A vida dos deserdados,por Orwell
Em A Caminho de Wigan Pier, dia 11 nas livrarias, ele fala dos mineiros ingleses
Mais conhecido pelo distópico 1984 (escrito em 1949) e pelo satírico A Revolução dos Bichos (1945), ambos manifestos ficcionais contra regimes totalitários, o escritor inglês George Orwell, desafiado pelo escritor e editor inglês socialista Victor Gollancz (1893-1967), passou dois meses, em 1936, nos condados de Lancashire e Yorkshire, visitando lugares como Wigan, Barnsley e Sheffield. Antigo reduto dos celtas, essas três cidades inglesas, durante a Revolução Industrial, conheceram uma dramática expansão - e, consequentemente, um aumento significativo no número de bebês, filhos de mineiros esfomeados cuja condição miserável é descrita em A Caminho de Wigan Pier (Companhia das Letras, tradução de Isa Mara Lando, 288 págs., R$ 46). Orwell foi investigar as condições de vida da classe trabalhadora do Norte da Inglaterra pouco antes de partir para a Espanha, onde lutou contra Franco junto aos companheiros do Partido Operário de Unificação Marxista.
O livro, originalmente publicado em 1937, é um relato honesto do que Orwell viu nesses dois meses. Honesto e crítico. O editor Gollancz não gostou da franqueza usada pelo escritor ao descrever o cheiro da classe trabalhadora. Incomodou-o a observação de Orwell - cujo nariz afilado era extremamente sensível -, de que os operários cheiravam mal (leia trecho nesta página). Seu olfato era tão apurado que as digressões por causa do mau cheiro se tornam comuns no livro. Elas revelam um desejo incontido de se afastar o mais rapidamente possível de casas onde as bacias cheias de água suja concorriam com pratos de comida empilhados na pia e penicos cheios no meio da sala. Culpa dos próprios moradores, sentenciou Orwell, mais uma vez, para escândalo de Gollancz, que ainda teve de suportar uma crítica ao socialismo de classe média na segunda parte do livro. Nela, seu autor deixa os deserdados para atacar intelectuais burgueses que, segundo ele, estavam fazendo o socialismo retroceder.
Antes que alguém o criticasse por isso, Orwell, no parte final de A Caminho de Wigan Pier, faz o papel do advogado do diabo, avisando que está argumentando a favor do socialismo, não contra. Criado numa família de posses e vestido por criados indianos, Orwell se fez passar por mendigo andarilho e pediu esmolas nas portas dos fundos para escrever Na Pior em Paris e Londres, primeiro de uma série de três livros de não-ficção publicados nos anos 1930 (os outros são Homenagem à Catalunha e A Caminho de Wigan Pier). A respeito da primeira experiência de travestismo social, ele conta que seu sotaque educado acabou eclipsado por suas roupas. "Eu estava sujo e maltrapilho, e isso era tudo que viam." Muito cedo, Orwell, um "esnobezinho odioso" aos 14 anos, descobriu que "o problema das classes sociais não se resolve fazendo amizade com mendigos". Nem com mineiros do Norte da Inglaterra. Foi para ele uma experiência traumática conviver com a imundície das casas dos trabalhadores nas minas de carvão de Wigan e os dentes podres dos operários de Lancashire - e, ainda mais traumático, beber de uma garrafa depois que cem deles passaram a boca pelo gargalo.
Orwell teve dificuldades para se livrar dos preconceitos de sua classe social. Ex-policial na Birmânia, ele passou, na juventude, cinco anos em contato com os "nativos" do país, representando os interesses do colonizador. Cedo concluiu que sua vocação para cão de guarda do imperialismo britânico era nula, embora defendesse, até sete anos de sua morte, em 1950, que os colonizados da Índia e da Birmânia eram incapazes de entender o significado da palavra autonomia. Isso explica, em parte, segundo a introdução do acadêmico Richard Hoggart, o movimento pendular em seus escritos. Hoggart diz que Orwell vai da raiva à solidariedade à classe trabalhadora, a despeito das palavras extremas. "Uma voz tipicamente inglesa", resume o professor, peça fundamental no julgamento do livro O Amante de Lady Chatterley (1928), de D.H. Lawrence, em 1960. Bem, não tão inglesa assim. A literatura de Orwell é marcada pela leitura atenta do naturalista Emile Zola, como lembra no posfácio o jornalista Mario Sergio Conti.
De qualquer modo, Orwell tinha profunda admiração por Lawrence, identificando-se com o argumento do escritor, que insistia na ideia de que a burguesia inglesa "está totalmente morta ou pelo menos castrada". Talvez esse negócio de quebrar as barreiras de classe, observa Orwell, não seja tão simples assim. O socialismo, já dizia o escritor em 1936, não tem mais cheiro de revolução. "Tem cheiro de excentricidade". E, numa situação como essa, estamos a um passo do fascismo, conclui o escritor.
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