Vacilos de Troia

Lula e Fux ignoraram Homero: melhor que aprender com os fatos é não permitir que ocorram

CARLOS MELO | CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER,

08 Dezembro 2012 | 16h40

“Só aos tolos os fatos ensinam.” Na Ilíada, que leio para meu filho, essa frase é inúmeras vezes repetida. Compreende momentos em que os personagens se deixam surpreender pelos acontecimentos. Há ali uma imensidão de heróis fortes como deuses - quando não deuses de verdade - que, vaidosos, subestimam as circunstâncias e superestimam o poder que possuem. Apanhados nas armadilhas da presunção, acolhem com as garras da soberba a destruição. No Brasil atual, os erros são de igual natureza. “Erros clássicos”, digamos assim.

Os escândalos da moda são pródigos nesse tipo de equívoco. Primeiro, o caso Rosemary Noronha, ex-assessora do gabinete presidencial, em São Paulo; depois, as revelações do ministro Luiz Fux, do STF. Ambos cumprem um roteiro conhecido. Ignorando a prudência, a vaidade abre as portas para o ocaso. A velha história do cavalo de troia.

Da ex-assessora, não cabe discutir a vida pessoal. Não interessa o grau de seu envolvimento com o ex-presidente. No campo dos afetos, pedras jogadas vão e voltam como bumerangues. Não se cospe para cima. Apenas se confirma que na água do poder há mesmo algo - sua força, ansiedade e solidão - que desperta e favorece encontros e desencontros assim. De quando em quando, presidentes se embrenham por veredas do gênero.

Mas o direito à “vida privada” é via de mão dupla: se, na ida, não diz respeito ao público, na volta não deve se misturar com o Estado. Confirmado o noticiário, há inegável confusão entre as esferas: um oportunismo que avilta e conspurca relações pessoais, um assalto ao interesse público em razão e virtude de vínculos estabelecidos. Rose andou na contramão.

Não seria novidade o Estado submetido a conluios. É da natureza dos homens associar-se à fragilidade das leis. Não há nada mais atraente que o amigo do rei. Com ele, viola-se a democracia e a igualdade de oportunidades. Culpa de quem? Sobretudo, da polarização besta e do debate superficial que impede o aperfeiçoamento institucional. O problema é estrutural: punir é preciso, mas precaver-se é indispensável. Tolos são mesmo os que se deixam ensinar pelos fatos.

A história deveria instruir, servir de alerta. Dificilmente se cometerão erros inéditos: Getúlio Vargas tinha na família, no palácio e no quarto, Lutero, Gregório e Virgínia; Adhemar de Barros, a “Dr. Rui” e um cofre de encher os olhos (de Dilma). São exemplos. Completa, a lista é longa. Sabe-se que essa mistura não dá boa coisa. Lula não é Getúlio, nem Adhemar. Mas dormiu de boné. Impossível que tenha sido apenas leniente? Óbvio que não. Esse seu erro foi mais político que moral.

Para a crônica do poder, o grave é que Lula poderia ter evitado tudo isso. Mesmo os favoritos dos deuses são expostos a moiras que tecem e cortam destinos. Lula não é tolo para não ser precavido - tolo não chegaria, duas vezes, à Presidência. Mas também não é o Pelé que imagina. Agora, lutar com fatos será sua luta mais vã. No golpe duro que sofreu, Lula não pode culpar ninguém. “As elites”, como diz, montam o “cavalo de troia” que ele mesmo se deu. Só lhe resta administrar o prejuízo político e pessoal.

O caso do ministro Luiz Fux não difere na essência. Articulando a própria indicação, o candidato ao Supremo se supôs um craque: “Deixa, que eu mato no peito”. Guitarrista de acordes dissonantes, se não prometeu, insinuou. Infiltrado no STF, seria uma espécie de cavalo de troia. Cortejou quem condenaria mais tarde. Mas a bola que dominaria não era redonda e a torcida, furiosa, faria do julgamento um embate de leões. Teria a sagacidade das raposas? Seu nome não é fox.

A entrevista que concedeu ficará para a história como exemplo do peixe que vai pela boca, da fragrância exagerada da vaidade que o janota transpira. Tentando consertar o soneto declamado nos bastidores, publicou péssimo remendo. Revelou as vísceras do sistema, comprometeu seus pares. Viabilizaram-se todos pelos mesmos métodos? Provável que não. Mas o Tribunal e a Corte já não reluzem como há pouco. Como Fux, perdeu parte da magia. A pudicícia tem lá, no seu íntimo, certo despudor também.

Odisseu e Zé Dirceu. O cavalo de troia, original grego, foi obra de um sujeito mais que esperto chamado Odisseu - Ulisses, para os romanos. Sagaz, astuto, o mais inteligente dos aqueus. Após dez anos de combates, superou os súditos de Ílion enviando-lhes a destruição como presente, escondida no ventre de um cavalo de madeira. Em 2010, quem acreditou no candidato que fazia campanha ao Supremo Tribunal Federal não sabia que encomendava um cavalo de troia às avessas. Nem Fux é fox, nem José Dirceu é Odisseu.

O juiz se defende, o ex-presidente se recolhe. Justificam-se: “Não foi bem assim...”. Decerto que não. Nunca é. Ademais, não há provas. Apenas uma imaginária cerca de limites éticos que foi ao chão. Seria o suficiente para condenar? Ironias do julgamento do mensalão!

“Só aos tolos os fatos ensinam”, ressoa a frase de Homero. Tento explicar a meu filho que o homem de virtude política não aprende com fatos. Simplesmente porque não permite que esses fatos ocorram.

 

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