Vinhos para mastigar e outras doçuras adultas

Degustação de sabores das uvas viníferas rindo infantilmente e enchendo a boca com montes de bala de goma

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2010 | 00h39

Faz parte do jargão dos degustadores de vinho (e dos wine geeks também) citar uma lista de aromas e sabores frutados, como morangos, framboesas, limões e abacaxis. Foi por isso que uma empresa americana, a Jelly Bean Wine Bar (www.jellybeanwinebar.com), ligada à revista eletrônica de vinhos Wine X Magazine, resolveu investir na sua linha de vinífera. Não se tratam de balinhas de vinho, mas da desconstrução dos sabores primários (aqueles que são sentidos de cara) das uvas mais comuns. O editor e produtor John Thomas explica, na entrevista abaixo, o propósito da linha de balas viníferas.

O Paladar provou dois kits, o de vinhos brancos e o de tintos. Primeiro, montamos a Sauvignon Blanc (duas "doses" de manga, limão, grapefruit rosa, tangerina, pêssego e pera). A regra é colocar todas as balinhas juntas na boca, nesta proporção.

Depois de umas mastigadas, a massinha ficou mesmo com traços de Sauvignon Blanc, com um toque verdoso e aquele típico cat piss in a gooseberry bush característico. Foi inacreditável, diante do ceticismo inicial, constatar que é possível simular um gosto tão complicado quanto o dos vinhos por meio de confeitos coloridos em formato de feijões.

Partimos para um desafio maior, a Riesling da Alsácia (duas "doses" de pêssego, limão, maçã verde, melão cantalupe, grapefruit rosa e pétalas de rosa). Lida a fórmula, já deu para perceber que não ia dar certo. Pêssego é coisa de Riesling austríaco, não alsaciano. E pétalas de rosa? Traço de Gewurztraminer. Mastigadas todas juntas, deu errado. Não era bom nem parecia a bebida.

Passamos aos tintos. Nesta altura, os participantes já se divertiam com a transgressão impossível na infância: encher a boca de balas, sem culpa e sem limite.

Dos três tintos, dois foram bem, a Malbec (groselha, framboesa, cereja, ameixa e pimenta-do-reino) foi um sucesso. O caldinho resultou bem parecido com um malbecão cheio de fruta madura, com o surpreendente toque de pimenta, eleita a melhor bala individualmente, como comer pimenta recém-moída. O Pinot Noir (duas de cereja, morango, ameixa, grapefruit rosa, pétala de rosa e pimenta) é gostosinho, sem muita personalidade. O fracasso da vez foi a Sangiovese (duas de framboesa, duas de morango, cereja e amora-silvestre). Faltou a acidez que torna essa uva tão gostosa.

Mas a brincadeira não parou aí. Afinal balinhas são uma boa diversão. O teste final era compará-las com a coisa real: vinhos. Escolhemos um bom Sauvignon Blanc chileno, cheio de tipicidade do Novo Mundo, mas contido, com bons toques de grama cortada, cassis e algo de frutas tropicais no nariz. E na boca, seco, elegante e com ótimo equilíbrio e acidez. A coleção de balinhas foi um fiasco. Não deu para a saída, o que se repetiu diante de um Pinot Noir do mesmo produtor, o TH Undurraga, bem frutado e intenso, que ficou muito superior à sua versão em jelly beans. Acrescentamos acidez, com duas balas de maçã verde, nada.

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