da Rede Nossa São Paulo, na semana passada.

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André Palhano *,
Especial para O Estado de S. Paulo

25 Janeiro 2016 | 20h30

Tirando o fato de que ao menos metade das pessoas que gostariam de deixar São Paulo não tem a menor ideia do que é viver no interior ou na praia, com todos os seus problemas (e olha que são muitos), e também excluindo os que reclamariam em qualquer situação (outra pesquisa recente apontou que metade dos cariocas deixariam o Rio se pudessem), temos aqui um problema: a falta de amor pela cidade. 

Sem amor, não há cuidado, não há carinho e não nos sentimos responsáveis pela cidade. Achamos que tudo que há de errado é de responsabilidade alheia, que não adianta tentar mudar nada, que os governos são invariavelmente culpados por essa situação e que nos resta apenas cuidar de nossa própria pele, torcendo para um dia poder sair de São Paulo ou, melhor ainda, do País. 

Felizmente, nem todo mundo pensa assim. Há exemplos interessantíssimos de pessoas e grupos que estão fazendo de São Paulo uma cidade mais legal para se morar, mais descolada, diversa e criativa. Tem a turma da economia colaborativa, mostrando que o futuro do capitalismo é compartilhado; a turma das ocupações criativas do espaço público; dos aplicativos que resolvem questões sociais; a turma dos orgânicos, das hortas urbanas, das paredes e tetos verdes; a turma da mobilidade, dos direitos humanos, do grafite; a turma zen, os ambientalistas antenados; só para citar alguns exemplos de uma tendência bem atual em várias megacidades mundo afora. 

Não há estatísticas confiáveis, mas pode-se afirmar com segurança que essa participação social mais ativa e criativa envolve hoje milhares de pessoas em São Paulo, todas com uma característica marcante: o amor pelo que fazem. Em tempo integral ou de maneira voluntária, são pessoas realizadas por influenciar seu próprio território, felizes por terem a oportunidade de trabalhar com propósito. Ao amar o que fazem, despertam e recuperam um pouco desse amor de que a cidade tanto precisa - e ainda deixam a coisa toda com uma sedutora cara de festa.

É um movimento crescente, menos pela urgência da transformação do que por seu poder de contaminação, especialmente entre os jovens. Representa, hoje, a semente mais promissora de mudança e engajamento em São Paulo (e outros grandes centros urbanos), a ponto de influenciar a política institucional, chamar a atenção do setor privado e incomodar muita gente acostumada a impor decisões de cima para baixo. 

Quando juntamos isso com tudo de bom que a cidade já oferece, desde sua rica programação cultural até poder pedir pizza às três da manhã, temos uma São Paulo pra lá de incrível. Ou, ao menos, uma São Paulo que amamos. 

* André Palhano é jornalista, blogueiro do Estadão e organizador da Virada Sustentável, festival de educação para a sustentabilidade com cara de agito cultural, realizada anualmente em São Paulo e outras capitais brasileiras

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