A Hungria e o fascismo
Governo vem manifestando prazer em violar todos os princípios da União Europeia
Como se não bastassem os muitos problemas enfrentados por causa do desastre da zona do euro, eis que a União Europeia agora está com uma nova batata quente nas mãos. E grande. Um país inteiro. Trata-se da Hungria, que faz parte do bloco europeu e cujo primeiro-ministro, Viktor Orban, tem constantemente provocado Bruxelas.

Primeiro em seus discursos e, há alguns dias, por meio de novas leis, o governo de Orban, que representa a direita dura e autoritária da Hungria, vem manifestando um prazer doentio em violar espetacularmente todos os princípios da União Europeia, os quais todo o país que adere ao bloco deveria respeitar.
Há alguns dias, por exemplo, Orban organizou um controle implacável da mídia, desrespeitando a liberdade de imprensa, um dos dogmas sagrados da União Europeia. E, no primeiro dia do ano, entrou em vigor uma Constituição húngara que acaba com a independência do Judiciário, da Suprema Corte e do Banco Central.
Todos os poderes ficam nas mãos do partido do premiê, o Fidesz. Além disso, dispositivos distorcidos e opacos tornam quase impossível a destituição do primeiro-ministro. Em Bruxelas, reina a fúria. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, se disse "inquieta" com a democracia húngara.
A todos esses alertas, Orban responde com escárnio. Podemos perguntar como essa política antieuropeia e projetada por uma ala fascista é tolerada pela sociedade húngara. Duas respostas: a primeira é que Orban foi um "herói" da libertação do país do jugo da União Soviética. Ainda jovem e eloquente, aos 26 anos, ele teve a audácia de reivindicar a realização de eleições livres na Hungria. Desde então, mostrou-se uma figura talentosa. Seu partido é poderoso. Além do que, Orban é vice-presidente do PPE, o "clube" dos partidos conservadores europeus, que estão majoritariamente no poder na União Europeia.
A segunda resposta é mais inquietante. A Hungria jamais demonstrou uma grande paixão pela democracia. Ela apoiou os governos mais sórdidos da recente história europeia, o regime de Adolf Hitler, por exemplo. Essa tendência autoritária não deve ser esquecida. Prova disso é que, se o partido conservador de Orban detém dois terços das cadeiras do Parlamento, um outro, ainda mais extremista, o Jobbik, obteve 15% dos votos.
Esse partido, fascista para não dizer coisa pior, criou uma milícia paramilitar, a Guarda Húngara, que usa um uniforme inspirado nos fascistas de 1940 e tem multiplicado suas bravatas. Esses "iluminados" do Jobbik seriam responsáveis pelo assassinatos de ciganos. É verdade que Orban condenou essas mortes, mas a polícia acobertou a infâmia. Mesmo que o premiê tenha denunciado os assassinatos, ele humilha sistematicamente os ciganos, com o assentimento entusiasta do povo, tendo chegado a impor o trabalho obrigatório em canteiros de obras públicas, para eles tenham direito a benefícios sociais.
O governo, porém, tem um ponto frágil: a economia húngara está deteriorada. Acaba de ser inserida na categoria de "especulativa" pelas agências de classificação Moody's e Standard & Poor's. A Hungria tem a necessidade urgente de um crédito de 15 a 20 bilhões, que solicitou ao Banco Mundial e ao FMI.
Segundo notícias recentes, as duas instituições internacionais teriam interrompido os contatos com Budapeste em protesto contra a decisão de colocar o Banco Central húngaro sob tutela do Estado. Por quanto tempo? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
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