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A morte de um guardião da história

Sua rara coleção Brasiliana é a mais completa reunião de livros e documentos sobre a formação do País

01 de março de 2010 | 0h 00
Antonio Gonçalves Filho - O Estadao de S.Paulo

ALEGRIA - Mindlin conversa com crianças sobre livros e leitura em Livraria de São Paulo, em outubro de 2007


O ex-libris de José Mindlin, selo pessoal que o bibliófilo colocou em sua coleção de livros raros, não poderia identificar melhor quem foi o empresário, intelectual e acadêmico morto ontem, em São Paulo: "Je ne fait rien san gayeté" (Não faço nada sem alegria). De fato, quem teve o privilégio de conhecer e conviver com Mindlin sabe que caiu bem na vida do maior colecionador de livros do Brasil a escolha dessa máxima de Montaigne, retirada de seus Ensaios (do qual sua biblioteca tem um raríssimo exemplar, de 1588, que pertenceu ao crítico Saint-Beuve).

Talvez a única coisa que fez sem alegria foi deixar este mundo ontem sem ver concluído o prédio da Brasiliana USP, projeto acadêmico da Universidade de São Paulo que reúne a maior coleção de livros e documentos sobre o Brasil num edifício de 20 mil metros quadrados da Cidade Universitária sob a responsabilidade da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, órgão da Pró-reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP.

Sonho maior do bibliófilo, a coleção Brasiliana, composta por 17 mil títulos (ou 40 mil volumes) de literatura e manuscritos históricos doados pelo colecionador - incluindo outra Brasiliana herdada por ele, a do amigo e também bibliófilo Rubens Borba de Moraes - é o maior legado deixado por Mindlin além da herança ética que o Brasil recebe desse empresário, jornalista, ex-secretário de Cultura de São Paulo e membro das academias Brasileira e Paulista de Letras.

Desde adolescente avesso ao autoritarismo, Mindlin começou sua carreira como jornalista (mais informações nesta pág.), driblando a censura durante a Revolução de 1930. Outro exemplo de sua conduta ética foi o pedido de demissão do cargo de secretário de Cultura do governo Paulo Egydio quando o jornalista Vladimir Herzog foi morto pela ditadura militar, em outubro de 1975. Naquela época, espalhou-se o boato de que Mindlin era agente da KGB, o terrível serviço secreto soviético, com o objetivo de atingir tanto a TV Cultura, onde Herzog trabalhava, como o empresário.

Posteriormente, ao ser convidado pelo governo civil de Fernando Collor para ocupar o cargo de ministro da Fazenda, Mindlin, traumatizado com cargos públicos, declinou da oferta, ocupando-se de sua biblioteca de 40 mil títulos, que manteve por mais de sete décadas com a ajuda de sua mulher, Guita, e após a morte desta, em 2006, por mais quatro anos até ficar doente. Instalada em sua casa no Brooklin, na qual morou por mais de 60 anos, a biblioteca era seu grande orgulho. Nela repousam raridades como a primeira edição de Os Lusíadas, de 1572, um original do padre Antonio Vieira, os originais de Grandes Sertões, de Guimarães Rosa, corrigidos à mão pelo autor, além do primeiro livro que Mindlin comprou num sebo quando tinha apenas 13 anos de idade, Discurso sobre a História Universal, escrito em 1740 pelo bispo francês Jacob Bossuet.

Outra preciosidade é o primeiro livro em que o Brasil é mencionado num relato de viagens de Fracanzano da Montalbodo, de 1507, que fala da viagem de Pedro Álvares Cabral. Oito décadas de colecionismo resultaram num acervo de 40 mil livros que se juntaram ao exemplar raro de Bossuet, muitos deles disponíveis para consulta pública na Brasiliana Digital, a biblioteca virtual desenvolvida com o acervo doado pelo empresário à USP, em 2006.

Mindlin não colecionava livros raros por fetiche. Queria dividir o prazer da leitura com milhares de pessoas. Mesmo como empresário, que transformou a Metal Leve de uma pequena fábrica de pistões, nos anos 1950, numa empresa multinacional gigantesca do setor de autopeças - com representação nos EUA -, Mindlin buscou o ideal de uma gestão democrática em que os operários pudessem ter voz ativa nas discussões sobre seu destino. Com a globalização, a Metal Leve não sobreviveu ao assédio do capital estrangeiro e, em 1996, foi comprada por sua maior concorrente, a alemã Mahle.

O empresário, então com 82 anos, mais da metade dedicados à Metal Leve, não se aposentou, participando dos conselhos de administração de grupos ou de instituições como a Sociedade de Cultura Artística, da qual seu pai foi um dos fundadores - Mindlin foi peça fundamental na campanha pela reconstrução do seu teatro, que pegou fogo em 2008 e será reinaugurado em 2012.

