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A ideia: um muro ''contra a subversão''

Desde o início de 1961, soviéticos já falavam de 'anel de ferro' em torno de Berlim para conter fugas do Leste

01 de novembro de 2009 | 0h 00
Renata Miranda, ENVIADA ESPECIAL, BERLIM - O Estadao de S.Paulo

Era 1h11 quando a programação da rádio estatal da República Democrática da Alemanha (RDA, a então Alemanha Oriental) foi interrompida para um anúncio de última hora: "Os governos dos Estados do Pacto de Varsóvia apelaram ao Parlamento e aos líderes da RDA e sugeriram que eles garantissem que a subversão contra os países do bloco comunista fosse impedida e também que uma guarda de confiança fosse enviada para os arredores de Berlim Oriental." Depois de meses de especulação, o que muitos temiam acabara de ser confirmado: a fronteira que dividia a cidade seria fechada naquele domingo, 13 de agosto de 1961.

Naquele momento, a jovem Irmtraut Hollitzer, de 18 anos, visitava os dois irmãos mais velhos em Berlim Ocidental acompanhada do outro irmão caçula, de 13 anos. A família, que vivia em Leipzig, no leste, já vinha sofrendo com a divisão do país. O filho mais velho era perseguido pela Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, por seu engajamento em movimentos religiosos na cidade e havia sido expulso da RDA. O segundo filho foi um dos muitos habitantes do país que visitaram Berlim Ocidental para nunca mais voltar.

"Minha infância foi marcada pela perda", disse ao Estado Irmtraut, hoje com 66 anos. "Quando ficamos sabendo que a fronteira seria fechada, tive três horas para decidir se voltaria para o leste ou ficaria no oeste." Depois de muito discutir com os irmãos, ela decidiu voltar. "Meus pais não aguentariam ter todos os filhos afastados, seria uma separação ainda mais dolorosa." Ela e os irmãos só voltaram a se reencontrar 28 anos depois, após a queda do Muro.

KRUCHEV

A ideia de cercar a cidade já vinha sendo especulada havia meses em conversas reservadas entre os líderes Walter Ulbricht, do Partido Comunista Alemão, e Nikita Kruchev, da União Soviética. Documentos de uma reunião em 1º de agosto de 1961 mostram que a iniciativa de fechar a fronteira veio de Kruchev. Em carta ao embaixador soviético na Alemanha Oriental, Kruchev falava de um plano para "tirar proveito das tensões com o oeste e pôr um "anel de ferro" em volta de Berlim". O que começou como uma cerca de arame farpado transformou-se, em semanas, num muro de concreto, cuja extensão chegou a 156 quilômetros.

"Tanto Kruchev quanto Ulbricht temiam pela sobrevivência da RDA se o fluxo de refugiados pela fronteira aberta em Berlim não fosse interrompido", afirmou o pesquisador Bernd Schaefer, do Instituto Histórico Alemão. Na época, a fuga da população havia se tornado um dos principais problemas do governo da RDA.

Apenas em 1960, cerca de 200 mil alemães orientais trocaram as prateleiras vazias dos mercados do leste pelo conforto da Alemanha Ocidental. Antes de o muro ser erguido, pelo menos 3,5 milhões de pessoas deixaram o país. "Nos primeiros meses de 1961, o número de pessoas que deixava a RDA era tão alto que Ulbricht implorou pela permissão dos soviéticos para fechar a fronteira."

A decisão foi tomada em um momento complicado. Os americanos acabavam de eleger John F. Kennedy para a presidência, enquanto os soviéticos haviam lançado, quatro anos antes, o Sputnik - primeiro foguete a entrar em órbita. A Guerra Fria atingia seu auge, mas, mesmo assim, não houve reação dos EUA.

"Kennedy havia acabado de assumir e tentava resolver problemas mais sérios em Cuba", explicou Thomas Strelow, diretor do Centro de Formação Política de Helmstedt. "Como a integridade de Berlim Ocidental foi garantida, os EUA preferiram evitar o conflito, que poderia desencadear uma 3ª Guerra."

Por 28 anos, o muro dividiu não apenas o país, mas também inúmeras famílias, como a de Irmtraut. "O Muro não piorou a nossa situação na RDA porque a vida lá já era ruim, mas nunca imaginamos que ele ficaria tanto tempo de pé", disse.

Vinte anos depois, ela comemora a liberdade que recuperou com o fim do regime comunista. "Foi como se tivesse ganhado uma segunda vida", disse. "Hoje em dia o passado da RDA está ficando cada vez mais nostálgico e nosso dever é lembrar que vivíamos em uma ditadura. Não despejo nenhuma lágrima pelo fim da RDA."


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