Republicanos medievais
O equivalente político ao circo da Fórmula 1 - a prolongada sequência de eleições primárias em todos os Estados Unidos para a escolha dos candidatos à Casa Branca - prossegue hoje em New Hampshire. Será a segunda disputa entre a meia dúzia de aspirantes republicanos à cadeira do democrata Barack Obama, que buscará a reeleição em novembro deste ano. A corrida anterior, na semana passada em Iowa, teve um desfecho surpreendente: Mitt Romney, ex-governador de Massachusetts, tido como moderado em comparação com os rivais, bateu por 8 votos (em cerca de 130 mil depositados) o fundamentalista evangélico Rick Santorum. Este ex-senador da Pensilvânia era até então mais conhecido por sua homofobia do que pelas chances de se tornar o presidenciável da legenda que já teve entre os seus eleitos um político da estatura de Abraham Lincoln.
A ascensão de Santorum, que dificilmente se confirmará no Estado de New Hampshire - conhecido por suas características seculares -, mas poderá ser ratificada na Carolina do Sul, evidencia ainda uma vez a captura do Partido Republicano pelo que há de mais extremado, intolerante e obscurantista na mentalidade americana. Na Baixa Idade Média em que o partido mergulhou, o conservadorismo fiscal, com a defesa do livre mercado e a limitação do papel do Estado - suas defensáveis bandeiras tradicionais - foram ultrapassados pelo conservadorismo moral, na área dos costumes. Numa visão brasileira, pode-se dizer que, em relação à esfera privada, um político como o deputado Severino Cavalcanti parece um liberal perto dos pré-candidatos republicanos.
O partido não é apenas contra aumento de impostos e a favor de cortes cirúrgicos nos gastos sociais a pretexto da recuperação das contas públicas - embora tenha sido um dos seus, o então presidente George W. Bush, quem deixou um rombo estratosférico nas finanças nacionais. Os republicanos também se recusam a acreditar no aquecimento global, defendem o comércio irrestrito de armas de fogo, querem expulsar os 12 milhões de imigrantes ilegais que se acredita existir nos EUA e se mobilizaram para impedir, na Justiça, a vigência do sistema de saúde proposto por Obama, que obriga todo americano a ter um seguro - indiferentes ao fato de que esse projeto nasceu como alternativa conservadora àquele que a então primeira-dama Hillary Clinton tentou emplacar em meados dos anos 1990. Só não são indiferentes ao fato de que, como governador, o correligionário Mitt Romney precedeu Obama ao adotar um sistema de saúde - que Romney se viu obrigado a renegar.
Mas o que eles abominam acima de tudo é o direito ao aborto, sejam quais forem as circunstâncias, e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O primeiro foi assegurado pela Suprema Corte na histórica decisão Roe vs Wade de 1973. O segundo é aceito em um punhado de Estados. Uma gritante exceção no grupo é o presidenciável Jon Huntsman, ex-embaixador em Pequim (e mórmon, como Romney). Ele defende a legalização das uniões gays e o combate às mudanças climáticas. Não admira que apareça com 3%, na rabeira das pesquisas do partido. A ironia é que, furiosos antiestatistas, os demais candidatos não se vexam de pregar o intervencionismo do Estado para proibir o aborto e banir o casamento homossexual. Para Rick Santorum, a estrela da prévia de Iowa, isso ainda é pouco. Ele gostaria de revogar o decreto de Obama que autorizou a presença de gays nas Forças Armadas, tornar crime as relações homossexuais - e proibir a venda da pílula e outros contraceptivos.
Santorum faz praça de ele e sua mulher terem rejeitado interromper a sétima gravidez do casal, sabendo que o filho não sobreviveria. De fato, ele morreu duas horas depois do parto. Os pais dormiram com o corpo aquela noite na maternidade; no dia seguinte, levaram-no para casa, a fim de que fosse embalado pelos outros filhos. A rememoração do episódio encantou os republicanos - e induziu Romney, mais do que depressa, a fazer campanha em companhia da mulher, três filhos, duas noras e cinco netos.
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