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Aumenta interesse por doação de corpos para pesquisa médica

Sociedade Brasileira de Anatomia pretende realizar campanha de conscientização em 2009

06 de dezembro de 2008 | 0h 00
Alexandre Gonçalves e Emilio Sant?Anna - O Estadao de S.Paulo

Assim como a doação de órgãos, o consentimento para doar um corpo para pesquisas depende da família. Mesmo assim, a conscientização sobre a importância do ato para a formação médica vem fazendo com que mais pessoas manifestem e registrem em vida o desejo. Faltam dados nacionais, mas em algumas instituições já se percebe o aumento do interesse, que pode ser impulsionado a partir do próximo ano, quando a Sociedade Brasileira de Anatomia (SBA) deve lançar uma campanha nacional de estímulo às doações.

A regulamentação para a prática existe desde 1992 e é a mesma que normatizou o envio de corpos não reclamados aos cursos de Medicina. No prazo de 30 dias, as faculdades interessadas no cadáver não reclamado devem publicar - em dez dias alternados - a informação da existência e disponibilidade do corpo. A lei, dizem os médicos, colocou fim à desorganização que imperava no setor.

O presidente da SBA, Richard Halti Cabral, explica que o número de cadáveres não reclamados diminui a cada ano. "Provavelmente, porque diminui também o número de pessoas em situação de indigência ou melhoram os canais para avisar as famílias sobre a morte de parentes, mesmo quando estão distantes", aponta Cabral. "Para piorar, o número de faculdades de Medicina tem aumentado." Daí a necessidade de estimular a doação de corpos. Em média, um corpo permanece em laboratório por cinco anos.

Nos últimos anos, campanhas esporádicas e isoladas colaboraram para aumentar os números. No Paraná, a Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Estadual de Londrina (UEL) e Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) se uniram para criar, em 1999, uma comissão para cadastrar os doadores. Desde então, 40 pessoas registraram em cartório a vontade de deixar seus corpos para estudo e 30 já foram entregues à comissão. A iniciativa teve a parceria do Ministério Público Estadual. "Funciona como uma lista única que organiza as doações para as faculdades", explica o presidente da comissão José Geraldo Calomeno.

Em Brasília, a iniciativa partiu do próprio Ministério Público. Três das quatro instituições que têm cursos de Medicina na cidade recebem corpos (doados espontaneamente ou não reclamados) de acordo com lista única, dividida em três filas - doador adulto masculino, feminino e infantil.

De acordo com o promotor Diaulas Ribeiro, desde que o sistema foi criado nenhum dos três cursos de Medicina teve problemas de falta de cadáveres para as aulas. Até agora, 30 pessoas já manifestaram a vontade de deixar seus corpos para as pesquisas. "Aqui, as universidades não têm dificuldades, não existe falta de corpos para as aulas e não existe dinheiro nesse processo", afirma Ribeiro.

UTILIDADE

Diabética, a professora aposentada Fátima de Oliveira Rocha, de 60 anos, percebeu logo que seus órgãos dificilmente poderiam ser aproveitados após sua morte. Foi à internet e descobriu a possibilidade de doar seu corpo todo para a ciência. Resolveu então ir ao cartório e deixou lá registrada sua vontade. "Não vai ser a mesma coisa que doar meus órgãos, mas vai ser útil", diz.

A única dificuldade foi convencer uma das filhas. "Ela me perguntou onde iria chorar minha saudade, mas eu não vou estar mais aqui", afirma. "Sou espírita e esse é meu desejo."

O do professor de Anatomia da Unifesp Ricardo Smith é que mais pessoas se sintam à vontade para fazer o mesmo. Hoje, dois corpos doados ainda em vida já fazem parte de seu laboratório. Dedicado também a entender os vivos, Smith busca respostas para o que leva as pessoas a deixarem seus corpos para a ciência. "Os motivos podem ser curiosos e vão desde a religiosidade até o medo de ser enterrado vivo", explica.

Para d. Antônio Augusto Dias Duarte, médico e membro da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, a doação de corpos é um grande ato de generosidade. "Quando você doa seus órgãos beneficia algumas pessoas. Ao doar o corpo, beneficia toda a sociedade, pois contribui para a formação de bons médicos", argumenta d. Antônio.