Vinhos de ex-filósofo

Marco de Grazia, filósofo formado em seis universidades, é amante dos vinhos de Etna

Danilo Nakamura, especial para o Paladar,

22 Maio 2009 | 16h00

Segundo o senhor Marco de Grazia, o mundo ocidental é dividido em duas partes: os que amam Platão, e os que amam Aristóteles. "Mesmo para quem nunca leu. Existe uma tendência intrínseca de se seguir este ou aquele caminho. Invariavelmente, os platonistas se apaixonam pela Borgonha, e os aristotélicos por Bordeaux. É impossível amar os dois igualmente."  Nascido nos EUA, De Grazia é formado em seis universidades – entre França, Itália e Estados Unidos – o que, de alguma maneira, explica sua personalidade difusa. Gordinho engraçado, trajado à escoteiro gaulês (com direito a um lencinho rosa no pescoço), frases picantes e muita, muita auto-confiança. "Meus vinhos deveriam ser tombados pela UNESCO!", exclama ele. Sua reputação cresceu após encorajar pequenos produtores do Piemonte a utilizarem novas barricas francesas, o que lhes conferiu grande atenção de Robert Parker. "Eu sabia que poderia fazer bons vinhos, mas nunca imaginei que seria algo tão espetacular. Do mesmo jeito que na Europa fazemos vinho há séculos, também há séculos que fazemos guerra, e perdemos muitas coisas que precisam ser redescobertas... entre elas, o Etna". O Etna, vulcão situado no leste da Sicília, é sua menina dos olhos. Mesmo com toda sua modernidade, De Grazia produz vinhos de muita personalidade, e não abre mão de sua  uva autóctone, a Nerello Mascalese – com vinhedos pré-filoxera com até 140 anos de idade. São delicados e amistosos, repletos de nuances, com toques de carne e sangue, lembrando mesmo uma Borgonha deslocada, portanto bem platônicos, na divisão dele. Seu Etna Rosso Calderara Sottana 2006 (US$95,50) é robusto, mas com grande finesse, cheio de fruta e notas florais, madeira precisa e ótima acidez. Já seu Vigneto Guardiola 2006 (US$95,50) tem uma mineralidade deliciosa, das pedras vulcânicas em que foi cultivado, com os taninos já afinados. Talvez ainda precisem de tempo, mas já são ótimo argumento para De Grazia se orgulhar tanto do que produz. Todo filosófico, ele gira a taça para um lado, gira para o outro, e ousa dizer que faz muita diferença – para um lado, sente-se a expressão da uva; para o outro, a do solo (não  pergunte qual lado é qual, ele responderá desafiante: "you tell me!"). Quando, por brincadeira, indagado se na Austrália, em que o giro natural da água é inverso, também mudava a relação, De Grazia responde "Não importa, vinho australiano é uma porcaria!". Ao menos do brasileiro Angheben Barbera ele teve uma boa impressão: "Tem ótimo nariz e é suave na boca. Não tem a cor da nossa Barberas, mas quem liga? Vinho foi feito pra dar prazer."

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