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Aglomerado de conchas no Guarujá é o mais antigo do País

Sambaqui, usado em rituais fúnebres por povos pré-históricos, tem cerca de 8 mil anos

17 de janeiro de 2009 | 0h 00
Rejane Lima, GUARUJÁ - O Estadao de S.Paulo

Um sítio arqueológico no Canal de Bertioga, Guarujá, revela que grupos pré-históricos habitaram o litoral paulista há mais tempo do que se imaginava. Batizado como Sambaqui do Monte Cabrão, o monte de conchas submerso no mangue prova que a população de caçadores-coletores-pescadores anterior aos índios tupis viveu na região no final da Era Glacial, há mais de 8 mil anos.

Sambaquis são montes de conchas empilhados em diferentes camadas pela ação do homem. Eram utilizados como locais sagrados e cemitérios. "Eles eram nômades e tinham muita preocupação com a morte, enfeitavam muito os mortos. Os sambaquis eram locais sagrados onde enterravam os indivíduos", diz Silvia Cristina Piedade, pesquisadora do Museu de Arqueologia da Universidade de São Paulo (USP) que estudou sambaquis de todo o País.

Estudiosos divergem sobre o final dessa pequena civilização. Algumas correntes defendem que foram mortos com a chegada dos tupiniquins e tupinambás ao litoral paulista, outros creem que tiveram a cultura incorporada. Diferentemente dos tupis, os construtores de sambaquis não plantavam ou faziam cerâmicas, mas eles também conheciam o fogo. "Eles cozinhavam os alimentos. Sabemos porque já encontramos ossos de animais queimados", explica Silvia. Entre seus utensílios, machados de pedra polida e espinhos de peixes utilizados para afiar as flechas são encontrados sem qualquer escavação no Sambaqui do Monte Cabrão, que tem cerca de 70 metros de comprimento por 50 metros de largura e 7 metros de altura.

"Foi uma surpresa que nos deixou muito felizes. Pensar que num lugar como esse tem tanta história", emociona-se Andréia Estrella. Especializada em monitoramento socioambiental, ela comandava a equipe de fiscalização da Secretaria Municipal do Meio Ambiente que realizou a descoberta. "Era um dia ensolarado e as conchas brilhavam. Eu já havia lido e visto fotos de sambaquis, daí pensei: será?"

O palpite de Andréia estava certo. O arqueólogo Manoel Mateus Gonzalez, doutor em Arqueologia coordenador do grupo da USP que estuda o sítio, já encontrou diversos machados e ossos no local, entre eles um fêmur inteiro.

Acertada a parceria com a USP, a prefeitura do Guarujá estuda um plano de manejo para a área. Um segundo sambaqui também foi encontrado pela equipe perto dali. Ambos já foram registrados como sítios arqueológicos no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Sambaqui Monte Cabrão e Sambaqui Largo do Candinho.

CANANEIA

Com cerca de 7,5 mil anos, o Sambaqui da Ilha do Cardoso, em Cananeia, no litoral sul de São Paulo, ainda está registrado como o mais antigo da costa brasileira, mas deve perder o título em breve. "Falta o teste de carbono 14 dos ossos retirados do local chegar dos EUA para sabermos a data exata, mas eu tenho certeza de que esse é o sambaqui mais antigo do Brasil", diz Gonzalez. O argumento do especialista é simples: o sambaqui do Guarujá está bem mais submerso que o de Cananeia, mesmo com a variação da maré.

Ambos são anteriores ao período denominado Ótimo Climático (de 5 mil a 6 mil anos passados), pós Era do Gelo, quando o nível oceânico teve sua elevação máxima, chegando a estar 5 metros acima do atual, inundando a área onde hoje está a Baixada Santista. Depois dessa fase, a temperatura do planeta foi se estabilizando e o mar, baixando. "Mas como os dois estão na costa de São Paulo, onde há basicamente o mesmo relevo e plataforma, dá para afirmar que o do Guarujá é mais antigo."




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