Ações tentam evitar trote violento
Universidades de SP aumentam fiscalização e usam telefone para denúncias; pais acompanham calouros no 1.º dia
Ao contrário do ano passado, quando trotes de algumas universidades paulistas viraram caso de polícia, os calouros de 2010 foram recebidos ontem de forma pacífica e sob o olhar atento dos pais.
As principais instituições de São Paulo recepcionaram os novatos com ações interativas, trotes solidários e festa com lama e tinta. Até agora, só um caso de trote em Fernandópolis chamou atenção pela violência - um calouro de Veterinária foi obrigado a beber álcool combustível.
Em unidades da Universidade de São Paulo (USP), onde as matrículas começaram ontem e terminam hoje, estudantes participaram dos trotes, alguns acompanhados dos pais. "Alguns chegam preocupados, mas depois veem que está todo mundo bem", diz Rafaela Carvalho, de 20 anos, da ECAtlética, organizadora do trote da Escola de Comunicação e Artes.
Somente os calouros que autorizavam eram pintados. "Quis que me pintassem, me matei para passar e agora quero curtir", afirma a caloura de Jornalismo Anna Carolina Silva, de 18 anos, com o rosto coberto de tintas vermelha e azul. Seu pai, o contabilista Dirceu Pereira, aprovou. "Acho legal porque tudo sem exagero é válido."
Os pais apoiaram também os trotes da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), onde os veteranos organizaram uma sala com vídeos sobre a atlética e a empresa júnior para eles esperarem os filhos. No fim da matrícula, o calouro encontrava duas placas: "sem trote" e "com trote", dando a opção de participar ou não das brincadeiras.
A recepção dos calouros da Escola Politécnica chamou a atenção pela organização. A estrutura contou com futebol de sabão, tendas, música eletrônica, sete seguranças, duas ambulâncias, banheiros químicos e um espaço reservado às famílias. Só cortou o cabelo, pintou o corpo e se jogou na lama quem quis. "Eu aprovo porque são brincadeiras tranquilas, para se entrosar com o pessoal", diz o médico Ricardo Bellemo, de 52 anos, pai de um calouro de Engenharia Química.
Apesar da comercialização de bebidas alcoólicas ser proibia desde 1998 por regulamentação interna da USP, havia venda de cerveja na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e no Instituto de Matemática. Na Poli, a reportagem viu pelo menos sete alunos com cerveja nas mãos e alguns veteranos com um barril, ao lado da festa.
No câmpus da USP em Ribeirão Preto, os novatos também encararam o trote. "Foi sossegado, só me pintaram e pediram para gritar e me ajoelhar", explicou Ana Claudia Scaraficci.
DISQUE TROTE
Para evitar situações de humilhação, a USP, a Unesp e a Unicamp divulgaram números de telefones para denúncias. Os alunos que se sentirem coagidos podem usar os números sem se identificar. De acordo com Eliana Corrêa Contiero, diretora do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp, qualquer abuso pode ser avisado (0xx11 3526-9004). A universidade promove trote solidário, com doação de sangue e arrecadação de alimento. A Unicamp, que começa as matrículas hoje, tem duas linhas (0xx19 3521-4738 e 0xx19 3521-4877). Na USP, o disque trote começou ontem (0800-012-10-90).
Na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), os alunos foram recebidos com o tradicional Trote Solidário, que promoveu mutirões e olimpíada entre calouros.MARIANA MANDELLI, BRÁS HENRIQUE E TATIANA FAVARO
MEMÓRIA
Fundação Municipal de Educação e Cultura (Funec), Santa Fé do Sul (SP): No ano passado, a estudante de Pedagogia Layanne da Silva foi acusada de queimar, com produtos químicos, quatro calouros. Uma das vítimas estava grávida. Hoje, a prática é proibida por lei municipal. A acusada foi expulsa e responde por lesão leve na Justiça. A faculdade promoveu campanha de conscientização
Universidade Estadual de Londrina (UEL): Em 2009, houve denúncias de excessos nos cursos de Agronomia, Direito e Relações Públicas. Calouros foram pisoteados e atacados com tinta, ovos e lama. Os processos estão em andamento. A instituição lança, hoje, campanha contra o trote violento
Universidade de Taubaté (Unitau): Abusos foram denunciados por 53 calouros de Medicina no ano passado. Nove veteranos receberam suspensão de 60 dias - três foram impedidos de se formar. Em dezembro, a Unitau aprovou a suspensão do trote e aboliu a palavra trote
Centro Universitário Anhanguera Educacional, Leme (SP): O calouro de Medicina Veterinária Bruno Ferreira relatou ter sido ferido com um chicote e obrigado a se jogar em uma lona com excrementos de animais em decomposição. Ele foi agredido fisicamente e acabou internado na Santa Casa do município por ingestão de bebida alcoólica. Dois foram expulsos e outros sete, suspensos
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