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MARCOS CAETANO

Barbárie

04 de fevereiro de 2012 | 3h 05
MARCOS CAETANO - O Estado de S.Paulo

O excelente filme "Invictus", dirigido por Clint Eastwood, conta a história de como Nelson Mandela aproveitou a realização da Copa do Mundo de Rúgbi na África do Sul para aproximar as diferentes etnias do país, após décadas e mais décadas de Apartheid. Naquele país, até hoje o rúgbi é um esporte predominantemente praticado por brancos, enquanto o futebol é muito mais apaixonante entre os negros. No entanto, o carisma de Mandela e a surpreendente campanha dos Springbocks - a seleção nacional de rúgbi - na Copa do Mundo de 1995 acabaram unindo o país em torno de uma causa. Uma cena do filme mostra um segurança branco do presidente, dizendo para um colega negro: "O rúgbi é um esporte de bárbaros praticado por cavalheiros. O futebol é um esporte de cavalheiros praticado por bárbaros."

Além de infeliz e preconceituosa, a frase é mentirosa. Sim, porque a imensa maioria dos torcedores e praticantes de futebol é composta de gente tão correta quanto os que acompanham o rúgbi.

Conto isso para deixar claro que eu não considero o futebol um esporte de bárbaros ou mesmo um fator de desunião entre pessoas e povos - muito pelo contrário. Mas episódios, como o terrível massacre do estádio de Porto Said, no qual torcedores do Al-Masry invadiram o gramado depois que seu time venceu o Al-Ahly, do Cairo, causando a morte de 74 pessoas, nos obrigam a fazer uma reflexão sobre a tremenda carga emocional do esporte que amamos.

Sempre que sou convidado a comentar o papel do cronista esportivo, respondo que a coisa mais difícil na atividade é ter que lidar com um tema capaz de despertar nas pessoas as mais extremadas e destemperadas reações. Só mesmo temas como política e religião conseguem gerar a mesma dose de polêmica.

Quando converso com estudantes de jornalismo, costumo usar o seguinte exemplo: entendam que se vocês escreverem uma frase, aparentemente inocente, como "O Corinthians é um time com muito mais conquistas do que o Palmeiras" (ou vice-versa, antes que me apedrejem!), precisamos entender que ela soará para alguns com a mesma carga de frases como "Jesus é maior do que Maomé" (ou vice-versa).

Não deveria ser assim, mas, infelizmente, raros são os cronistas esportivos que não tiveram que lidar com mensagens ameaçadoras quando elogiaram a atuação de um time em detrimento de seu arquirrival.

Por conta dessa carga emocional, que, gostemos ou não, é uma realidade no futebol, as autoridades deveriam ser extremamente rígidas em todas as questões que envolvem a segurança dos torcedores, sobretudo em jogos de rivais de uma mesma cidade. Só que o cuidado não deve ser tomado apenas pela polícia. Dirigentes, técnicos e jogadores deveriam ser cautelosos na hora de fazer aquelas "provocaçõezinhas" para promover um clássico ou "atiçar a rivalidade". Atiçar a rivalidade, em futebol, é atear fogo num paiol.

O futebol não é um esporte bárbaro - mas os seres humanos, alguns deles, têm um lado bárbaro escondido em algum recanto obscuro do cérebro. E isso precisa ser levado em conta por todos, se quisermos evitar tragédias como a que vimos no Egito.



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