''A política externa está se tornando questão partidária''
Reginaldo Nasser: professor de relações internacionais; para professor de relações internacionais, Brasil tem de enfrentar problemas e assumir responsabilidades
O Brasil age corretamente ao estreitar relações com o Irã do polêmico Mahmoud Ahmadinejad. Mas deve deixar claro que não concorda com a repressão aos movimentos democráticos naquele País. Essa é a opinião do analista Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais da PUC de São Paulo e da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap).
A decisão do presidente Lula de receber Mahmoud Ahmadinejad é boa ou ruim para o Brasil?
O Brasil, enquanto potência emergente, com credibilidade internacional, tem que enfrentar problemas e assumir responsabilidades. O Irã é um desses problemas. O Brasil não pode se recusar a estabelecer relações comerciais, políticas e diplomáticas com aquele país.
O encontro desvela algum tipo de simpatia entre os dois?
Não é um encontro circunstancial ou que denote simpatias entre presidentes. Faz parte de uma diretriz diplomática, que se estende a outros países. Recebemos há pouco o presidente israelense, Shimon Peres, e o ministro de Relações Exteriores daquele país. Também esteve aqui presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. Não vejo problema em receber o presidente do Irã - até porque o presidente Barack Obama já disse ver com bons olhos esse encontro. Isso não quer dizer que o Brasil deva concordar com os encaminhamentos da política interna iraniana, com a repressão aos movimentos democráticos e as intenções daquele país de produzir armas nucleares. Feitas essas ressalvas, o Brasil deve se relacionar com o Irã e até ajudá-lo a se integrar à comunidade internacional, em vez de isolá-lo.
Não estaria ocorrendo um exagerado dimensionamento do papel do Brasil como mediador no cenário internacional?
Acho errado colocar o Brasil no mesmo patamar das grandes potências. O Brasil nunca vai ser um mediador do porte dos Estados Unidos - até porque não tem recursos materiais para isso. Mas, por outro lado, também considero equivocado dizer que não tem qualquer importância. O Brasil tem um pé no mundo habitado pelas potências, mas também é bem recebido nesse outro mundo, do Irã, dos países da África, do Oriente Médio, Ásia. Isso o qualifica como um bom mediador.
Como o sr. vê as fortes críticas internas a Lula por esse encontro?
Insisto que não se deve confundir relações diplomáticas e políticas com aceitação automática do que ocorre nos países. É curioso ver que os autores das críticas mais duras não são tão enfáticos quando se trata da China, onde a minoria uigur tem sido vítima de massacres. No Brasil, a política externa está se tornando questão partidária. Não era assim. Identificam a visita como se fosse como se um ato pessoal do Lula.
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