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A eterna bailarina e os passos de sua companhia

Aos 64 anos, Iracity Cardoso, fundadora da São Paulo Companhia de Dança, nem pensa em aposentadoria

06 de dezembro de 2009 | 0h 00
Edison Veiga - O Estadao de S.Paulo

"Corpo de bailarina" é expressão consagrada, dessas que se traduzem rapidamente em imagem na cabeça das pessoas. "Alma de bailarina" já não parece tão óbvia assim. Mas bastam poucos minutos de conversa com Iracity Cardoso - essa jovem que aparece no centro da foto acima e, cinco décadas mais moça, em branco-e-preto, à direita - para compreender o significado. Uma mistura de energia, ânimo e versatilidade. A sabedoria de dançar conforme a música.

"Já dancei nas pontas, na meia-ponta, no pé descalço e no salto alto", diz, olhar firme e sorriso nos lábios. "Nada me assusta. Já fiz de tudo. Não tenho nenhum preconceito com relação à dança." Dança benfeita, frisa em seguida. Para ela, linguagem ou gênero não importam tanto. "Com qualidade, é sempre um prazer", define.

A história dessa bailarina de 64 anos, fundadora e uma das diretoras da São Paulo Companhia de Dança, é toda arte. Já de berço. Sua mãe, prima dos palhaços Arrelia e Fuzarca, era de família circense - ela própria chegou a trabalhar, quando jovem, fazendo acrobacias com bolas, sobre cavalos e, respeitável público, destemida em cima de uma moto perigosa. "Ela ficava na garupa da moto, dentro do globo da morte", conta Iracity, referindo-se ao clássico número de circo em que motocicletas dão piruetas dentro de um globo metálico. Do lado paterno, havia a influência do cinema. Iracity é descendente dos Segretos, família a quem se atribui a introdução da sétima arte no Brasil. "Meu pai chegou a ser distribuidor de filmes. Mas, depois, ganhava a vida como representante comercial."

Paulistana do Cambuci, aos 8 anos de idade Iracity estava matriculada na escola de balé de seu bairro. De lá para a já tradicional Escola Municipal de Bailado foi apenas um passo - ritmado e sutil. "Com 14 anos já dançava profissionalmente", lembra. "Tive o privilégio de aprender muito com aquele pessoal do Quarto Centenário (companhia de balé que aludia às comemorações dos 400 anos de fundação da cidade, em 1954), já que era da geração seguinte à deles."

Aos 18 anos, casou-se com o também bailarino Antonio Carlos Cardoso. Com ele, mudou-se para o Rio - "que, àquela época, oferecia uma estrutura mais profissional para a área" -, depois para o México. "Lá ficamos até juntar dinheiro para comprar passagens de ida para a Europa", lembra. Morou na França e na Alemanha - onde nasceu a única filha do casal. Nesse período, atuou como bailarina da companhia francesa Opéra de Marseille e das alemãs Stadttheater Bonn e Staatstheater Karlsruhe. Em 1967, voltou ao Brasil. Logo depois, se separaria do marido. "Casei-me muito jovem e foi um casamento muito curto. Ficamos juntos sete anos", relata.

TODA DANÇA

Mais que uma opção, a versatilidade era necessária nos tempos em que a dança - assim como qualquer atividade artística, em geral - não contava com o profissionalismo de hoje. "Tinha de ter três empregos ao mesmo tempo para sobreviver", recorda. "Trabalhei em espetáculos de televisão, Record, Excelsior, Cultura... Até na Tupi", diz. "Conciliava projetos pequenininhos com os estudos em que aprimorava minha formação."

Seu retorno para uma longa temporada no Brasil - de 1967 a 1980 - foi fértil. Entre 1972 e 1974, foi bailarina e professora do Ballet Stagium. Também deu aulas no Teatro de Dança Galpão, em 1975. De 1974 a 1980, atuou no Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo - hoje chamado de Balé da Cidade. Então achou que já era hora de fazer as malas e voltar ao Velho Mundo. Seriam 23 anos de outro exílio artístico.

"A dança é uma linguagem universal. Por causa dela, conheço praticamente o mundo todo", comenta Iracity. "E sempre tive um espírito meio cigano, meio nômade mesmo. A ponto de chegar a mudar de casa três vezes em cinco anos."

De 1980 a 1988, Iracity foi bailarina e assistente de direção do Ballet du Grand Théâtre de Genève , na Suíça. Em seguida, tornou-se uma das diretoras da companhia, cargo que ocupou até 1993. Já muito bem acostumada a viver em um país com localização geográfica privilegiada, no centro da Europa, estranhou um pouco quando se mudou para Portugal, onde dirigiu o Ballet Gulbenkian, entre 1996 e 2003. "Achava que em Lisboa ficaria longe de todos e ninguém iria me visitar", afirma. "Depois de tantos anos, aprendi que minha família era a companhia. Por isso hoje tenho "familiares" em muitos lugares do mundo. E é muito interessante quando a gente se encontra em diversas circunstâncias."

NOVA VOLTA

Foi quando Iracity decidiu retornar definitivamente ao Brasil. Não para atender a nenhum convite profissional, mas por razões familiares. "Meus pais já estavam com mais de 80 anos e achei que era hora de cuidar deles", conta - seu pai morreu em 2006; a mãe, no ano passado. "Era o que eu queria: viver com meus pais os últimos anos deles."

Mas se enganou quem pensava que ela acabaria antecipando a aposentadoria. Logo surgiram inúmeros convites profissionais. De 2006 a 2007, trabalhou na Secretaria Municipal de Cultura como assessora e curadora de dança. Criou o Centro de Dança da Galeria Olido. "Como fiquei fora por muito tempo, quase não conhecia a atual geração de dançarinos brasileiros", comenta. "Foi interessante poder fazer algo pelos grupos independentes de São Paulo."

Em 2007, foi convidada a participar de encontros na Secretaria de Estado da Cultura. "O secretário (João Sayad) queria saber o que poderia ser feito pela dança", relata. "Não titubeei: sugeri a fundação de uma companhia e falei que o artista precisa ser tratado como qualquer outro profissional."

Ela se mirava no exemplo da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). "Se os músicos têm essa estrutura, por que os bailarinos não poderiam ter?"

No início do ano seguinte, reuniões e reuniões depois, seu sonho saía do papel. A São Paulo Companhia de Dança, com sede provisória na Oficina Oswald de Andrade, no Bom Retiro - vai para o Teatro da Dança, quando este ficar pronto, na Luz -, foi formada depois de um longo processo seletivo do qual participaram mais de 800 bailarinos de todo o País. Ficaram 41. Só neste ano, foram mais de 60 apresentações. As últimas ocorrem na capital paulista: hoje tem Passanoite, Entreato e Gnawa, às 19h; e de quinta a domingo que vem, será apresentado Polígono. Todos no Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153, tel.: 3288-0136).