Filho de um dentista judeu de origem russa, Ephim Mindlin, apaixonado por música e pintura, Mindlin herdou a paixão pela cultura do pai, que costumava receber em casa escritores como Mário de Andrade. Esse contato próximo com grandes estudiosos dos problemas brasileiros o transformou em farejador de raridades ao topar, ainda adolescente, em Paris, com o clássico História do Brasil, a narrativa de frei Vicente de Salvador, de 1627, que o fez se interessar pelo passado do País. Desde então, obcecado pela ideia de construir a maior biblioteca dedicada a estudos brasileiros, aproveitava todo tempo livre em sua viagens internacionais para garimpar títulos que nem a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro sonhou em ter no acervo. Seu sacrifício pessoal rendeu ótimos títulos publicados com a ajuda de sua biblioteca, entre eles os volumes da História da Vida Privada no Brasil, cujo conteúdo foi pesquisado em sua casa do Brooklin, frequentada pelos maiores intelectuais do País.

Mecenas, Mindlin, um dos articuladores da Fundação Vitae, que concedia bolsas para a realização de projetos culturais, publicou livros de grandes amigos poetas, como Carlos Drummond de Andrade, e artistas visuais como a gravadora Renina Katz, de quem patrocinou o livro Romanceiro da Inconfidência, com ilustrações suas para a principal obra poética de Cecília Meireles. Seu acervo de obras em papel tem peças raras de artistas como Goeldi, Lescoschek, Lívio Abramo e Iberê Camargo. Modesto, o premiado Mindlin, que dirigiu o Masp e ganhou, entre outros, o troféu Juca Pato de intelectual do ano, em 1988, costumava dizer que essa escolha se devia mais à mulher Guita, com quem teve 70 anos de vida em comum e cuja paixão pelos livros a levou a aprender encadernação e fundar, em 1988, a Associação Brasileira de Encadernação e Restauro para ajudar o marido a conservar sua biblioteca - ela encadernou o primeiro exemplar (de 1810) da primeira edição brasileira de Marília de Dirceu, obra do poeta inconfidente Thomaz Antônio Gonzaga.

O negócio de Mindlin mesmo era a leitura, hábito que, infelizmente, foi obrigado a abandonar nos últimos anos por problemas de saúde. Sem visão, passou a convidar amigos e jovens universitários para ler em sua biblioteca, disseminando também o gosto pela leitura entre os empregados de sua casa e os enfermeiros que o assistiram nos últimos meses. Antes que seus olhos enfraquecessem, ele leu, porém, mais de cinco vezes sua obra preferida, os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, da qual guardava uma raríssima primeira edição francesa. Depois de Proust, Balzac ocupou sua imaginação por mais tempo. Em suas inúmeras visitas ao órgão do Banco do Brasil responsável pelas importações, o empresário da Metal Leve, obrigado a longas horas de espera nos corredores, devorou quase toda A Comédia Humana.

Nascido em São Paulo, em 1914, Mindlin estudou Direito na USP e fez cursos de extensão universitária na Universidade de Columbia, em Nova York. Aos 32 anos, financiado por um empresário, conseguiu um sócio e fundou a livraria Parthenon, em São Paulo, especializada em livros raros. A guerra havia acabado há um ano e famílias europeias descapitalizadas se desfaziam de seu patrimônio artístico e literário. Foi assim que Mindlin trouxe para o Brasil muitas raridades que colocou à venda na Parthenon, sempre alertando o comprador que poderia procurá-lo no futuro, caso quisesse se desfazer do livro. O conflito entre vendedor e colecionador cresceu com o tempo. Mindlin não resistiu e foi atrás de todos as obras raras vendidas, recomprando-as para sua biblioteca particular quando virou empresário.

Foi quando vendeu a Metal Leve, dirigida por ele durante 46 anos, que o empresário pensou no futuro de sua biblioteca. Inspirado no modelo da John Carter Brown Library, de Providence (EUA), que começou como coleção particular e hoje é uma das maiores do mundo em documentos raros sobre a América, Mindlin, que integrava o conselho da biblioteca, pensou em fazer um acordo com a USP para transferir seu acervo, resistindo às ofertas de universidades norte-americanas para vender a Brasiliana, que finalmente ficará na universidade paulista desde que o prédio que a abrigue fique pronto até 2012, condição contratual para a doação. Parte dessa história está contada no livro Memórias Esparsas de uma Biblioteca, um dos volumes que Mindlin dedicou à maior coleção privada do Brasil - os outros são Uma Vida entre Livros e Destaques da Biblioteca Indisciplinada de Guita e José Mindlin.

Sempre procurado por pesquisadores brasileiros e estrangeiros atrás de suas raridades bibliográficas, Mindlin, um cidadão do mundo que dominava seis línguas, foi um dos primeiros empresários a atravessar a Cortina de Ferro durante a Guerra Fria, tentando aproximar o Brasil de países como a extinta União Soviética. Teve papel fundamental no processo de redemocratização do País ao assinar, durante a ditadura, um manifesto pela abertura política junto a outros oito empresários.



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