A filosofia e a economia juntas no Fantástico
Eduardo Giannetti explica a natureza dos juros na Globo sem usar economês
Ao lançar há dois anos o livro O Valor do Amanhã, o economista e filósofo Eduardo Giannetti não se dirigiu ao leitor habitual de sua área, alertando no prefácio tratar-se de uma obra destinada a leigos. A idéia que o animava era bastante simples: ele falaria de juros, sim, mas não da maneira árida como se espera de um economista. O sucesso do livro foi tanto que inspirou uma série de dez programas de curta duração (10 minutos) inseridos no Fantástico, da TV Globo, a partir do próximo domingo. Dirigido pela cineasta Isa Ferraz, a série pretende mostrar como a vida das pessoas - do brasileiro, em particular - é afetada pela falta de planejamento, como se fôssemos exterminadores do futuro. Giannetti parte do princípio que todo ser humano, independentemente de sua conta bancária, é um economista intuitivo. Só que pode estar alocando recursos em lugar errado.
Será, então, um programa para orientar o telespectador a aplicar sua poupança? Não exatamente. A economia, na série baseada em O Valor do Amanhã, é considerada principalmente sob a ótica do comportamento. Giannetti vai falar da escassez de dinheiro, mas em especial da escassez de tempo e cérebro - e como a má administração de ambos pode provocar resultados desastrosos. A realidade dos juros, diz ele, está presente em todas as situações cotidianas em que se dá uma troca intertemporal. Certo é abrir mão de prazeres no presente para não enfrentar sofrimentos no futuro, conselho que parece não ter muita ressonância numa época dominada pelo hedonismo imediatista. Mas é justamente esse seu desafio: provar que a plenitude do corpo jovem se constrói à custa da fraqueza do corpo velho. ''''Viver agora e pagar depois ou plantar agora e colher depois'''' é a principal lição de casa que Giannetti vai propor ao telespectador brasileiro.
Se escrever sobre economia para leigos já é difícil, como transformar em imagens um discurso sobre escolhas intertemporais, produtividade, taxas de poupança, contas públicas e crescimento? A resposta vem da diretora Isa Ferraz, especialista em temas complexos - foi dela a idéia de filmar O Povo Brasileiro, série televisiva em dez capítulos baseada no livro do antropólogo Darcy Ribeiro. ''''Será quase um programa de perguntas e respostas com filmes e desenhos que fazem parte do repertório das pessoas, além de imagens inusitadas para estimular a imaginação.'''' Uma delas é o cenário euclidiano e algo abstrato desenhado por Hélio Eichbauer em que se move o ator Matheus Nachtergaele, quase uma homenagem ao construtivismo russo do início do século 20.
Como não dá para sustentar um argumento só pelo conceito, Giannetti conta com a intervenção de Nachtergaele para ''''interpretá-los''''. Por vezes recorre a fábulas (especialmente a da cigarra e da formiga), histórias bíblicas e à poesia de Rilke para explicar por que tempo é dinheiro. O poeta de língua alemã nascido em Praga, como se sabe, aconselhou jovens aspirantes a retardar a estréia literária e resistir à tentação de produzir sem qualidade. A perseverança traria o saldo para esses jovens poetas, aconselhava Rilke, acompanhando o raciocínio de Baudelaire. Já a ganância e a pressa, como prova o célebre personagem Shylock, de O Mercador de Veneza, rende bem menos juros. Palavra de Shakespeare, outra figura notável evocada na série.
Do lado filosófico, no entanto, quem ganha em citações é o pensador austríaco Wittgenstein (1889-1951), grande influência na obra de Giannetti. ''''Ele provou que a filosofia é a batalha contra o enfeitiçamento da linguagem'''', observa, justificando o cuidado com a terminologia para poupar o espectador. O argumento de Wittgenstein, de que toda ação incorpora princípios econômicos, é desenvolvido por Giannetti em campos diversos: passa pela antropologia, biologia, teologia, física e chega ao meio ambiente no último programa da série, que traz como convidado o biólogo americano Edward Wilson.
Wilson é um entomologista especialista em formigas. Estuda o uso de feromônios para comunicação entre esses pequenos insetos. Antes dele pouca gente falava em biodiversidade. Alarmado com o desaparecimento de espécies no planeta, o biólogo puxa uma discussão sobre as relações promíscuas entre aceleração econômica e destruição ecológica. O elenco de convidados inclui ainda nomes de colegas biólogos como Fernando Reinach, um dos coordenadores do primeiro projeto genoma brasileiro, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, o filósofo e teólogo Mário Sérgio Portela e o psiquiatra Joel Birman, entre outros. Como se vê, os programas podem ser de curta duração, mas trazem longa reflexão sobre como a economia em expansão - que destrói o meio ambiente - nem sempre significa progresso. Os juros que vamos ter de pagar no futuro pela emissão presente de gases venenosos é incalculável.
Um programa comandado por um economista, que trata pouco de finanças e muito de filosofia, pode parecer insólito. Não quando a busca de correspondências e analogias faz com que Giannetti e Isa Ferraz inventem exemplos inauditos para traduzir, por exemplo, a economia de tempo. Até o grande violonista Turíbio Santos é convocado para tocar um prelúdio de Villa-Lobos e ilustrar como a miopia temporal representa uma armadilha. Tempo em música, como se sabe, é um componente fundamental, assim como também nas religiões, que prometem recompensas após a morte. Giannetti vai buscar nelas correspondentes analógicos para explicar que a cobrança de juros não é uma invenção de banqueiros. Muito antes do índice Dow Jones apavorar financistas com a idéia do inferno em Wall Street, o ser humano já sofria com a idéia de pagar juros altos demais pelos pecados que cometeu.
Bem, o perigo de esbarrar num discurso moralista é enorme e Giannetti evita a tentação de dar conselhos. Todos os programas terminam com uma pergunta. ''''É o avesso da auto-ajuda'''', garante o apresentador, um intelectual e professor de Cambridge que jamais se imaginou como ídolo popular. Não é lícito esperar que ele agora vire garoto-propaganda. Inspirado em Marx, o economista vai comentar o consumo excessivo e a alienação, combinação explosiva quando a ecologia e o futuro da humanidade estão em jogo. Giannetti, evoque-se, não é marxista. Inclina-se mais para o lado do economista americano Irving Fisher (1867-1947), que ficou milionário aplicando suas teorias econômicas e também faliu por causa delas no crash de 1929.
Ao contrário de Fisher, Giannetti não corre atrás de dinheiro, mas de paz. Escreveu O Valor do Amanhã na pequena cidade de Tiradentes e é para lá que pretende voltar quando a série terminar. Não pensa em se tornar celebridade instantânea. ''''O imediatismo acaba com o Brasil'''', diz, observando que somos fruto de três culturas que elegeram o presente como meta: a indígena, a africana e a ibérica. Já o futuro, conclui, ''''responde à força e à ousadia de nosso querer''''.
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