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Viver sem ela

Felipe Werneck

22 Março 2014 | 16h 00

E agora como retomar uma história despedaçada pela violência policial?

RIO - O Morro da Congonha, em Madureira, zona norte do Rio, parecia uma favela fantasma na quinta-feira. Por volta das 11 horas, não havia ninguém na Rua Joana Rezende, que leva ao topo da comunidade, onde fica a casa da família de Claudia Silva Ferreira, baleada na manhã de domingo com um tiro de fuzil no coração. Dentro de casa, o pai dos quatro filhos dela, Alexandre Fernandes da Silva, comentava a notícia divulgada naquela manhã. O Ministério Público Militar havia concordado com o pedido de libertação, que seria concedida à noite pela Justiça, dos três policiais que levaram a vítima no porta-malas de uma Blazer da PM. Cerca de 5 quilômetros adiante, na Avenida Intendente Magalhães, o corpo de Claudia, pendurado na viatura, foi arrastado no asfalto por pelo menos 350 metros.

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O relato de que policiais empurraram moradores e deram dois tiros para o alto antes de deixar o local em alta velocidade, com a tampa traseira aberta e um dos braços dela para fora, foi feito por uma vizinha na terça-feira. Naquela tarde, outros moradores do morro saíram à rua para mostrar cápsulas recolhidas, marcas de bala da ação policial e a poça de sangue que ficou no local em que Claudia foi assassinada, a 50 metros de sua casa. Eram 8 horas da manhã quando ela saiu para comprar pão segurando um copo de café e alguns reais.

A inquietação que tomou conta da favela nos dias seguintes à morte, inclusive com protestos na Avenida Edgar Romero, havia desaparecido na manhã de quinta. Alexandre estava refugiado em sua casa com os quatro filhos e os quatro sobrinhos que terá de criar sozinho com o salário de R$ 891 que ganha como vigia do Mercadão de Madureira, tradicional ponto de comércio popular da zona norte. Ele conta que Claudia tinha 19 anos e vendia doces em um sinal da Tijuca, também na zona norte, quando a conheceu. Foram apresentados por uma cunhada que "fez muita propaganda". Alexandre tinha 22, morava na Cidade de Deus, zona oeste, e trabalhava na fábrica da Rica Alimentos como "sangrador" de frangos, pendurando e cortando a cabeça dos animais. Daquela época ele guarda a cicatriz de um corte no dedo mindinho da mão esquerda.

Se Claudia não tivesse saído de casa para comprar pão no domingo, os dois completariam 20 anos juntos em setembro. Conhecida como Cacau no Morro da Congonha, onde nasceu e foi criada, ela é definida pelo marido, agora viúvo, como "multimulher". "Se eu fosse embora, ela não ia precisar de homem nenhum para desentupir um cano e trocar um registro. Tá vendo essa parede da sala? Tinha uma janela aí. Ela emboçou em 20 minutos. Era sempre batalhadeira, determinada, independente e sorridente." Claudia também era vaidosa. Fazia o cabelo e a unha todo domingo para começar a semana arrumada. Depois de ir à padaria, sempre passava na casa da vizinha manicure para marcar um horário e voltar à tarde.

Alexandre tem os olhos avermelhados. Sentado no sofá em um canto da sala, faz questão de mostrar fotografias que guarda dentro de uma sacola amarela de supermercado. Em uma delas, Claudia parece se divertir com amigas de trabalho. Há três anos ela fazia a faxina de banheiros, corredores e ambulatórios do Hospital Naval Marcílio Dias, no Lins de Vasconcelos, zona norte. Recebia R$ 810 por mês. Na segunda-feira, colegas de trabalho lotaram um ônibus para ir ao seu enterro. "Ela era muito alegre, brincalhona, extrovertida. Só não ficava na farra com a gente por causa dos filhos e sobrinhos. Ia sempre direto para casa e dizia, brincando: ‘Meu litrão tá me esperando’", conta a amiga Márcia Regina Zacarias, de 46 anos, também auxiliar de serviços gerais.

A cervejinha do fim de semana era sagrada. "Eu ficava bêbado e ela não. Era uma mulher firme. Aqui a gente bebe, mas sempre pagou as contas e nunca deixou ninguém sair do eixo", diz Alexandre, referindo-se aos filhos.

A casa da família é simples. Tem três cômodos, cozinha e área externa onde as crianças podem brincar. O muro está pichado e tem tijolos aparentes. Um dos quartos é minúsculo. Praticamente só cabem o beliche e o armário. No outro fica a cama de casal. Seis dormiam na sala, coberta por telhas de amianto, com dois sofás reformados, um ventilador preso na parede, um tapete tipo persa e uma TV da marca H-Buster em cima de um rack de madeira.

