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''A Polícia Militar deve vir para o seu tempo''

Blogueiro desde 2006, Duarte incentiva as novas tecnologias, mas também enfrenta oposição no mundo 2.0

01 de novembro de 2009 | 0h 00
Tatiana de Mello Dias - O Estadao de S.Paulo

Entrevista
Cel. Mário Sérgio Duarte: comandante da PM do Rio


"Caveira", ex-comandante do Bope, o coronel Mário Sérgio Brito Duarte assumiu o comando da Polícia Militar do Rio em uma transição saudada pelos policiais blogueiros. Ele mantém até hoje o blog Segurança Pública - Ideias e Ações e o Blog do 01. Ambos ultimamente com postagens escassas. Direto do quartel-general, no Rio, Duarte falou ao Estado sobre a blogosfera.

Por que criar um blog?

Eu vi que os discursos de segurança pública estavam sendo apropriados por cientistas de humanidades. Antropólogos, sociólogos, cientistas políticos, esses eram os chamados "especialistas em segurança". Aqueles que não apenas faziam segurança, mas também pensavam segurança, eram tratados somente como "operadores do sistema". Eu entendi que deveria falar sobre segurança a partir das minhas vivências.

Há uma comunicação entre os blogueiros?

No primeiro momento, foi um felicitando o outro, por estar se permitindo discutir. Há uma crença de que é proibido falar, o militar não fala, ele apenas cumpre ordens, presta continência. Esse é um conceito errado da nossa profissão. Todo mundo pode falar, pode dizer, expor o que pensa. Isso não fere a disciplina, não traz problemas para a instituição.

Você lê algum blog?

Hoje eu ando sem tempo e só leio o Praças da PMERJ (blog crítico que reivindica melhores condições de trabalho para as patentes mais baixas da PM). Fico sabendo das ansiedades e das necessidades da tropa muitas vezes pelo blog.

O blog reforça a autoridade do comandante-geral?

Sim, porque ele está botando a cara, se exibindo. O que os nossos subordinados querem é alguém que não se esconda, que não esteja exercendo sua função apenas para ser autoridade, mas para ser servidor.

O que o comando pensa dos blogueiros anônimos?

Não vejo problema. Só acho que é perda de tempo um blog anônimo partir para as ofensas pessoais. Mas o anonimato não é um problema, mesmo a denúncia anônima não é um problema. A gente vê que em alguns momentos é apenas agressão pessoal, e aí o que fazemos é esquecer.

E sobre a divulgação dos boletins no Twitter?

Pois é, teve isso. Estavam divulgando o boletim da PM, e eu determinei que isso não esteja na internet. Jornalista pode ler, mas tem que ler aqui (no QG). Se eu coloco na internet, o bandido vai ler, as facções vão ler. Eu acho que a pessoa não estava honrando o seu compromisso de PM. Foi só isso. Não vou perseguir ninguém. Nem Twitter nem blog, senão estaria me contradizendo.

O que não pode ser dito em um blog ou no Twitter?

Há assuntos que são de natureza interna. Ordens de serviço e notas de instrução que não devem ser socializadas porque o crime não pode ter conhecimento. Mas há assuntos que devem ser passados para a população. A sociedade deve conhecer nossa vida, nossa rotina, nossa cultura. Nosso trabalho é na rua. Acho até necessário.

Você acha que essa abertura pode promover uma mudança?

Se eu não acreditasse que pode, não faria tudo isso. A polícia deve passar por um processo de modernização, vir para seu tempo. Acho que deve ser militar, mas há muitas particularidades que são acidentes. Um exemplo: o militar usa cobertura. Mas não necessariamente precisamos usar a todo momento. Será que o chapéu atrapalha ou ajuda? Toda vez que tem uma ocorrência o policial fica sem saber o que fazer com aquilo. Pode cair, amassar. Esse é o exemplo mais simples, para você entender que alguém pode dizer "mas a cobertura faz parte da essência"... Sobre isso nós temos de refletir.



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