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Lúcia Guimarães
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A sombra de Salinger

Continuação do romance O Apanhador no Campo de Centeio põe em xeque os limites do direito do autor e da criação literária

04 de julho de 2009 | 0h 00
Lúcia Guimarães - O Estadao de S.Paulo

Eles foram chegando e se acomodando no fundo da mesa do café parisiense. Emma Bovary magérrima, fumando muito. Jean Valjean com as botas enlamaçadas. Elizabeth Bennet, exausta depois de cruzar o canal, não dava o menor sinal de orgulho ou preconceito. O Príncipe de Salina, Don Fabrizio Corbera, chegou furioso com o siciliano que anda faturando uma fortuna vendendo camisetas com o brasão do Leopardo, pelo site eBay. O grupo então discutiu a pauta da Sociedade de Proteção ao Personagem Literário e examinou um pedido de Holden Caulfield para ser admitido como sócio.

A cena, apesar de imaginária - protagonizada por personagens de Flaubert, Victor Hugo, Jane Austen, Lampedusa e Jerome David Salinger -, traria alguma justiça poética a certas criaturas de papel e letra que não conseguem dormir em paz. Quando Jorge Luis Borges disse que a narrativa literária repousava em não mais do que quatro temas, não estava sugerindo que aspirantes a romancistas se tornassem Macunaímas com preguiça de gestar seus próprios personagens. Mas, um momento: se é que Homero existiu, quem se levantaria em sua defesa, caso ele, denunciando apropriação de seu herói, reaparecesse para pedir a queima de todos os exemplares de Ulisses, de James Joyce?

A decisão de uma juíza federal de Nova York, Deborah Batts, tomada na última semana, ameaça trazer fama a um autor obscuro, residente em Gothenburg, na Suécia. Fredrik Colting, vulgo J.D. California, responde de lá, por e-mail, a perguntas que lhe faço declarando-se "absolutamente chocado". Explico. É fim de tarde em Manhattan e a tal juíza federal acaba de conceder a injunção pedida pelos advogados do escritor J. D. Salinger para impedir a publicação nos EUA de 60 Years Later: Coming Through the Rye, o romance em que o sueco, de 33 anos, decide continuar a saga do lendário Holden Caulfield, protagonista de A Catcher in the Rye (1951) - no Brasil, O Apanhador no Campo de Centeio, obra-chave da literatura norte-americana do século 20. O livro de Colting já saiu na Inglaterra, não foi contestado e parece ter atraído um silêncio crítico ensurdecedor.

O recluso e brigão Salinger - um nova-iorquino que há mais de 50 anos (hoje tem 90) vive escondido na cidadezinha de Cornish, North Hampshire - está surdo e se recupera de uma fratura na bacia. Por seus advogados, que se recusam a fazer declarações à imprensa, acusou Colting de escrever uma "sequência desautorizada", cópia pura e simples de sua obra mais conhecida. O novo livro põe em cena um certo Senhor C., criado por um autor "Salinger", aos 76 anos, fugindo de uma casa de repouso e vivendo nova aventura em Nova York, nos mesmos locais visitados pelo adolescente Caulfield.

"Qual é o próximo passo? Vão queimar livros nos Estados Unidos?", pergunta Colting, quando indago sobre a sua reação. O autor sueco diz que não quer parecer um jeca ingênuo, mas, em toda a sua vida, nunca conheceu alguém que tivesse sido processado. Ah, a virgindade de uma cultura não litigiosa! Aqui, se eu escorregar na calçada, sou capaz de receber não só a mão estendida de um estranho como também seu cartão para o caso de querer processar a cidade a fim de obter indenização pelo tombo.

