A força dos orixás e a abençoada Ligiana
Em temporada com convidados, revelação lança CD em palco intimista
Nos créditos do CD De Amor e Mar, que a revelação Ligiana lança em temporada a partir de hoje no Buchanan"s Lounge, chama atenção a quantidade de locais em que ele foi gravado: São Paulo, Brasília e Paris, num total de cinco estúdios. Depois de contar sua longa trajetória, a cantora dissolve a dúvida do repórter: "Foi um CD feito aos poucos, com muita luta." Não era o que parecia diante dos parceiros que abrilhantam seu "filhinho".
Hamilton de Holanda, Tom Zé, Philippe Baden Powell, Marcelo Pretto, Simone Sou... Como conquistou essa turma toda? A menina de vida cigana, meio paulista (de nascença) meio brasiliense (de vida e "orgulho") tem "muque", como diz. Mas também contou com a sorte e os acasos. "Sou o próprio Facebook em pessoa", brinca.
Ligiana começou como cantora barroca. Estudou durante dois anos em um conservatório na Holanda. Cansou do "sofrimento" e fugiu para a Itália. O drama clichê de tantos aventureiros fez Ligiana se arriscar nos bares. Mas, daí, Bach e as demais referências eruditas tiveram de dar lugar à música popular. E ela se descobriu. "Me dei conta que me sentia mais à vontade e mais feliz", diz.
Da Itália, Ligiana foi para Paris. E começou a levar a sério o envolvimento com o microfone e a composição. Fez doutorado em Musicologia e passou a fazer "shows mais interessantes". Ali, teve contato com brasileiros conceituados como Siba, Renato Braz e Chico Buarque. E conheceu mais world music e o underground. Até que um dia num café, em meio a algumas anotações com o amigo Fernando Cavaco, viu que era o momento de encarar o(s) estúdio(s). Cavaco se tornou produtor em parceria com Alfredo Bello. E o interesse de Ligiana pelas sonoridades acústicas resultou num trabalho bem apurado com forte diálogo com o samba e influências do jazz e do batuque da umbanda. "O samba é o chão desse trabalho", conceitua.
O repertório é apurado. Tem preciosidades de Cartola e Heitor dos Prazeres (Consideração) e Luiz Peixoto e José Maria de Abreu (Pandeiro do Brasil), passa pelo contemporâneo Philippe Baden Powell (Festa no Olhar, com Rodrigo Alzuguir) e desemboca na autoral Onda. "É só lado B", diz ela, que acrescentou Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua, de Sérgio Sampaio, com participação de Tom Zé, por uma relação com o passado.
Filha de Iemanjá com Xangô, a cigana, por ora, vive em São Paulo. Questionada sobre expectativas, Ligiana olha pela janela do café do Itaú Cultural e arremata, sem pretensões: " As coisas se desvirtuaram tanto na minha vida, que eu quero acolher esse momento. Gosto das surpresas da vida, de provocar o destino. Mas agora quero fazer shows".
Serviço
Ligiana. Buchanan"s Lounge by Ranieri (60 lug.). Alameda Lorena, 1.221, 3062-5504. 5.ª, 22 h. R$ 20. Até 22/10
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