Bangu, para além dos clichês
Em Conexões Urbanas, canal pago Multishow consegue tratar de tema polêmico de forma objetiva

José Júnior em ação. Penitenciária mais famosa do Rio de Janeiro
Um preso desliza a navalha pelo pescoço de um homem, sentado tranquilamente enquanto o detento faz sua barba. A imagem se torna mais inquietante quando ficamos sabendo que pelo fio dessa navalha passam, literalmente, o pescoço do diretor do presídio, dos subsecretários e de tantos outros servidores e autoridades da prisão.
Estamos na Penitenciária Esmeraldino Bandeira, em Bangu, dentro do complexo penitenciário mais famoso do Rio, e a imagem, simbólica, resume a proposta da série Cidade Bangu, da nova temporada do programa Conexões Urbanas, conduzido por José Júnior, do AfroReggae, e dirigido por Rafael Dragaud, para o Multishow.
A série, contundente, com depoimentos surpreendentes de presos e autoridades, vai direto ao ponto. É possível, dentro de um sistema prisional em crise, no Brasil e no mundo todo, tido como ineficiente e brutal, dar uma segunda chance aos que passam por ali? É possível "confiar", a ponto de entregar seu próprio pescoço a um criminoso ou ex-presidiário?
Sim, aposta José Júnior, e os próprios gestores de Bangu ao mostrarem - contrastando com as imagens de rebeliões e presos encapuzados e ameaçadores, recorrentes na mídia - histórias de vidas cheias de sofrimento, mas também inteligência, potência e sensibilidade. Ouvir as razões, escutar simplesmente e conhecer quem são esses presos - isso muda radicalmente todos os clichês que construímos e que construíram para nós sobre facínoras, maníacos, monstros. Fora os que ainda consideram criminalidade "índole" e outros anacronismos que veem os presidiários como "irrecuperáveis" que mereceriam "apodrecer" na prisão.
São depoimentos impactantes. Fiquei hipnotizada ouvindo Miguel Alves da Silva, preso em Bangu 1 (com pena de cerca de 300 anos de prisão!!!) explicar por que se tornou o maior assaltante de Bancos da Ilha do Governador: "Porque pobreza, ignorância e vazio político me ofendiam muito." Miguel parece um personagem do conto O Cobrador, de Rubem Fonseca. Com uma lucidez e inteligência impressionantes, completa: "O Estado tem de humanizar as pessoas. Não dá mais só a tranca e o alimento! Quando o cara entra para o crime ele é um órfão. Vive na orfandade e quando vem para cadeia fica mais órfão ainda. Tem de ter educação e trabalho. Ocupar a mente e o corpo."
Fim da linha. O programa não busca romantizar criminosos nem aliviar os crimes efetivamente cometidos. Mas parte do pressuposto de que "nem todo preso é bandido", como diz Sauler Sakalen, secretário Adjunto de Unidades prisionais do Estado do Rio de Janeiro. Ou, mesmo que seja, ter entrado para o crime não é o "fim da linha", ou não deveria ser. Trata-se de uma circunstância, social ou pessoal. Esse é o produto da linha de montagem da repressão aos pobres e da criminalização da pobreza. Falta de opção, de condição, desespero.
Em qualquer hipótese, a prisão não pode ser vista como uma "fábrica de moer gente", punição social desmedida, pois mesmo a pior condição material ou subjetiva pode ser "revertida". Os presos não podem mais ser vistos como "mortos-vivos" em um exílio de onde saíram piores e mais periculosos.
Vendo toda a série Cidade Bangu fica claro que o produto das humilhações, maus tratos e das condições desumanas ou degradantes de algumas prisões do Brasil é só um: a produção de mais violência e mais crimes! A animalização e disciplinarização dos presos vai retornar contra a própria sociedade. Ou seja, não se trata de nenhuma "bondade" adicional fazer valer os "direitos humanos" nas prisões. O sadismo social contra presos e presidiários só alimenta o crime, enche as prisões e produz mais delinquência. Num ciclo que não se rompe.
