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A face política de Pablo Picasso

Esta produção menos conhecida do espanhol ganhou força a partir de 1944 e está na Tate de Liverpool até agosto

06 de junho de 2010 | 0h 00
Claudia Rahola - O Estado de S.Paulo

O Rapto das Sabinas. Tela concebida na crise dos mísseis em Cuba (1962)

A partir de 1944, quando se filiou ao Partido Comunista francês, até a sua morte em 1973, Pablo Picasso foi um artista comprometido com a política e esta faceta menos conhecida da sua vida e obra é tema de exposição da Tate Gallery, em Liverpool. Picasso: Paz e Liberdade, aberta até 30 de agosto, explora esse aspecto da personalidade do pintor espanhol que "deixou importantes vestígios em sua pintura", como disse um dos curadores da mostra e diretor do museu de Liverpool, Christoph Grunemberg.

Nos anos da Guerra Fria, muitas das suas obras mostram o sofrimento nos conflitos e também o seu ardente desejo de paz. "Ele criou obras que são muito sutis no seu conteúdo político, mas em outras está bem explícito", lembrou o diretor. É o caso de O Ossário, criado entre 1944 e 1945, considerado o mais importante depois de Guernica (1937), um libelo contra a guerra que se converteu em ícone da paz.

Se o primeiro foi a resposta artística de Picasso à Guerra Civil espanhola, entre 1936 e 1939, o segundo, inspirado nas primeiras fotografias dos campos de extermínio nazistas e em documentário sobre o massacre de uma família espanhola na França, foi sua reação à Segunda Guerra.

Há uma relação estreita entre as duas obras, a começar pelas cores, ressaltou Grunemberg, que não conseguiu pôr os dois trabalhos lado a lado porque o delicado estado de conservação de Guernica impediu que ele fosse trazido de Madri.

Menos explícito é O Rapto das Sabinas, reinterpretação de um quadro de Jacques-Louis David, que o pintor concebeu em plena crise dos mísseis em Cuba, entre outubro e novembro de 1962. "Quando o mundo estava à beira da Terceira Guerra e de um desastre nuclear, ele pintou esse quadro que representa matança de mulheres e crianças."

Também estão na exposição o Monumento aos Espanhóis Que Morreram pela França (1945/47) e Mulheres de Argel, parte de série de interpretações da obra de Delacroix feita em 1954, durante a guerra de independência da Argélia (1954/62).

Picasso foi mais ativo politicamente nos anos 40, 50 e início dos 60 e depois entrou no Partido Comunista, ao qual foi sempre fiel, apesar das divergências. "Picasso foi um ícone para o partido. Ao se filiar, ele atraiu publicidade e usou isso."

Nesses anos, Picasso financiou e apoiou muitas causas humanitárias e de esquerda, proferiu conferências e se converteu numa das figuras mais importantes do Movimento pela Paz, para o qual pintou a famosa pomba branca que se transformou em símbolo universal.

Várias versões dessa pomba estão na mostra de Liverpool, que expõe mais de 160 quadros, esculturas, desenhos e gravuras, que vieram de grandes museus e coleções internacionais, assim como fotografias, filmes, cartazes e documentos.

Os organizadores esperam que a mostra, que vai para o museu Albertina (Viena), em 16 de setembro, ajude a equilibrar a imagem mais conhecida de Picasso, de "gênio criativo, mulherengo e extrovertido compulsivo".

Ativismo
A sua imensa correspondência inclui personalidades como Nelson Mandela e Fidel Castro e comprova seu envolvimento constante em causas pacifistas e humanitárias




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