Desde domingo, Alexandre não consegue deitar no colchão de casal. Mudou-se para a sala. "O mais duro é à noite. Um cachorro late e eu fico assustado. Não sei quem está lá fora. Hoje não consegui dormir. Se um dia eu não estiver mais aqui, como vai ser com as crianças?"

Na quarta-feira, parentes de Claudia reuniram-se com o governador Sérgio Cabral no Palácio Guanabara. "Ele me garantiu que os policiais envolvidos ficariam presos até o julgamento. Agora os caras vão ser soltos. O governador fez o papel de bom moço. Como posso acreditar na promessa? Não há dúvida de que os PMs fizeram uma atrocidade. Só queremos que paguem por isso. É um risco para a família e os moradores eles serem soltos, uma ameaça. Estamos com medo."

Alexandre tinha a informação publicada na quinta pelo Estado de que um dos policiais que levaram o corpo de Claudia está envolvido em 57 registros de ocorrência de operações que resultaram em mortes. São os chamados autos de resistência, homicídios praticados por PMs em alegados confrontos, como a morte de Claudia seria registrada se não tivesse surgido um vídeo no meio do caminho. A filmagem, divulgada pelo jornal Extra, mostra o corpo sendo arrastado pela viatura, pendurado por um pedaço de roupa.

Há contradições entre as polícias Civil e Militar se foram 8 ou 12 policiais que participaram da operação no Morro da Congonha no domingo, mas todos são do 9º Batalhão, em Rocha Miranda. Em vários momentos desde a década de 1990, o 9º BPM foi o campeão de autos de resistência no Rio, segundo pesquisas do sociólogo Ignácio Cano. "Os policiais nunca são punidos. O caso da Claudia é mais um que eles vão tirar de letra", diz Alexandre.

Na sexta, os dois subtenentes e o sargento que estavam na viatura foram soltos do presídio Bangu 8. De acordo com a juíza Ana Paula Pena Barros, que assina a decisão, "por mais fortes, chocantes e até mesmo revoltantes que sejam as imagens da senhora Claudia, já baleada, sendo arrastada no asfalto presa ao reboque, não é possível inferir que os policiais militares presentes na viatura conheciam tal circunstância e a ignoraram". O advogado de um dos PMs alegou que Claudia foi colocada no porta-malas porque "a viela estreita impedia a abertura das portas laterais da viatura". Mas, segundo moradores, até caminhões sobem a favela pela Rua Joana Rezende. O advogado da família, João Tancredo, vai processar o Estado.

Na quinta, Alexandre proibiu todo mundo de sair de casa sem autorização. Também pediu à filha mais velha, Thaís, de 18 anos, que parasse de dar entrevistas. Os quatro sobrinhos, Gabriel (14), Caíque (11), Alexandre (9) e Caio (5), vivem com a família há quase dois anos. Pouco antes do Dia dos Pais de 2012, eles ficaram uma semana na casa da tia Claudia. Depois, não queriam mais ir embora. Alexandre comenta que essa história daria um livro, mas não fala muito. Diz apenas que os pais "não tinham responsabilidade".

Weverton, o filho de 16 anos, foi o único que não conseguiu se matricular na escola este ano. Segundo o pai, não havia vaga para o curso noturno do primeiro ano do ensino médio. O adolescente já percebeu que existe a possibilidade de ter de deixar a favela, mas não quer se afastar dos amigos. O Morro da Congonha começou a ser ocupado na década de 1950 e tem 2.752 moradores pelo Censo de 2010. É área do Comando Vermelho. A casa de Claudia fica de frente para o Morro da Serrinha, da facção rival Terceiro Comando Puro.

Neste domingo, os filhos mais novos, os gêmeos Pâmela e Pablo, completam 10 anos. "Financeiramente eu dou meu jeito, mas sozinho vai ser difícil", diz o pai. "A mulher é mais forte que o homem. Numa situação dessas, a Claudia saberia contornar. Acho que vou pirar com essas crianças. Hoje estou vendo que não sei se vou dar conta. Preciso ter muita força."

Ele se levanta, vai até a geladeira e volta com um copo de cerveja. "Temos uma história bacana. Foi fácil aprender a viver com a Claudia. Difícil vai ser viver sem ela", conclui Alexandre, usando uma flanela dobrada para enxugar o rosto. A cem metros dali, em frente à quadra de futebol, a palavra ‘saudade’ foi pichada em letras garrafais no chão de concreto.