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A senhora da pós-modernidade

Programação revê a trajetória da coreógrafa e bailarina americana Yvonne Rainer em filme, palestra, workshop e espetáculos

14 de julho de 2009 | 0h 00
Helena Katz - O Estadao de S.Paulo

Começa hoje, às 19 h, com a exibição do filme Lives of Performances, a semana Yvonne Rainer no Sesc Pinheiros. Amanhã, às 20 h, ocorre a Judson Lecture, uma conversa sobre o movimento que deu nascimento à dança contemporânea, nos anos 60, em Nova York, em uma igreja que entrou para a história, a Judson Church. Na sexta, sua companhia nos mostra alguns dos trabalhos que estrearam lá, em um programa intitulado Early Works, e, para dar o laço nesse pacote completo, no sábado, assistiremos a duas de suas produções recentes: Spiraling Down (2008) e R.o.S Indexical (2007).

A possibilidade de revermos as peças históricas de Yvonne Rainer deve ser creditada a Baryshnikov. Foi ele quem, em 2003, decidiu recuperar parte do que aconteceu na Judson Church a partir de 6 de julho de 1962, dia da primeira ação dos artistas que lá se reuniam. Além de Rainer, Baryshnikov convidou David Gordon, Steve Paxton, Simone Forti, Trisha Brown, Lucinda Childs e Deborah Hay para que remontassem aquelas produções para a sua companhia, a White Oak. O nome que deu ao programa, Past/Forward (Passado/Adiante) já diz o que pensa sobre a dança dessa época.

De todos eles, Yvonne é aquela que trocou a dança pelo cinema, em 1975 e, além de passar a fazer filmes sem narrativa convencional e voltados para questões como racismo, sexismo, homofobia, também escreveu muitos ensaios e livros, dentre os quais se destacam Yvonne Rainer, Work 1961-1973 (1974), The Films of Yvonne Rainer (1989), A Woman Who...(1999) e a sua autobiografia, fellings are facts. a life (2006). Quem estranhar sua afeição pela escrita, por ser coreógrafa, encontra uma explicação no prefácio que Peggy Phelan escreveu para A Woman Who. Diz ela, na pág. 3: "Reunido em um único todo, o trabalho de Rainer representa tanto uma disciplinada quanto uma liberatória prática da escrita - uma prática de grafar que circunscreve a coreografia, a filmografia e a autobiografia."

É mesmo necessário tentar entender a relação da disciplina com a liberdade para dimensionar a importância de Yvonne Rainer na dança do século 20. Imagine que ela, no inverno de 1965, publicou no Tulane Drama Review 10.2 um manifesto que viria a se tornar a bíblia da dança pós-moderna norte-americana. Em seu No Manifest (Não Manifesto), sem pontuação alguma, dizia: "NÃO ao espetáculo não ao virtuosismo não às transformações à mágica e ao faz de conta não ao glamour e à transcendência da imagem de estrela não ao heroico não ao anti-heroico não à imaginação refugo não ao envolvimento do performer ou espectador não ao estilo não ao campo não à sedução do espectador com truques do performer não à excentricidade não ao mover ou ser movido."

Depois disso, teria sido muito fácil associar a libertação que proclamava a um vale-tudo na dança. É justamente aí que entra a disciplina do seu fazer. Filha de uma judia polonesa e um anarquista italiano, Yvonne Rainer nasceu a 24 de novembro de 1934, em São Francisco. Há algo de poderoso nas suas coreografias, que continua a interessar aos artistas da dança de hoje, em todo o mundo, que, cada vez mais, estudam as suas mais de 40 obras.

Aos 15 anos, participava de reuniões anarquistas socialistas com o irmão. Aos 20, estudava teatro em São Francisco. Em 1957, mudou-se para Nova York com o pintor Al Held e logo se envolveu com a cena local das artes visuais, enquanto continuava suas aulas de teatro no Herbert Berghoff School. Lá, lhe disseram ser "excessivamente intelectual", conta nas págs. 49-50 da sua autobiografia.

Com 25 anos, passou a ser aluna da escola de Martha Graham em dedicação integral. Dividia a sua vida entre a escola e o Museu de Arte Moderna, onde assistia filmes. Começou a coreografar em 1960 e, dois anos depois, tornou-se uma das fundadoras do Judson Dance Theater. A partir de 1968, passou a usar filmes em suas criações e assumiu-se cineasta sete anos depois. Em 1997, o Film Society do Lincoln Center montou uma retrospectiva de sua filmografia.

