A saga do demolidor do sonho da América
O escritor diz que os EUA enfrentam fase parecida com a Grande Depressão
O chamado Ciclo de Albany, segundo seu autor William Kennedy, não foi concebido como um painel épico sobre os EUA. Resultou de uma evolução. Ele começou com a saga da família Phelan e continua até hoje em seu livro inédito, e ainda sem título, sobre um integrante de outro núcleo familiar da série, os Daugherty. Na entrevista a seguir, Kennedy fala dos livros do ciclo, a serem publicados pela Cosac Naify, que lança nesta semana O Grande Jogo de Billy Phelan.
A trama de O Grande Jogo de Billy Phelan explora a máquina política em Albany nos anos 1930. Mesmo considerando que a situação mudou, as pressões que vem sofrendo o presidente Barack Obama pelos republicanos dá o que pensar. Como o senhor vê o futuro da democracia americana?
Acho que Obama tem feito um bom trabalho e respeitado seus compromissos políticos. Não me preocupo com isso. Em Albany, seja quem for que esteja no comando, permanece vivo o espírito de Dan O"Connell, que tomou o poder dos republicanos em 1921 e nunca deixou a cidade, mesmo após sua morte, em 1977. Albany nunca deixou de ser reduto dos democratas. Os republicanos tentam desestabilizar Obama, mas ele é um bom político. Não creio que a democracia corra riscos.
O senhor usou o democrata Daniel O"Connell como modelo do personagem Patsy McCall em O Grande Jogo de Billy Phelan. Sendo de uma família de homens públicos, o senhor ainda acredita em políticos?
Não tenho motivos para ser otimista. O governador David Paterson não vai ter sucesso nas eleições de agosto, pois é impopular (Paterson recebeu o pior índice de aprovação de um governador de Nova York). A jurista republicana Maureen O"Connor, dizem, tem mais chances. Enfim, vamos esperar para ver o que acontece. A situação atual, com o alto nível de desemprego e problemas que se agravam nos EUA, me faz lembrar muito os anos da Grande Depressão.
Quando escreveu o livro Legs, em 1975, contando a história do gângster Jack "Legs" Diamond durante a Depressão, o senhor buscou uma verossimilhança que depois não seria tão importante em sua ficção. A busca da precisão jornalística prejudica a liberdade literária?
Não acredito que o jornalismo contamine a literatura. Muitos escritores bons foram também excelentes jornalistas, como Hemingway. Trabalhei em jornais e revistas, escrevi roteiros para cinema e não vejo essas como atividades menores. Acho que um escritor tem apenas uma obrigação: escrever bem. Faulkner era um bom escritor e a maioria de seus livros se passa num condado inventado. Não creio, portanto, que a literatura precise de uma referência real para existir.
De fato, não. Seu amigo Hunter Thompson, o inventor do chamado jornalismo gonzo, era associado a uma espécie de delírio alcoólico que o levava a escrever. O senhor acredita que é preciso algum estimulante para enfrentar a insanidade do mundo contemporâneo?
(Rindo) Não. Hunter Thompson sempre foi louco sem a ajuda de drogas, embora tenha consumido todas elas. Era muito original como pessoa e escritor, totalmente outsider. F. Scott Fitzgerald, embora também bebesse, não era marginal. Ao contrário. Seu vício não o impediu de escrever livros memoráveis, embora no fim da vida o álcool tenha afetado sua literatura, como a de John Cheever, também dependente, cujos últimos trabalhos tiveram resenhas respeitosas, mas nada além disso. Os exemplos de viciados que tiveram a carreira abalada pelo álcool são inúmeros, de James Agee a Hemingway. O último ficou paranoico e serviu de fato como informante do FBI quando morava em Cuba durante a guerra, sendo monitorado pela agência pelo resto da vida. Entendo que há momentos difíceis na vida. Eu mesmo já pedi dinheiro emprestado a amigos. Mas sempre paguei minhas dívidas com os livros que escrevi, sem a ajuda de estimulantes.
O senhor começou a carreira como ficcionista em Porto Rico ao encontrar Saul Bellow, que o encorajou. Qual foi a grande lição que aprendeu com o Nobel de 1976?
