Venceu o bom gosto

No Chile, a Merlot vem ganhando espaço e seus vinhos estão chamando a atenção pela qualidade, como mostraram as duas degustações de tintos até R$ 35, publicadas na semana passada, e na faixa que vai de R$ 35 a R$ 50, nesta coluna. Mais uma boa notícia: a qualidade é praticamente a mesma nos produtos nas duas categorias de preços. Sem a incômoda companhia da Carmenère, com a qual convivia nos vinhedos, a Merlot vem demonstrando melhor suas qualidades. Merlot e Carmenère podiam ser confundidas, mas são diferentes. Exigem cuidados diversos e não amadurecem ao mesmo tempo. Juntas, se atrapalhavam; sozinhas, elas brilham, e a Merlot vem chamando a atenção de bons autores chilenos, como Patricio Tapia, que em seu ótimo guia Descorchados de 2007, afirma: ''Olho nesta cepa no Chile. Os bons vinhos crescem e crescem...'' Segundo Tapia, o consumidor deve prestar atenção nos seguintes produtores: Cousiño Macul, Gillmore, Calina, Torreon de Paredes, Carmen, Casa Donoso, Casablanca, Morandé, Casas del Toqui, Errazuriz, Santa Rita, Terranoble, Valdivieso e Veramonte. O prestígio mundial da Merlot sofreu um grande abalo com o filme Sideways, no qual os personagens denegriam as qualidades dessa uva para incensar a Pinot Noir. O absurdo dos absurdos. A Pinot Noir é imensamente grande, dá alguns dos melhores e mais elegantes tintos do mundo, principalmente na Bourgogne. Mas isso não quer dizer que a Merlot seja fraca. Essa uva é a tinta mais plantada em Bordeaux. Na sub-região do Médoc costuma entrar ao lado da viril e tânica Cabernet Sauvignon para ''amaciar'' o produto final. Aparece como a uva principal dos grandes tintos de Pomerol, como Pétrus, Le Pin, Château Trotannoy e outros, que ficam entre os melhores do mundo. Na espetacular região de Saint-Émilion, é a uva básica. Felizmente o efeito Sideways está se dissipando e a verdade, prevalecendo, como informa uma matéria recente da excelente revista Decanter, que mostra um crescimento de 6% da Merlot nos Estados Unidos. É o bom gosto vencendo esse maniqueísmo sem o menor nexo. ERRAZURIZ MERLOT RESERVA 2006 ONDE ENCONTRAR: VINCI 2797-0000 PREÇO: R$ 37 COTAÇÃO: 88/100 A Errazuriz domina amplamente o Valle de Aconcagua, uma zona de ótimos tintos que fica ao norte do Valle Central. Vinhedos extensos e vinícola moderna. Mas este vinho é de Curicó, ao sul do Valle Central. Um bom vinho, encorpado e concentrado. Aroma agradável, com aquele toque vegetal (eucalipto, menta, que encontramos em muitos tintos chilenos, mais sensível nos feitos com a Cabernet Sauvignon). Depois de algum tempo no copo, afloraram toques de frutas bem maduras. Ataque na boca muito agradável, mas depois fica um pouco alcoólico. Boa concentração de sabor e acidez muito agradável. Sempre convidando para o próximo gole. Ao final, ligeiramente tânico. Resseca um pouco a boca. Deve ganhar com o tempo na garrafa, embora já dê muito prazer. 14% de álcool.   CONO SUR 'BICICLETA' MERLOT RESERVE 2005 ONDE ENCONTRAR: EMPÓRIO FREI CANECA - SHOPPING FREI CANECA, 3472-2082 PREÇO: R$ 39 COTAÇÃO: 88/100 A Cono Sur é uma subsidária da gigante Concha y Toro, com autonomia técnica, vinhedos próprios e uma vinícola de ponta em Colchagua. Também faz vinhos com uvas de outros vales, alguns dos quais orgânicos. Seus vinhos são mesmo muito bem feitos. Este é chamado de ''Bicicleta'', uma imagem que aparece no rótulo e evoca o compromisso da vinícola com a preservação do meio ambiente. Aroma realmente muito bom. Um vinho perfumado, gostoso, com evidentes toques de madeira, de frutas e também minerais. Na boca, começa muito bem, mas depois cai um pouco. Potente, mas não encorpado. Um vinho relativamente leve, apesar da graduação alcoólica. Sem muita concentração de sabor, mas elegante e gostoso. Equilibrado e pronto. 14% de álcool.   CASA LA JOYA GRAN RESERVA MERLOT 2005 ONDE ENCONTRAR: WORLD WINE - R. PADRE JOÃO MANOEL, 1.269, 3085-3055 PREÇO: R$ 42 COTAÇÃO: 87/100 Casa La Joya é uma linha da vinícola Bisquertt, que tem bom nível e vinhedos no Valle de Colchagua, uma das melhores regiões para tintos. Cor de vinho novo. Bastante violáceo. Aroma muito gostoso, de frutas maduras ou geléias. Aroma intenso. Aparecem toques de madeira. Algo de eucalipto e de menta. Na boca, intenso e gostoso. Não é dos mais complexos, mas sim frutado, macio, ''doce''. Um vinho novo, com taninos nada agressivos, pronto para beber. Não dos mais concentrados, mas redondão e equilibrado, sem arestas. Taninos macios e álcool muito bem equilibrado. Nada enjoativo. Fácil de beber e de gostar. Dá vontade de continuar bebendo. Deixa na boca uma sensação gostosa, de frutas muito maduras. 14% de álcool.     CARMEN RESERVA MERLOT 2005 ONDE ENCONTRAR: MISTRAL R. ROCHA, 388, 3372-3400 PREÇO: R$ 49 COTAÇÃO: 89/100 A Carmen é do grupo Santa Rita e faz vinhos em várias regiões. Este e do frio Valle de Casablanca, que se destaca mesmo pelos brancos, mas onde a Merlot está se dando relativamente bem. Aroma ótimo e intenso, com muita fruta e algo vegetal, como em muitos tintos chilenos. Goiaba e especiarias, como a baunilha. Tinto muito gostoso . Macio, sedoso e com ótima acidez. Não dos mais encorpados e concentrados, mas agradável, complexo e também perfumado na boca. O toque de goiaba é bastante sensível. O álcool não se destaca, muito bem equilibrado pelos demais componentes. Apenas cai um pouco ao final, ligeiramente rústico e agressivo. Mais do que pronto para beber, mas ainda pode evoluir um pouco na garrafa. 13,5% de álcool.

saul.galvão@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2008 | 04h53

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