A ressocialização desses presos passa, como em toda a sociedade, por educação, trabalho e condições para mudanças materiais e subjetivas, mudança de mentalidade, investimento no potencial de reinvenção dessas vidas. É esse o desafio na Cidade Bangu, um "complexo" com 19 unidades prisionais, 15 mil detentos e cerca de 30 mil pessoas circulando diariamente, como é dito.
As palavras que mais se ouvem nos três programas vindas dos presos é "oportunidade", "trabalho", "educação", falas sobre família e "afeto". Alguns projetos, sejam no âmbito nacional (Pronasci do governo federal) ou estadual (no caso do Rio de Janeiro), já vislumbram e experimentam algumas saídas.
Vagas. Penas alternativas, remissão da pena por dias trabalhados e estudos, projetos de empregabilidade, como o do próprio AfroReggae em parceria com empresas que aceitam ex-presidiários, escolas e fábricas-prisionais, ou a oportunidade para presos fazerem Enem e pleitearem vagas em universidades públicas.
Projetos bem recebidos pelos detentos, mas que ainda encontram resistência em parte da sociedade, que insiste na linguagem da repressão e punição. Essas propostas, ainda dentro do modelo disciplinar, abrem para projetos mais lúdicos e experimentais, pós-disciplinares, mobilizando outras forças que não simplesmente a "formatação" subjetiva dos presos.
A série dá visibilidade a uma outra prisão, uma outra "cidade" potencial em Bangu. Mais ainda existem dificuldades, faltam parceiros e há entraves para acolher os projetos vindos da sociedade para as prisões, uma luta antiga.
Mas, vendo longe, o Programa lança também propostas radicais, como a possibilidade de uma "anistia" para os presos, para certos crimes. Com acompanhamento e com todos os cuidados que fossem necessários. A proposta dá o tom da crença do coordenador do AfroReggae, José Júnior, numa mudança pra valer. De mentalidade. Que mobilizasse presos, agentes penitenciários, policia, gestores, governos, empresários e principalmente a sociedade.
Pois, hoje, ao sair da prisão 30% dos detentos acabam voltando ao crime e sendo presos novamente. Sem apoio da família, sem dinheiro, sem ocupação, sem conseguir mudar para outra cidade e começar uma vida nova. A situação dos outros 70% também é precária e instável devido ao preconceito contra ex-presidiários. "Se bater na porta vão me dar emprego? Não. Fui carimbado. Acabei para parte da sociedade", diz um dos entrevistados.
Adestrar. Em 2010 faz 35 anos que Michel Foucault escreveu Vigiar e Punir, o mais influente livro sobre o sistema disciplinar das prisões como um modelo de poder/adestramento e produção de subjetividades. Modelo que atravessou prisões, hospitais, escolas e produziu delinquentes, loucos, doentes, adestrados, disciplinados. É esse modelo que se esgotou!
Mas não precisamos invocar Foucault para entender a "complexidade" de Bangu. O programa Conexões Urbanas fala para todo mundo, gente comum, empresários, classe média, perifa, etc., e mostra, o modelo tradicional esgotou-se, a mudança começou e não tem volta!
Também é significativo que seja um grupo cultural como o AfroReggae e José Júnior que estejam à frente desses programas. Televisão-ação, TV-mobilização, que sai da pauta e cria uma outra pauta. Depois do impasse do sistema prisional e suas saídas, vai abordar a legalização das drogas, as gangues juvenis na América Latina, temas e questões de um presente urgente.
IVANA BENTES É PROFESSORA E DIRETORA DA ESCOLA DE COMUNICAÇÃO DA UFRJ
QUEM É
JOSÉ JÚNIOR
COORDENADOR EXECUTIVO DO AFROREGGAE
Para o carioca, o grupo cultural formado em 1993 é um legado de três movimentos: do Betinho, do tropicalismo e do Olodum. A ONG oferece atividades socioculturais a moradores de favela para afastá-los do tráfico.
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