Afirmação da vontade de viver
Terra Vermelha, que abre a programação, mostra a luta dos índios pela sobrevivência física e cultural
Há uma cena de grande força no começo de Terra Vermelha. Vemos um barco de turistas contemplando um grupo de índios na margem do rio. Estes estão vestidos como se espera. A caráter. Pintados, arco e flecha na mão. Uma cena clichê? Nem tanto. O barco se afasta, enquanto os índios recebem seu dinheiro. Estavam posando para os turistas. Eram atores de uma vida em processo de dissolução, que eles ali recriavam, como num teatro ao ar livre, para desfrute dos olhares estrangeiros.
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O filme é Terra Vermelha, de Marco Bechis, e abre hoje a 32ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Foi apresentado no Festival de Veneza e lá causou forte impressão. Não apenas pelo filme em si, mas pela presença de índios brasileiros, que atuaram representando a si mesmos. Os índios falaram para os europeus e defenderam sua causa com grande dignidade. Qual é essa causa? Sabemos todos. Direito ao seu território, condição sem a qual não existe possibilidade de sobrevivência, nem física nem cultural. Na aldeia de que trata a obra de Bechis essa falta de condições para existência tem provocado reação dramática - duas meninas guarani-caiovás se suicidaram. Os índios sentem-se ilhados. Alguns, em desespero, matam-se. O conflito é o de sempre, com os fazendeiros, que invadem as terras demarcadas ou contestam essa demarcação.
Já nos acostumamos a essa luta sem trégua e desigual. Talvez a estranheza que passa pelo filme venha do olhar estrangeiro de Bechis. Ele é chileno de nascimento, criou-se na Argentina e hoje vive na Itália. O filme é italiano (80%) de capital, e italianos são dois dos atores, Claudio Santamaria e Chiara Caselli, mas isso não transforma o filme em uma dessas co-produções sem alma, sem cor nem cheiro, feitas para todos os países e para nenhum.
A partir do roteiro de Luis Bolognesi, passando pelas atuações dos índios e de Matheus Nachtergaele e Leonardo Medeiros - tudo conflui em uma obra de autenticidade muito grande. Pode-se, tranqüilamente, dizer que se trata de um filme brasileiro, aqui co-produzido pelos irmãos Gullane, embora tenha parcela minoritária do capital.
Porque é claro que não é o dinheiro que faz a alma de uma obra cinematográfica e sim o seu sentido, o espírito que a anima. E o que mais salta à vista neste projeto é o fato de ele ter sido construído com o único intuito de deixar aos índios no primeiro plano. Sim, porque esses nomes famosos - italianos e brasileiros - do elenco são todos coadjuvantes. Os protagonistas mesmo são os índios, o que já dá idéia do sentido político buscado por Marco Bechis, diretor que conhecemos por aqui por seu Garagem Olimpo, denúncia da tortura durante o regime militar argentino.
No mais, a história é quase corriqueira, uma espécie de protótipo do relacionamento habitual entre índios e brancos. De um lado, os indígenas. De outro, fazendeiros, aqui representados por Leonardo Medeiros. Há também o explorador, Dimas (Matheus Nachtergaele), dono de uma venda e agenciador de bóias-frias para o trabalho no corte da cana de açúcar. Mas não se trata, como se poderia pensar, de mais uma variante reunindo os "brancos malvados contra os índios bonzinhos". Como filme adulto, Terra Vermelha procura mostrar a complexidade da situação. E esta se expressa na constatação de que todos têm lá a sua razão. Todos têm de viver. Índios e brancos. Mas saber que todos têm seus motivos não deveria levar à paralisia ou ao relativismo total.
Essa questão se decide em algumas cenas fortes. Uma delas, por exemplo, é, talvez, aquela que melhor defina o sentido do filme. O fazendeiro enfrenta um índio, toma um punhado de terra no chão e diz que a sua família lá está há três gerações. Em resposta, o índio também pega um pouco de terra, e a coloca na boca. Come a terra. Enquanto um possui a terra, o outro a incorpora. A relação do fazendeiro com a terra é de exterioridade, de apropriação; a do outro é visceral. Sem a terra ele não é ninguém. Perde a identidade. Perde-se a si mesmo e por isso talvez seja preferível morrer.
Isso é o melhor do filme, para além de uma suposta travessia entre os dois mundos, metaforizada pelo amor entre um índio e a filha do fazendeiro. O essencial é o confronto entre o desejo de morrer, de sucumbir como cultura e etnia, e a vontade de viver. Desse centro, tenso, Terra Vermelha tira sua energia.
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