A juíza nova-iorquina alegou que o livro de Colting não é "paródia" nem "exame" do Apanhador; seria algo como "apropriação indébita". Contudo, o advogado Lloyd Jassin, especialista em copyright literário e coautor de The Copyright Permission and Libel Handbook, acha que a juíza foi longe demais. Ele suspeita que a decisão possa ser revertida no apelo que foi imediatamente apresentado pelos advogados de Fredrik Colting. "A decisão foi prematura", diz Jassin. "A juíza não é crítica literária; o caso devia ter ido a julgamento." Ele explica que, num tribunal, o conceito de fair use, a citação razoável de uma obra, teria sido testado. "A decisão reflete a ideia de que a prevenção é melhor do que a cura", ele continua. "No entanto, onde está a evidência de que o livro de Colting causaria ?dano irreparável? a Salinger?" Jassin argumenta que O Apanhador é uma obra estabelecida: "Com todo respeito e admiração que tenho por Salinger, é difícil acreditar que ele esteja escrevendo sua própria sequência da narrativa do personagem. As vendas do romance original seriam afetadas?" O advogado lamenta que uma questão de "controle criativo" - já que Salinger não estava reclamando royalties da possível venda da obra de Colting - tenha prevalecido sobre o conceito de copyright.

Fredrik Colting revela ao Estado que leu O Apanhador pela primeira vez aos 15 anos, gostou muito, mas diz que nunca foi seu livro favorito. "Acho que é um Frankenstein moderno, na medida em que o personagem se torna maior do que o criador. Eu penso no Holden como um rebelde mas, às vezes, também penso: o que há de extraordinário num adolescente mimado de 16 anos?" Além de não ser jeca, o sueco não parece afligido por qualquer tipo de insegurança. "Acho que o meu livro tem uma história mais criativa e original do que a do Apanhador", avalia. Entretanto, ao fim de sua análise, Colting conclui que O Apanhador "é um grande romance!" O sueco nega que tenha sido movido por interesses comerciais: "Dei meu corpo e alma para este projeto", reclama. Ele lamenta que J.D. Salinger não tenha lido seu romance e considera a ação legal o resultado da infantilidade de advogados.

Pergunto se ele havia lido a paródia O Apanhador na Casa de Repouso, do escritor Teddy Wayne, publicada pela revista literária McSweeney?s em abril de 2008. Colting responde - e acredito na sua sinceridade - que não sabe do que estou falando, nunca ouviu falar da paródia de Wayne. Teddy Wayne, que está para lançar seu primeiro romance, escreveu um artigo muito engraçado no Huffington Post, um jornal da web, acusando Fredrik Colting de plagiar sua paródia, embora acredite que possa ser apenas coincidência. Em O Apanhador na Casa de Repouso, Wayne também dá à luz um Holden Caulfield que foge pela cidade, mas é recapturado e obrigado a assistir à premiação dos Emmys para a TV diurna (a programação dominada por telenovelas nos EUA), uma praga para ele comparável aos reality shows.

No texto do Huffington Post, em que usa uma linguagem semelhante à de Salinger para xingar Fredrik Colting, Teddy Wayne diz que não foi processado por seu Caulfield reencarnado porque "ninguém lê nada online". Quando telefono para a casa de Wayne, ele reage com humor ao que se pode revelar um plágio descarado. Seu agente acaba de lhe avisar que um episódio recente da famosa série de TV CSI copia, com detalhes, sua narrativa Sindergarten, publicada na revista Radar, em 2007. A história segue adolescentes de uma escola particular de Nova York em suas experiências com drogas. Os detalhes da trama são tão semelhantes que Wayne pode produzir não uma paródia, mas uma queixa judicial para valer. Ele lembra, contudo, descontraído, que a prática de usar personagens conhecidos para exercitar a imaginação literária amadora é estimulada em sites como fanfiction.net, no qual fãs e aspirantes se encontram para conversar e fazer postings de ficção que não serão comercializados como obras originais.

Agora, imagine se Pedrinho reaparecesse aos 90 anos, na varanda de um parque de safári que tivesse fundado com a herança que recebera de Dona Benta... E lá, entre outros personagens, surgisse o neto do rinoceronte Quindim, tristonho, envelhecendo numa jaula, alheio às câmeras dos turistas. O que aconteceria? Alguns personagens não nasceram para envelhecer. Assim como as leis de copyright não foram criadas para serem simples escudos de proprietários de direitos autorais.