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Absolutismo resiste na Suazilândia

Pequeno reino situado entre a África do Sul e Moçambique tem família real bilionária e população miserável

01 de julho de 2010 | 0h 00
- O Estado de S.Paulo

Contraste. Campo de futebol e mansão de uma das 13 mulheres do rei

A Revolução Francesa foi há 221 anos, mas o absolutismo ainda sobrevive num pequeno reino encravado entre a África do Sul e Moçambique. O rei Mswati III da Suazilândia nomeia o primeiro-ministro, os juízes e um terço dos deputados e senadores, e ainda tem poder de veto final sobre as leis aprovadas no Parlamento.  

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Partidos políticos são proibidos desde 1973, quando o rei Sobhuza II, pai de Mswati, anulou a Constituição deixada pelos ingleses ao concederem a independência da Suazilândia, em 1968. Os grupos de defesa da democracia foram proscritos e seus líderes, processados por alta traição e terrorismo. Só há uma emissora de TV e uma de rádio, ambas estatais.

Mswati III e sua extensa família controlam todos os negócios rentáveis do país. O rei é legalmente proprietário de todas as terras. Aos 38 anos, tem 13 mulheres (cada uma mora numa mansão), 23 filhos, 7 palácios, um jato particular de US$ 45 milhões e uma coleção de carros de luxo, num país em que 69% da população vive com menos de US$ 0,63 por dia. Do 1,3 milhão de suazis, 300 mil dependem da distribuição de comida da ONU para sobreviver. A Suazilândia tem a maior incidência de aids do mundo ? 26% ? e a menor expectativa de vida ? 31 anos.

Recentemente, o principal jornal do país, The Times of Swaziland, foi obrigado a pedir desculpas, em manchete de domingo, por ter publicado que o rei havia comprado um Rolls Royce e dois Mercedes-Benz para sua vasta frota.

Em matéria de família extensa, falta muito para Mswati alcançar o pai, que teve 110 mulheres e 250 filhos. Em relação à fortuna, Mswati tem progredido depressa. O reverendo Hanson Ngwenya, membro do Conselho de Igrejas da Suazilândia, lembra que, quando Sobhuza morreu, em 1982, tinha US$ 7,6 bilhões numa conta na Suíça. Menos de quatro anos depois, quando seu filho foi coroado, e recebeu a herança, teriam sido transferidos US$ 10 bilhões para uma conta sua na Arábia Saudita. Tanto num caso como noutro, os titulares das contas não eram os reis da Suazilândia, mas suas pessoas físicas, observa Ngwenya. Como quase tudo o que se refere à monarquia, a fronteira entre a fortuna pessoal do rei e o Tesouro nacional é nebulosa.

Dever de amar. Os súditos de Mswati III nunca chegaram perto de seus palácios e sabem muito pouco sobre o rei e sua família ? com exceção de que devem "amá-lo" acima de tudo. "Há a história geral, que todos devem saber, e a história real, que só a família (real) conhece", diz a professora de religião Patricia Mahlobo, de 39 anos. "Sabemos sobre o rei tanto quanto você", responderam um estudante universitário e dois profissionais formados, diante de perguntas como onde Mswati nasceu e mora. Os três nunca votaram: "Para quê?"

"O silêncio é parte da nossa cultura", descreve Nkululeko Twala, que trabalha num cassino online para clientes na África do Sul, onde o jogo é proibido. "Aprendemos na escola que temos de amar e respeitar o rei, assim como amamos nossos pais e respeitamos os mais velhos", explica Nqobizwe Shipanga, de 25 anos, que estuda relações públicas. Os trabalhos escolares incluem poesias de louvor ao rei, e ensina-se que seu poder emana de Deus, como ocorria com Luís XIV, o "rei sol" da França.

"Aqueles que não o amam devem guardar para si", sentencia Skhulile Ntshalintshali, de 24 anos, especialista em informática de uma empresa fabricante de brocas para mineração. "Se criticar o rei, você vai direto para a cadeia."

Mphandlane Shongwe, um ativista pró-democracia de 49 anos, afirma que já foi preso mais de 20 vezes. Formado em educação, só trabalhou seis meses como professor, antes de ser demitido e nunca mais contratado, por causa da atuação política. Atualmente, ele está envolvido na resistência de 20 mil moradores da favela de Logoba, na cidade de Matsapha (a 30 km da capital, Mbabane). Eles receberam ordem de desocupar a área, porque o rei quer construir ali um shopping center. Logoba faz divisa com terras do rei aparentemente improdutivas, mas ele prefere desapropriar a favela, sem oferecer indenização nem outra moradia para as famílias expulsas.

Bico. Regina Shongwe, de 58 anos, mora desde 1992 em Logoba. Viúva, ela tem 7 filhos adultos ? mães e pai solteiros ? e 8 netos, que vivem em barracões ao lado do seu. Apenas duas filhas, Futhi, de 28 anos, e Khanyisile, de 30, estão empregadas, numa fábrica de roupas do polo industrial de Matsapha, que lhes paga 900 emalangeni (US$ 120) por mês. Os rapazes vivem de bico. Tsepo, de 22 anos, ganha 40 emalangeni (US$ 5,33) por dia fazendo blocos de concreto ? quando aparece trabalho.

"Não sei o que vou fazer", diz Regina, que adquiriu o terreno pelo método tradicional africano, oferecendo uma vaca ao chefe local, além de ter tido de pagar propina a um intermediário. Ela diz que o enviado do príncipe Masitsela (tio do rei e administrador regional) veio acompanhado da polícia, fez perguntas e informou que a família precisa ir embora até dezembro.

O mestre de obra Thomas Dlamini, de 58 anos, mostra-se disposto a resistir: "Nasci aqui e ninguém vai me tirar daqui." Sua mãe, Tsembile Nkambule, de 86, nasceu a 30 km de distância, e se mudou para Logoba com o marido e um filho mais velho em 1951. "Fomos trazidos pelo rei Sobhuza II, para criar uma zona tampão aqui e não deixar que as indústrias crescessem para esse lado."

 

 

 

 



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