Banco Mundial gerenciará fundo único para reconstrução do país
Objetivo é garantir aos doadores o controle do uso dos recursos pelo governo haitiano, visto como altamente corrupto
ENVIADA ESPECIAL
PORTO PRÍNCIPE
O engenheiro canadense-vietnamita Tran Trieu Quan desembarcou em Porto Príncipe, em 12 de janeiro, levando na bagagem um plano para a adoção no país do novo código de edificações, mais adequado para regiões atingidas por furacões e abalos sísmicos. Ele morreu pouco depois, quando fazia o check-in no Hotel Montana, destruído no terremoto que matou mais de 230 mil pessoas, entre elas três funcionários do Banco Mundial que contratara Quan.
Desde 2004, o Banco Mundial financia o governo do Haiti em projetos de redução de risco. Mas somente agora apresentou um plano para tornar o país menos vulnerável a um desastre como o do dia 12. "A tarefa é muito difícil em um país onde quase tudo falta: eletricidade, capital humano. A diáspora intelectual do Haiti é enorme", disse ao Estado, em Porto Príncipe, o especialista em gerenciamento de risco e desastres do Banco Mundial, Francis Ghesquiere.
Na conferência da ONU, ontem, em Nova York, decidiu-se que o Banco Mundial administrará o fundo multilateral para a reconstrução do Haiti. "Normalmente, transferimos dinheiro para o governo e acompanhamos os gastos", disse Ghesquiere. No entanto, no Haiti, a administração dos recursos será conjunta. O objetivo seria o controle do uso do dinheiro por um governo considerado altamente corrupto pela comunidade internacional. Pelo mesmo motivo, o banco opera o fundo multilateral também no Sudão.
O Banco Mundial anunciou, ainda, o perdão da dívida de U$ 39 milhões do Haiti e investimentos de U$ 479 milhões, além dos U$ 100 milhões anunciados em janeiro, dos quais U$ 15 milhões serão gastos diretamente pela instituição financeira na compra de equipamentos para o Banco Central haitiano.
Quando soube do tremor, Ghesquiere despachou uma equipe de Washington para Porto Príncipe para vasculhar os escombros do Ministério da Economia. Não estava em busca de sobreviventes, mas de um software. "Todas as informações financeiras e administrativas do Haiti estavam ali. As contas públicas, a folha de pagamento. Sem isso, o governo, o Banco Central e os bancos comerciais não funcionariam, os salários não voltariam a ser pagos", diz Ghesquiere. Duas semanas após a tragédia, segundo ele, os repasses da previdência foram restabelecidos e parte dos bancos privados voltou a operar, com limite de retirada de U$ 2,5 mil por conta. Ao lado de Afeganistão, Congo e Sudão, o Haiti está entre os mais miseráveis do mundo.
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