Amigas são as grandes aliciadoras
52% das garotas dizem que grupo próximo acenou com prostituição
Mais da metade das garotas envolvidas no mercado de exploração sexual infantil (52%) afirmou que trocar sexo por dinheiro foi uma possibilidade "apresentada" pelas amigas. O "aliciamento" feito pelo grupo foi mais presente, até mesmo, do que a figura do cafetão - citado em 38% dos casos estudados pelo Instituto WCF do Brasil. Foram 69 crianças e adolescentes que participaram do estudo, todos atendidos por instituições especializadas no acolhimento de vítimas infantis.
Para ganhar a confiança das meninas (66) e meninos (3) que ajudaram a compor o perfil das vítimas da exploração sexual, os pesquisadores acompanharam de perto os participantes. Antes de cada turno de entrevistas, era promovido um convívio de ao menos três semanas. "Foi um levantamento qualitativo e pioneiro também, já que a produção científica brasileira muitas vezes é de estudo de um caso. Nós reunimos 69", afirma o coordenador da pesquisa, Elder Cerqueira-Santos.
A influência das amigas para a entrada no ciclo da exploração sexual se dá mesmo com a presença de parentes na rotina (88% delas têm família). "No entanto, isso não anula a importância da figura do cafetão", pondera Cerqueira-Santos. "Temos de lembrar que estamos falando de um universo de meninas que é atendido por uma instituição. A presença do aliciador pode ser muito maior na rotina de crianças que nem mesmo conseguem chegar às unidades (acolhedoras)", afirma a coordenadora de Projetos do Instituto WCF, Anna Flora Werneck.
Mas é a própria informação de que são adolescentes atendidos por instituições que reforça a influência do grupo no contexto de exploração sexual infantil. Antes de chegarem às instituições, 60% deles diziam que ainda trocavam sexo por dinheiro. O índice, porém, sobe para 65% quando passam a frequentar as unidades de acolhimento e conhecem jovens que conseguem custear, por meio da atividade sexual, seus celulares. "Isso nos faz questionar o trabalho prestado por essas instituições. Reforça que a atuação preventiva seria muito mais influente, já que é tão difícil fazer com que elas saiam desse meio", opina a diretora executiva do instituto, Ana Maria Drummond.
Outro estudo divulgado ontem, pela Faculdade de Medicina da USP, também ressalta a importância de um olhar diferenciado das instituições que recebem crianças vítimas de exploração sexual. "A nossa ideia era apurar se existia correlação entre meninos desaparecidos e exploração sexual. Atestamos que a relação existe", afirmou Gilka Gattás, coordenadora do Programa Caminho de Volta da Faculdade. "Fizemos um cruzamento entre os boletins de ocorrência registrados sobre desaparecidos na região da Baixada Santista com os acolhidos em uma unidade de referência de crianças exploradas. Em 8% dos casos, os nomes apareciam nos dois bancos, informação desconhecida tanto pela instituição quanto pela polícia."
Para os especialistas, o olhar superficial que as crianças recebem é o que perpetua o ciclo da exploração sexual e colabora para que casos de desaparecimentos fiquem sem solução (40%). E não é um problema exclusivo do Brasil. "Encontramos a mesma relação (desaparecidos e explorados) nas pesquisas feitas nos EUA, Canadá e México", afirmou Richard Estes, do Departamento de Desenvolvimento Social da Universidade da Pensilvânia.
FRASES DE VÍTIMAS
Meninas de 16 anos
"Se não tiver um celular não é gente!"
"Eu ganho roupa, sapato, perfume... Coisas que eu não podia comprar antes. O que é que tem ganhar presente?"
"Assim: muita gente até já diz que eu sou prostituta.
Acho que sou, né?"
"É diferente, né? Tipo... eu não fui estuprada!"
Menina de 14 anos
"Eu ajudo lá em casa, compro minhas coisas, como na rua. Normal!"
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