De sua casa em Nova York, falou ao Estado por telefone. "Percebi que havia um espaço entre o que Hollywood estava fazendo e a produção experimental daquela época e decidi ocupá-lo. Não estava mais coreografando com tanta facilidade como antes e a dança que eu fazia não lidava com a vida emocional. Quis trabalhar a partir da minha situação particular de mulher sexualmente aculturada e comecei a escrever e a fazer filmes. Quando se tornou economicamente inviável continuar a fazer filmes, a dança novamente se mostrou uma possibilidade mais confortável."

Ela conta que foi praticamente por acaso que chegou ao estúdio de Cunningham, onde encontrou todos os que seriam seus parceiros na Judson Church. "Na verdade, no meu primeiro ano e meio em Nova York, continuava a estudar teatro, mas quando comecei a frequentar o estúdio de Cunningham, levada por um amigo, tudo mudou porque me apaixonei completamente pelas possibilidades que o movimento traz ao corpo." Hoje, ela diz que não tem mais as certezas das razões que a levaram a escrever a autobiografia: "Foi uma espécie de necessidade emocional de pensar sobre as mudanças culturais da geração dos anos 60, uma vontade de entender os meus pares, e de transformar tudo aquilo em fatos."

Não crê ser necessário fazer um manifesto para o século 21. "Há tantas formas híbridas de dança, hoje em dia, que não mais vejo sentido em se produzir algo tão extremo como o NO Manifest, nem algo que ocupe o lugar que ele ocupou em 1965. Naquela ocasião, havia uma necessidade de clarear o campo da dança para que se pudesse tomar uma outra direção. O que ainda faz sentido hoje é falar sobre expressividade, o que farei na Judson Lecture, amanhã."

Conta estar voltada para as questões políticas de gênero para, com elas, discutir a posição da mulher no mundo. Montou uma companhia com quatro mulheres de idades e formações inteiramente diferentes. "Elas têm 63, 55, 34 e 49 anos. Uma nunca estudou dança antes e outra veio do New York City Ballet e você vê exatamente isso no que fazem."

Agora que não mais parte de seu corpo como referência para as criações, Yvonne Rainer escolhe outras fontes. Em Spiraling Down (2008), que trata da memória, a companhia estudou muito a movimentação de Garrincha, Ronaldinho e Pelé. O futebol apareceu no trabalho de Farouk, um artista egípcio que desconstruiu a movimentação específica do futebol na Documenta. Yvonne usou também o texto de Haruqi Murakami sobre corrida e memória e o filme All of Me, aquele em que Steve Martin fica com o corpo dividido, tendo seu lado direito ocupado por Lili Tomlin.

Em R.O.S Indexical, modo como se refere à The Rite of Spring (A Sagração da Primavera), dedicaram-se a estudar Robin Williams. Reencenaram partes de seu show na Broadway, que tiraram de um DVD, aprenderam a coreografia que a dupla de especialistas Millicent Hodson e Kenneth Archer reconstruiu para o Joffrey Ballet, e pesquisaram um filme da BBC sobre a obra coreografada por Nijinsky em 1913, que havia causado enorme escândalo. Trata-se de uma releitura na forma de uma homenagem irônica de algumas cenas, como a do sacrifício da virgem, mas pretende ser também uma celebração. Os filmes mudos de Sarah Bernhardt também foram transformados em material de investigação pela companhia.

O filme Lives of Performers, que ela dirigiu na primavera de 1972, contando com a câmera de Babette Mangotte, tem 14 episódios, cada qual propondo uma abordagem diferente para a integração entre a realidade e a ficção dos seus papéis como diretora e coreógrafa e o dos performers. O primeiro edita um ensaio de Walk, She Said, acontecido no Whitney Museum, em Nova York, a 21 de abril de 1972. O segundo mostra fotografias do Grand Union Dream enquanto uma voz descreve as fotos e intimidades ficcionais dos retratados. A narrativa zigue-zagueia sempre, os performers leem ou improvisam textos, em sequências enigmáticas de uma discussão muito complexa. A certa altura, Valda Setterfield dança um solo, mas Fernando Torm, no papel de seu amante, não gosta. No final, uma série de poses retiradas de Lulu ou a Caixa de Pandora, de G.W. Pabst, simulam uma performance ''verdadeira''.

Serviço

Semana Yvonne Rainer. Hoje, 19 h, filme Lives of Performances. Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400