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''A Revolução Iraniana está agora em sua fase stalinista''

Para pensador, Irã vive estágio de autoritarismo semelhante ao de outros sistemas revolucionários, como a União Soviética

27 de junho de 2009 | 0h 00
Roberto Simon - O Estadao de S.Paulo

A atual tormenta política no Irã não se restringe a indivíduos como a manifestante Neda Agha Soltan, que teve sua morte registrada em vídeo, a líderes opositores como Mir Hossein Mousavi ou a homens do regime como o líder supremo, Ali Khamenei. Trata-se, sobretudo, de uma crise de "legitimidade da própria ideia de república islâmica". A opinião é do mais influente historiador vivo do Oriente Médio, o britânico catedrático da Universidade Princeton Bernard Lewis. Aos 93 anos, ele disse por telefone ao Estado que o Irã vive "um estágio de autoritarismo experimentado em outros sistemas revolucionários, como França e URSS". E alerta: "O problema não é só que o Irã quer a bomba, mas que é bem capaz de usá-la."

Como o senhor avalia os protestos no Irã? A combinação de uma república, de fisionomia ocidental, com uma teocracia islâmica está em crise?

Já faz muito tempo que a população iraniana está cada vez mais descontente com seu governo. Agora, isso está vindo à tona. Mas não é algo novo. Acho que há uma perda de legitimidade do regime. Tem-se a impressão de que não se trata de uma objeção restrita a indivíduos. Há um sério questionamento de toda a ideia da república teocrática que foi estabelecida pelos assim chamados "revolucionários" de 1979.

Há ameaça à existência do regime?

Sim, está começando a parecer um desafio à preservação do governo. Até agora, o regime tem demonstrado uma extraordinária durabilidade e convicção, seguindo seu rumo por 30 anos, apesar do que foi feito contra ele.

Analistas dizem que o regime de Ali Khamenei está se tornando uma típica ditadura do Oriente Médio, sem espaços de liberdade, como eleições.

Já é uma típica ditadura. As eleições são encenação. Elas não são o que esperamos que sejam.

O que a história persa pode nos dizer sobre a atual situação? O sr. escreveu, por exemplo, sobre a influência da religião maniqueísta na cultura iraniana. Como essas heranças se manifestam?

É preciso ter em mente que a maioria dos países da região que hoje chamamos de Oriente Médio é uma criação moderna. São invenções recentes, com suas fronteiras desenhadas por estadistas ocidentais. O Irã não é isso. Ele é uma nação antiga, um país e uma nação no sentido ocidental dessas duas palavras. O Irã existe há milênios. Há um sentimento real de nacionalidade e patriotismo entre os iranianos. É algo diferente da maior parte dos países da região, nos quais não há patriotismo. Eles só têm um nacionalismo simples ou uma identidade religiosa. O Irã é um país real, com forte senso de identidade nacional e histórica. É isso que vemos em exercício agora.

Como o sr. avalia ascensão iraniana no Oriente Médio?

Isso certamente é visto por muitos como uma ameaça, algo que se manifesta de várias maneiras. Alguns enxergam o problema de uma perspectiva nacional: o Irã não é árabe. Vizinhos árabes veem tentáculos iranianos se estendendo por uma rota ao norte, do Iraque à Síria, e por uma rota ao sul, em Gaza. Isso é tido como uma ameaça mortal. Esse é o aspecto nacional, pode-se chamá-lo ainda de imperialismo iraniano. Outros sentem-se ameaçados pelo que pode ser definido como o aspecto radical-revolucionário. É preciso lembrar que a maior parte dos regimes no Oriente Médio é de autocracias que governam povos mais ou menos descontentes. Os iranianos tiveram uma verdadeira revolução. O termo "revolução" é pouco usado por governos no Oriente Médio. Mas o que ocorreu no Irã foi uma verdadeira revolução - no mesmo sentido que usamos a palavra para nos referirmos à Revolução Francesa ou à Revolução Russa. Os revolucionários iranianos passaram pelos mesmos "cenários" dessas duas outras revoluções e estamos agora numa fase que pode ser chamada de stalinista ou napoleônica.

O sr. concorda com a ideia de que, caso o Irã alcance capacidade nuclear militar, isso iniciará uma nova era na região?

Um Irã nuclear mudará tudo. O perigo real não é apenas a alteração da situação atual, mas o fato de que os iranianos podem realmente usar a bomba. Lembre-se que o presidente Mahmoud Ahmadinejad e seu grupo têm o que pode ser definido como mentalidade apocalíptica. No islamismo, como no cristianismo e no judaísmo, há uma visão do fim dos tempos. Na versão cristã, Jesus retorna e derrota o anti-Cristo, estabelecendo o reino dos céus na Terra. A versão islâmica é a do Mahdi, descendente do Profeta Maomé, que vem ao mundo, enfrenta o Dadjdjal - equivalente ao anti-Cristo - e estabelece o reino dos céus na Terra. Pelos discursos de Mahmoud Ahmadinejad e de seu grupo, sabemos que eles acreditam que vivemos a fase apocalíptica dessa história. E essa é a luta entre fiéis e infiéis, muçulmanos e o restante do mundo. Certamente é uma mentalidade extremamente perigosa.

Isso significa que a dissuasão nuclear não se aplica ao caso iraniano?

Durante a Guerra Fria, americanos e soviéticos tinham armas nucleares. Mas eles eram dissuadidos de usá-las por causa do que veio a ser definido como "destruição mútua assegurada" (MAD, pela sigla em inglês). Eles sabiam que, se um usasse a bomba, o outro retaliaria e ambos seriam aniquilados. Para pessoas com mentalidade apocalíptica, destruição mútua assegurada não é uma forma de dissuasão, mas de indução. Esta é a mentalidade de um grupo significativo e isso torna a situação extremamente perigosa para o Oriente Médio e para o mundo inteiro.