A alegria do ladrão de galinha
Quem deve estar festejando a prisão do Daniel Dantas é o ladrão de galinha. Mesmo que o banqueiro já esteja solto, só o fato de vê-lo sendo levado pela polícia certamente encheu de alegria o coração do ladrão de galinha e o levou a gritar coisas como ''Até que enfim!'' dentro da sua cela superlotada, em algum lugar do território nacional. O ladrão de galinha é aquela figura sempre citada do folclore brasileiro quando se fala das desigualdades da nossa justiça, o cara que vai preso por um crime menor, sem apelos e recursos, enquanto crimes maiores ficam impunes, ou suspeitos de roubos maiores escapam da prisão.
O ladrão de galinha já tinha tido outros motivos para festejar, é verdade, desde que começou o novo ativismo da Polícia Federal, que de uns anos para cá tem prendido muita gente que ninguém esperava.
Mas o Daniel Dantas é diferente. Nem interessa ao ladrão de galinha saber se o Daniel Dantas é culpado ou inocente do que é acusado. Para ele, Daniel Dantas é um símbolo. O ladrão de galinha se considera o anti-Daniel Dantas. É seu oposto em tudo. Seu crime é sempre claro e indiscutível: ele rouba galinhas. É flagrado e preso e pronto. Nada mais insofismável. Já os ''crimes'' do Daniel Dantas, ou as suspeitas de crimes pelas quais ele agora foi preso, pertencem ao mundo crepuscular do empreendimento capitalista, onde as regras e os costumes, e a fronteira entre a falcatrua e o bom negócio, se diluem. Quer dizer, nada mais sofismável. Há anos que Daniel Dantas opera nesse lusco-fusco moral, e nem nas críticas que recebe pode-se definir o que seja inveja ou estratégia inimiga e o que seja indignação genuína. Por isso, o extremo oposto a roubar galinhas não é o assassinato em série, ou outro crime tão enorme que absolva o ladrão de galinha pelo contraste. É o crime indefinido, o que impede o flagrante e dribla a justiça pela indefinição, ou compra a definição favorável.
O ladrão de galinha tem, portanto, todo o direito de achar que, se prenderam o Daniel Dantas, as coisas estão mesmo mudando. E de fazer planos profissionais para a próxima vez que for solto: se estão prendendo os daniéis dantas, talvez estejam aliviando o roubo de galinhas.
NA FLIP
Foi ótima a 6ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty. Comentaram com o inglês Tom Stoppard, uma das grandes atrações do encontro, que ele se parecia com o Mick Jagger. Stoppard protestou. O Mick Jagger tinha mais rugas do que ele. E contou que certa vez alguém perguntou ao roqueiro por que tinha tantas rugas. ''É de rir muito'', respondeu o Mick. Disse o outro: ''Nada pode ser tão engraçado.''
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