Quando comecei a escrever. Bellow me criticava severamente. Mostrava como era repetitivo, como minha linguagem era imprecisa, enfim, como escrevia um monte de coisas desnecessárias. Lembro de um texto que o incomodou muito. Ele me perguntou: "Por que você não vai direto ao ponto"? Em seguida, decretou: "Isso está lamentável". Fiquei muito feliz quando mostrei a ele o texto reescrito e Bellow disse: "Agora, sim, está publicável". Seu conselho era invariavelmente o mesmo: escreva bastante e corte tudo depois, reescreva e corte novamente até que tenha uma espécie de revelação, uma sensação de liberdade que a escrita lhe dá. Bellow era um sábio. Chegou num momento de minha vida em que ninguém queria ler meu trabalho. Seu encorajamento foi fundamental.
Quando criança, o senhor foi coroinha numa igreja em Albany e, dizem, até pensou em se tornar padre. Qual o papel da religião e da doutrina católica em sua literatura?
Nunca pensei seriamente em me tornar padre. Tive três ou quatro amigos que são padres e uma ex-namorada que virou freira - e, acredite, não fui eu o responsável. A influência da Igreja na infância é grande, especialmente quando se é coroinha, mas não sou do tipo introvertido. Sempre fui gregário, vivia rodeado de amigos, indo a festas, jogando basquetebol. Jamais considerei a possibilidade de entrar num mosteiro. Cresci católico e acho que a religião surge naturalmente nos meus livros, como agora, nesta narrativa que estou escrevendo sobre Peter Daugherty, filho de Martin, o amigo de Billy Phelan no Ciclo de Albany. Não dá para ser diferente. Em todo caso, não é a religiosidade seu tema. Tenho grande respeito e reverência pela liturgia e pelas pessoas que se mantêm fiéis, mas meu livro toma outra direção. Fala de Cuba na época da Revolução. Cobri todo o movimento revolucionário cubano em 1957 para o Miami Herald.
A despeito de Ironweed ter sido recusado por várias editoras, o romance se tornou o mais popular de todos os sete que compõem o Ciclo de Albany. Por que Ironweed, em sua opinião, virou o favorito do público?
Não sei, de fato, porque Ironweed se tornou tão popular. Talvez por Francis Phelan ser um personagem que desperta simpatia ou identificação no leitor. Ele é inteligente, vítima das circunstâncias, um homem que deixa seu filho bebê cair no chão e carrega essa culpa. Fugir de Albany é sua resposta trágica. Como Francis foi um jogador de beisebol, viajar é uma condição natural para se livrar da vergonha. Ele é uma grande alma e as pessoas sentem isso. Não que todos gostem de Francis Phelan. O livro teve algumas resenhas desfavoráveis no lançamento. O que aconteceu depois é mais ou menos o que se passou com O Apanhador no Campo de Centeio, de Salinger, que, apesar das críticas, também se tornou um tremendo sucesso.
Por falar em J. D. Salinger, morto recentemente, o senhor parece fascinado pela família Glass criada por ele, a ponto de repetir sua estratégia de fazer com que personagens migrem de um livro para outro. Salinger foi seu modelo para o Ciclo de Albany?
Sim. Eu amo seus livros, especialmente Nove Histórias. Li tudo: Seymour, Franny e Zooey, etc. Essa migração dos personagens de um livro para outro é uma coisa mágica para o leitor, embora outros romancistas tenham feito isso antes dele, como Balzac. Nunca li Balzac completo, o que é uma vergonha, mas creio ser ele seu verdadeiro modelo. Lembro de ter lido muito Faulkner em Porto Rico, ficando intrigado com sua invenção de um condado para falar de fatos reais, mecanismo que não entendi na época. Descobri que essa ferramenta literária, no caso de Faulkner, correspondia mais ou menos à descoberta que fiz nos contos de James Joyce, que também me influenciou inconscientemente.
Em especial num dos livros do Ciclo de Albany, Velhos Esqueletos (Very Old Bones), que se passa num único dia, como no Ulisses, o romance de Joyce.
Sim, descobri que podia fazer também com que um personagem se movesse de um livro para outro, acompanhando sua evolução e revelando coisas novas sobre ele. Foi uma influência inconsciente.
Em Velhos Esqueletos, o senhor explora as obsessões de uma família de imigrantes irlandeses em Albany, sugerindo que essa é uma instituição problemática. As famílias de Albany são mais paranoicas?
(Rindo) Oh, não. Velhos Esqueletos é cheio de pessoas em crise, mas Albany não tem culpa nenhuma. Nem todas as famílias são disfuncionais.
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