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A reconstrução da realidade marca o romance Nada a Dizer

Nova obra de Elvira Vigna parte da pintura hiper-realista para rever valores

02 de março de 2010 | 0h 00
Ubiratan Brasil - O Estadao de S.Paulo

O prazer da leitura de Nada a Dizer é semelhante ao de se admirar um quadro hiper-realista, em que as aparências enganam. O novo romance de Elvira Vigna (Companhia das Letras, 168 páginas, R$ 38) conta uma história aparentemente corriqueira: sexagenário, Paulo inicia uma relação extraconjugal com N., mulher 20 anos mais nova. O adultério logo é descoberto pela esposa de Paulo, que assume o papel de narradora da trama. Ou seja, o caso é apresentado sob o ponto de vista da figura traída que, inconformada com as falsas negativas do marido, disseca todos os momentos a ponto de expor a verdade com uma tal nudez que a palavra se torna desnecessária ? não há mais o que se dizer.

"Eu pretendia algo quase estereotipado, em que a técnica da narração se comparasse ao hiper-realismo da pintura", conta Elvira, autora também de Coisas Que os Homens Não Entendem e Deixei Ele Lá e Vim. "Assim como vislumbra uma tela, o leitor/observador tem uma primeira impressão da trama que não lhe apresenta novidades, pois ali está algo que lhe é familiar, como uma cena de boteco. Ao fazer uma revisão, no entanto, acontece o mesmo quando diante de um quadro hiper-realista, em que as pinceladas perdem a hierarquia e o principal e o secundário têm a mesma importância."

Esse momento acontece quando a narradora descobre um e-mail de N. no computador de Paulo. Como o acesso ao texto exige uma senha, ela desconfia ? jamais Paulo havia imposto tal limitação. Interpelado, o marido nega qualquer envolvimento amoroso. A versão, porém, não convence a mulher, que inicia uma sacrificante filtragem do passado, revendo minúcias aparentemente banais e descobrindo nelas partículas acusadoras. Ou seja, a realidade ganha um novo formato. "A narradora se apropria da versão contada por Paulo e a devolve para ele, sem mudar uma linha, mas com todos os detalhes evidenciados que o deixam sem palavras."

A escritora exemplifica com a obra do pintor americano Edward Hooper (1882-1967) e seu universo de pessoas solitárias diante de portas e janelas, com o olhar desesperançado em um horizonte vazio. "Hooper parte de um recorte neutro ou até positivo da realidade e o transforma em algo perverso. Sua atitude é desestabilizadora."

Algo semelhante acontece à medida que progride a leitura de Nada a Dizer. Mentira e adultério tornam-se o tema principal do livro, assuntos que envenenam a relação de Paulo com sua mulher a ponto de descobrirem uma estranha liberdade afetiva e sexual na relação, algo tão poderoso que os leva ao fundo do poço, com tudo zerado. É chegado, portanto, o momento de um recomeço.

A trajetória de Paulo e a mulher representa ainda um balanço dos ideais de uma geração que foi jovem durante os anos 1960, época libertária que contrasta com as instáveis relações atuais. "A geração de hoje, ligada à internet, apresenta uma brutal mudança de paradigmas, pois comprova ter memória", comenta Elvira. "O fato de utilizarem a rede mundial constrói uma visão com resíduos históricos que vão se chocar (e destruir) essa fragmentação."